sábado, 23 de abril de 2011

DIZEM QUE SOU LOUCO

Foto de Fernando Gomes

Todo baralho de tarô e toda cidadezinha do interior tem seu louco.

Alguém que fala alto nas esquinas, conversa com os postes, recolhe objetos perdidos, guarda os segredos mais tórridos. Aquele que tudo enxerga e nada fala.

Louco é um tipo alegre, irreverente, não necessariamente doente.

Ibirubá, município de 19 mil habitantes, distante 300 quilômetros da capital gaúcha, já escolheu seu personagem de estimação, seu porta-voz mambembe e folclórico, o Macaco.

– Viu o Macaco por aí?

– O Macaquinho?

– Sim, viu?

– Ele passou há pouco.

Macaquinho sempre passa. É o relógio dos lojistas, a referência da manhã e da tarde. Seu itinerário regula o expediente do comércio.

– Sei da hora do lanche quando ele atravessa a frente da loja – comenta Júlia Amaro, que trabalha na autoescola Jeremias.

Com um boné preto e sua calça furada, é um rapaz que não descansa um minuto, vive caminhando, assentado em bares, entretendo pombas, rindo à toa, assobiando árias esportivas.

– Mostra o que é a felicidade, o que é amar a vida sem preocupação. Tem toda a minha inveja – pontua Gabriela Castelli, 25 anos.

A irmã Viviane Castelli concorda:

– Não é o louco que nos incomoda, é o louco que nos devolve a saúde.

Macaquinho é o apelido de Luís Alfredo Pereira Lopes, 30 anos, locutor oficial das ruas do centro. Ele narra partidas imaginárias do clássico trepidante da liga municipal de futebol, Florestal versus Revelação. É um duelo infinito, borgeano. São horas ininterruptas de gols, pontapés, cartões amarelos e vermelhos, chutes na trave e descrições detalhadas das batalhas da várzea.

Tudo é gritado com um palito Gina na boca.

– É meu sistema de limpeza do som – explica.

Luís nunca olha para cima, ou enverga o pescoço ao céu. Não significa timidez; é parte de sua conduta profissional. Uma distração pode custar a fome do pai Pedro Campos. Varre as bocas-de-lobo com suas havaianas surradas à procura de latas. Recolhe 40 latinhas por dia, o que rende R$ 2,50, dinheiro suado do pão que leva para residência à noite.

– Como o corneteiro do sorvete, primeiro vem sua voz para depois chegar seu rosto – afirma o produtor Mauro Constantino.

Macaquinho é precavido. Não acredita em Deus, mas comparece na missa.

– Vá que Ele exista... Pelo menos o Tio me conhece. Mais fácil de me perdoar.

Decidido, ainda espera realizar sua maior aspiração: arrumar uma namorada e beijar na boca. E talvez seu sonho: andar de mãos dadas na praça.

– Não espero uma mulher bonita, e sim honesta, que não me dê guampa – confidencia.

– Macaco não tem a chave da cidade, mas a porta inteira. No final de semana, é meu marido localizá-lo que ele já se torna o nosso convidado para o churrasco. Isso é muito comum, ele é da família de todas as famílias – afirma Aline Fernandes, 34 anos.

Sobre sua loucura, Macaquinho não nega fogo:

– Normal é aquilo que nos acostumamos. E sou um costume do sol.

Não é que ele tem razão?








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 21, 23/04/2011
Porto Alegre, Edição N° 16679
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8 comentários:

Andréia Borba disse...

Que crônica mais linda!
Quem dera todos pudessemos extravasar nossa loucursem medo, como Macaco o faz...
Abraços.
Déia

LuH disse...

Cheio de sabedoria!
E não é que ele é quem devolve a sanidade?

Abç
:)

Antonio José disse...

Muito bom!!!

Naty disse...

Loucos sábios! Pura verdade: Toda cidadezinha tem um!

Anônimo disse...

Muito bom adorei

Anônimo disse...

Muito bem Fabrico.

gabrieli disse...

fabricio fez um grande trabalho de escrever este texto e uma historia muito interesante garanto que muitos adolesentes gostaram de ler.

Silmara Franco disse...

Faz cinco minutos (mentira; três) que estou na frente dessa caixinha em branco escrito "Postar um comentário". Não sai. Queria que saísse uma coisa bem linda para comemorar sua crônica perfeita, não sai. Deixa assim, então. Mas você também é um costume do sol. Vai dizer que não?