sábado, 30 de abril de 2011

A CIDADE QUE DEFENDE O NOME

Leandro nasceu quando município, para evitar humilhações, trocou de nome para Campo Real. Fotos de Fernando Gomes.


É triste quando uma criança sofre bullying, essa zombaria destinada a sufocar individualidades.

É mais triste quando uma turma sofre bullying.

É mais triste ainda quando uma cidade inteira sofre bullying.

Por favor, não faça mais nenhuma piada sobre Não-Me-Toque, simpático município do norte gaúcho, situado a 276 quilômetros de Porto Alegre. Basta dizer que nasceu lá que todos começam a rir e pensar bobagem.

– Nome do município é como do pai e da mãe, tem que ser respeitado – xinga a aposentada Vanila Frices, 73 anos.

A nutricionista Gisele Heck, 28 anos, acredita que o espírito esportivo termina quando somente um dos dois brinca. De modo educativo, ela descarta qualquer pretendente que tente um flerte com referência à cidade.

– São cantadas constrangedoras, as mulheres não suportam mais o risinho e a pergunta “posso tocar?”. Se o homem não consegue sair do óbvio no primeiro encontro deve ser um tédio por toda a vida – expõe.

A troça com o nome do lugar facilita a conversa com estranhos, mas esgotou a comicidade. Uma piada contada três vezes perde a graça, e essa vem sendo repetida milhares de vezes aos seus 15 mil habitantes.

– Em Minas Gerais, um policial rodoviário parou meu carro numa blitz e pediu para que colocasse a placa verdadeira do veículo. Eu respondi: não é uma placa falsa, que a cidade existia. Perdi duas horas esperando que ele achasse um mapa do Rio Grande do Sul – lembra o tabelião Sérgio Dornelles, 68 anos.

A humilhação de fora foi tão intensa que Não-Me-Toque chegou a trocar de nome por um tempo. Tornou-se Campo Real, de dezembro de 1971 a abril de 1977.

– Tentamos mudar para ver se diminuía o sofrimento. Mas concluímos que não poderíamos nos acovardar diante do mundo, e um plebiscito decidiu retornar ao nome antigo. Compramos briga com o medo – explica Dornelles.

A alteração do batismo da localidade na época gerou impasses curiosos. O auditor Leandro Bürgel de Souza nasceu em 1975 no momento em que o município era Campo Real. Até hoje sua certidão aponta para uma cidade que não existe. Como um fantasma, ele teve que se esforçar mais para chamar atenção.

– Cresci meio desconfiado de mim – conceitua.

Não-Me-Toque traz duas possíveis fontes para o nome: uma homenagem ao arbusto de tronco curto e coberto de espinhos ou a repercussão de expressões de proteção das fazendas como “não me toque nestas terras”, ou “não me toque daqui”.

Não se tem certeza se a cidade é um caso de botânica ou de valentia, o que posso garantir é que um grupo de amigos não leva desaforo para casa e criou a divertida confraria Os Intocáveis para responder ao bullying.


Às quartas-feiras, 25 moradores se reúnem para tramar ações estratégicas de bairrismo. É uma espécie de Ministério de Defesa informal, um poder moral paralelo à prefeitura, estruturado para desarmar críticas e preconceitos. Adesivos são espalhados pelos carros e vitrines de lojas e restaurantes. É o que expõe o produtor rural Vanderlei Assinck, 42 anos, um dos líderes do bando:

– Depois de uma viagem pelo Brasil, em 1989, com nove amigos em quatro camionetes, entendemos a necessidade de oficializar o movimento. A cada parada num posto de gasolina, tínhamos que explicar nossa procedência. Era muito chato.

João Brum, 88 anos, de chapéu e indumentária gaúcha, sintetiza o espírito teimoso da população:

– Só saio daqui morto. Aliás, nem quando morto.









Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 30, 30/04/2011
Porto Alegre, Edição N° 16686
Veja os vídeos no Facebook

10 comentários:

anazézim disse...

belezura!

Vôgaluz Miranda disse...

Fui batizado com o nome Vôgalus, tive problemas na infância (até os cinco anos quando o meu nome foi trocado judicialmente para Vicente) com as pessoas que insistiam em me chamar de Vogs, Voglus, Voglas, VogsVag etc. Algumas pessoas trocavam o meu nome por ignorância, outras por maldade mesmo. Bem, atualmente tenho voltado a usar o meu nome de batismo com um "z" no final, acho mais simpático, mais artístico, sei lá... Talvez por vingança, o povo que zombava de mim é que se dane. Eu uso o nome que eu quiser. Há inclusive polêmica gramatical quanto ao termo presidente ou presidenta, gente é o que a Dilma quiser! Achei o nome da cidade Não-Me-Toque simpatissíssimo, é poeticamente bonito, a população está correta em não mudá-lo. Os nomes são apenas diferentes, e o que é diferente deve ser, no mínimo, respeitado. Que se danem o bullying, os intolerante e os babacas de plantão. Salve os nomes Vôgaluz, Não-Me-Toque e todos os nomes diferentes do Universo. Abraços, Carpinejar. Seu fã. vogaluz.blogspot.com

Jerlley disse...

Olha o meu nome - Jerlley - sera se sofri bullying na época de colegio!?
Apesar de ser um nome bem simples mas é diferente, álias quem nunca sofreu bullying (ou como chamam em Teresina: Caçar coversa)não sabe o real prazer da superação, do objetivo alcançado.

Visitem (sigam): antimateriadonada.blogspot.com

Marceli disse...

Adorei o seu blog, parabéns pelo conteúdo!


Beijinhos e boa semana,

Marceli
http://dicadelivro.com.br/

Camila Melaine disse...

Nomes diferentes causam "estranheza" para outras pessoas, desde Pequena sempre ouvir piadinhas a respeito do meu nome e olha que nem é tão estranho assim Camila Melaine, daí surgem Camila Me mela, melada e assim vai...
Mas decidir não ligar para os que outras falam.
é simples assim!! se vc "dá corda" é pior.

Fabi Magni disse...

Muito boa!

Ramiro Conceição disse...

“Só saio daqui morto. Aliás, nem quando morto.”


BARCOS
by Ramiro Conceição


Na praia de Itaparica,
patéticos são os barcos.

A ESPERANÇA
descansa de papo pro ar.

A LIBERDADE,
no quebra-mar,
está prenha
de peixes
e de homens:
aqueles ao ar,
do mar,
estão mortos
sem saudade;
esses ao mar,
do ar,
são outros,
sem cidade.

O TRABALHO
ronca de bruços
sob o coqueiro,
que samba
e balança
sob o som
dum partido-alto.

Porém…

O PRESIDENTE naufragou!
O SENADO naufragou!
A CÂMARA naufragou!
A JUSTIÇA naufragou!

E a DEMOCRACIA BRASILEIRA
tenta, bravamente, voltar à terra firme
porque o SINISTRO se prepara sempre
para devorar esses seres inocentes...

No meio da ventania,
ROMEU e JULIETA
se debatem nos rochedos…
Enquanto DEUS desacreditado
parte pro além-mar com medo…

Mas quem vem lá,
no horizonte, em brincadeiras?
Ah, sim, sempre eles:
os POETAS a voar
com as próprias nadadeiras…

sfelipejj disse...

Fabro, dâ um sacada nessa crônica:

http://eduardocyntrao.blogspot.com/2011/04/quem-interessar-possa-ou-o-melhor.html?showComment=1304357425522#c4242758997332907296

sfelipejj disse...

Ah sim, o blog é sobre futebol, é od meu avô que tem 80 anos e sabe TUDO de futebol(eu juro):

http://eduardocyntrao.blogspot.com/

VITOR HUGO disse...

Fabricio, já largo na frente, quando me perguntam de onde sou, largo, sou da cidade dos intocaveis. Me orgulho de ter nascido em Não-Me-Toque. Um abraço para todos, Vitor Hugo Roehe