quarta-feira, 27 de abril de 2011

LISTA TELEFÔNICA

Arte de Cínthya Verri


O nome é um espelho. O primeiro e último espelho. A nossa estreia pública, na certidão de nascimento, e o nosso derradeiro aceno das letras, na lápide.

Enxergar o nome impresso foi sempre uma das minhas principais alegrias. Eu sabia que existia, mas era a chance de outros saberem. Vinha como promessa de alguma posteridade, de alguma fama, de algum significado maior.

Talvez a gente viva pelo desejo de ver nosso nome em destaque. É a primeira coisa que a gente aprende na escola: escrever o nome. No meu caso, em intermináveis cadernos de caligrafia.

É o motivo da batalha inicial — de uma guerra sem fim — dos pais por nossa causa: qual será o nome dele?

É uma briga que levamos vida afora, defendendo a grafia em hotéis e documentos e a pronúncia em telefonemas e encontros.

O nome é a solidão, a paz, o ferrolho dos recreios e das corridas, onde nenhum colega pode nos alcançar (terrível quando nos deparamos com um nome e sobrenome exatamente iguais ao nosso, e ainda descobrimos que o gêmeo bastardo é mais rico, sortudo e feliz e que, na verdade, somos o bastardo dele).

Sem nome, não existe destino. Recordo minha concentração obsessiva ao treinar a assinatura para a carteira de identidade, o temor de não repeti-la.

Pense na força do nome nas conquistas. Sem ele, sequer nos alegramos, não há mérito. O nome é a cicatriz da vitória.

Meu nome na toalhinha de rosto do jardim da infância. Meu nome na lista de chamada. Meu nome no boletim escolar. Meu nome no cabeçalho do bilhete de amor. Meu nome no título de eleitor. Meu nome na lista dos aprovados do vestibular. Meu nome no primeiro livro. Meu nome na casa própria. Meu nome no convite de casamento. Meu nome na conta de luz.

Mas o lugar mais importante de todos e o que mais esperei para colocar meu nome, e que hoje não faz nenhum sentido, era a lista telefônica. Antes do Google e dos sistemas de busca, só havia um jeito de encontrar alguém: consultando aquele calhamaço dividido entre as páginas cinza (residencial) e as amarelas (comercial). Não importava que a letra fosse de formiga, de bíblia, imperceptível, que dependia do corrimão do indicador. Quem ali constava desfrutava de respeito, de valor, de dote social. Ter o nome na lista telefônica era a prova incontestável de que havia ingressado na vida adulta. O momento que entrei como proprietário de endereço e telefone não me aguentei de contentamento: Nejar, Fabrício. Página 879 de Porto Alegre. Qualquer trote já identificava como resultado da publicação. Melhorou meu riso no trabalho. Melhorou meu desempenho sexual. Cresceu bigode nas vogais.

Fui mostrar ao meu avô que apareceu mais um Nejar na Lista Telefônica. O décimo primeiro, sublinhei a linha para não me confundir na hora de procurar.

— Olha, vô, aqui! Estou famoso.
— Agora você está igual a todos.
— Ei, por quê?
— Gente comum tem seu nome na lista telefônica, gente famosa tira.



Crônica publicada no site Vida Breve

14 comentários:

Marina Clara disse...

Eu sempre tive orgulho do meu nome, e ver nosso nome impresso como vc disse na crônica é uma sensação maravilhosa. Mas nao existe sensação igual quando vemos nosso nome na lista dos aprovados no vestibular. Não dá pra descrever!

Parabéns pela excelente crônica!

Cecília Sousa disse...

Sábio Senhor Nejar!
Bela crônica by the way.

euEumesmaEaline disse...

Very, very good!

Érico Cordeiro disse...

Oi, "Sr. Nejar",
Gosto muito de suas crônicas e de seus poemas (essa tirada do seu avô foi sensacional!). Sou seu seguidor há tempos e sempre passo por aqui.
Por esse motivo, convido você s seus leitores para as comemorações do segundo aniversário do blog Jazz + Bossa + Baratos Outros:
www.ericocordeiro.blogspot.com
Um fraterno abraço.

Vanessa Gonzaga disse...

Adoro tudo que escreve, sigo vc no twitter e no blog tbm. Se puder dar uma passadinha no meu blog tbm e seguir fico mto honrada!
Parabens e obrigada!

Fabi Magni disse...

Muito boa!

Ana Maria disse...

Genial! Abraços.

Pri disse...

HAHahaaha
Lembrou esse filme
THE SWEETEST SOUND (Alan Berliner).

Re disse...

Fantástico!

Eliane Ratier disse...

vê, e quanta coisa que se achava honraria e foi abuso e tantas outras vantagens que se tornaram empecilhos, gosto do meu nome, da originalidade, do significado, e do desenho dele, tem gente que não se encanta nem com a propriedade da primeira letra do próprio nome, desencanto de nascença...

CMEISAL disse...

kkkkkkkkkkk Adorei o Vô. Prático e direto, não? Ei, essa história me fez lembra a minha sogra. Cheguei em sua casa toda euforica - Passei em quinto lugar no vestibular...! - ela - Tem nada não, minha filha, o importante é que você passou.

karina Nou disse...

Eu,em nome do amor mudei o meu... alias,mudei nao,juntei o meu com o dele. Era Karina Nou, um pouco negativo, agora ficou Karina Nou Hayes ;-) acho q equilibrou, como tb tudo em minha vida ficou assim.

Andressa disse...

hahaha

Kayke Campeche Lira disse...

Que leitura gostosa!
Quando me importava cada vez mais com meu nome, o avô veio e com uma simples ( porém sábia ) fala, "esculaxou" à frivolidade, na qual o personagem dava total importância. Parabéns!

www.personagempricipal.blogspot.com