segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

COLHER DE SOPA

Foto de Cínthya Verri

Cora, a cachorrinha de casa, ficava assustada na virada do ano. Ela se escondia debaixo da mesa, da cama, das cortinas. Uivava para as janelas. Seus gemidos lembravam molas de antigos colchões. Dentes rangendo de insônia. Não se aquietava até que os rojões serenassem em fumaça.

Na troca de 2011 para 2012, ela estranhamente dormiu e não acordou com nenhum fogo de artifício. Suspirava no sofá. Uma colher de sopa perdida na almofada.

Aquilo me intrigou. O animalzinho traduzia tranquilidade de coma: anestesiada, desaparecida em si. Respirava fundo, avessa aos tormentos dos fachos.

Logo o animal que fugia dos trovões e das descargas elétricas nos morros.

A família se preocupou com a súbita quietude e fotografou seus movimentos nos dias seguintes. Quando ela caminhava de costas, invocávamos seu nome e ela não recuava. Batíamos palmas e ela sequer mexia o pescoço.

Reprisei que Cora não atendia nossa voz como antes, não obedecia pedidos para sentar ou deitar, não vinha na cozinha quando gritávamos "hora da comida", não abanava o rabo com a trilha sonora que Cínthya criou para ela.

Também latia menos e dormia o dobro.

Uma vitória-régia boiando na sala. Uma sanfona se coçando de vento.

Entrávamos de madrugada na residência e ela não respondia. Tínhamos que tocar em seu pelo para despertar uma reação. O tato era o seu último alerta.

As cenas foram esclarecendo os sintomas. Descobrimos que nossa cachorrinha está surda. Não escuta nada.

Despertou uma dor avulsa. Uma dor de azulejo de pares quebrados.

Cora não entende que foi ela que deixou de ouvir, mas acredita que nós deixamos de falar com ela.

Na cabeça da cachorrinha, sem explicação, todo mundo parou de procurá-la.

De repente, ninguém mais a chama, ninguém mais canta para ela, ninguém descreve as paisagens.

No seu universo preto e branco, a surdez é concebida como um castigo. Ela não sabe o que fez de errado para desaparecer o som de nossas bocas.

E treme de frio quando nos observa. Um frio de medo, não de vento. Um frio de quem precisa entender o que aconteceu. Olha longamente as vogais de sabão saindo dos nossos lábios e subindo aos céus. Palavras áereas, mudas, velozes.

Conto tudo assim porque amor é mudar, sempre mudar, sempre se adaptar. E nunca cansar de criar idiomas.

É agora pegar Cora mais no colo, é falar com as mãos, é se aconchegar ao seu corpo para que não mais estranhe o silêncio e reconheça os timbres pelo olfato.

32 comentários:

Diego Carvalho disse...

Bah, tchê... singela e linda tua crônica. Parabéns como sempre!! Abraços do ex-vizinho da tua mãe no Parque Eldorado.

sylvia beatrix disse...

Dor em cronica. Sentir por Cora e mudar por ela. Até que perceba a voz pelo olfato... isso é lindo!

Naty disse...

Tô aqui sozinha na frente do note chorando, emocionada pela dor da Cora, pelo carinho de vocês...

floresnagarrafa disse...

Linda!
Amei.

Janine Lorenzo disse...

Acho que só conquistei realmente meus gatos com as minhas mãos. O Dark, o gato preto, sempre me tratava com desprezo no começo. Quando muitos não sabiam dosar o peso das mãos ao acarinhá-los, fui suave com os dedos. A nossa linguagem é essa. Descobri como eles querem ser tocados. Hoje, eu acho que o Dark me trata como mãe, rs. :)
Abraços Carpinejar!

Anônimo disse...

Linda crônica! Parabéns pela sensibilidade com os animais, principalmente com seu, o qual ficou explícito que é mais que um simples animal de extimação, e sim parte de sua familia. Tudo vai dar certo e Cora vai perceber que o amor de voc~es por ela continua o mesmo!

Anônimo disse...

Isso começa triste e tem um desfecho lindo.
É mais fácil eu dar a vida por eles do que por humanos.

Anônimo disse...

Simplesmente lindo!
Você soube traduzir emoções em palavras!
Cora precisará mais de vocês como nunca!
Boa sorte, Feliz 2012!

Karine Lins disse...

Que haja percepção...
Adorei.

Cintia Clara disse...

Interessante como quem convive e ama seus "amigos de estimação" vivem cada fase de suas vidas, sentem cada alegria e cada tristeza, sendo seus companheiros e cúmplices até o fim de suas vidas. Acredito que não haja relação mais sincera que a de um cão ou gato para com aqueles com que convivem. Seus agrados e desagrados são explícitos mesmo que "sem palavras". Uma relação 100% genuína qualquer que seja a modalidade. É simplesmente sublime para aqueles que se permitem.

Gostei bastante da crônica!

Veridiana Ache Rodrigues disse...

Carpinejar, tive uma cachorra da raça Samoieda, colocamos o nome de Madonna devido a semelhança com a cantora no fim dos anos 80 "pelo branco e de olhos azuis"(pessoas que amam cachorros sempre comparam cachorros com humanos)Madonna ficou surda assim como Cora.Rapidamente quando percebemos sua surdez a levamos no veterinário ele somente olhou para a cachorrinha Madonna e disse:"Ela é especial." Desapontada retruquei: "Como assim especial?"-pra mim ela era especial, iteligente, tudo de bom.Então ele me explicou:"Ela é especial e por isso desenvolveu a surdez, ela tem uma falha genética 'é albina'!. Continuei interrogando-"Albina?""como saber se todos as raças Samoiedas são brancas?" o veterinário respondeu com sincera compreensão sobre minha ignorância embora ingênua: "-Ela não é albina porque é branca ela é albina porque tem olhos azuis quase brancos" e continuou "Quando um cão é albino devemos nos precaver pois podem cegar você teve sorte que a mudança ocorreu na audição." Enfim levei minha cachorra pra casa e senti muito durante dias..(como você agora, não sabendo como iria ser,como deveria tratar a minha cachorrinha) liguei para o veterinário dias depois ainda triste e preocupada e então ele me perguntou: " Sua cachorra ainda late? Ela ainda responde a seus estimulos? ela sente seu afeto por ela?...Se uma dessas coisas acontece então não sinta pena ou não tenha medo de que ela venha a sofrer.Seja corajosa e alegre-se, ela sentirá isso e então aos poucos ouvirá vc de uma outra forma.Quando li sua crônica me deparei uma história parecida a minha e então resolvi te escrever espero que de alguma forma te ajude.Um forte abraço em você e na Cinthia

Lana disse...

Maravilhosa sua crônica Fabrício...confesso que chorei...

Mel Dian disse...

Que lindo, parabéns pela crônica!

Anônimo disse...

Emocionante.

Sil disse...

Sempre maravilhoso, sensibilidade e poder de traduzir sentimentos em palavras!

Yeda Roman Picolotto disse...

Linda e emocionante crônica!Quem tem em casa um animalzinho como a Cora(eu tenho)sente-se profundamente sensibilizada com lágrimas no rosto por conhecer a tristeza em que a Cora se encontra.É muito tocante essa dor da Cora revelada por meio de suas palavras!

Eliane Ratier disse...

Colher de chá cavocando raspas de maçã na casca oca. Doce e terno como teu sentir traduzido em palavras. Também tenho um cachorrinho que não ouve nem vê, obrigada pela lembrança dos outros sentidos. Beijos

Sinara disse...

Muito emocionante e, completando, o post da Veridiana Ache Rodrigues fechou com chave de ouro... Impossível não chorar... Que a Cora fique bem e aprenda a sentir o amor de vocês de várias outras formas.

Angelita disse...

Adoto tu e a Cínthya, e fico feliz pela Cora por pertencer a vocês. Um abraço carinhoso pros tres

Angelita disse...

Digo, adoro tu e a Cínthya

Izabela Cosenza disse...

putz, fabrício. que texto bonito e amoroso...
que bom que cora tem a vocês.

maria a paiva disse...

to chorando toda...

Anônimo disse...

Se as pessoas tivessem o mesmo carinho por pessoas que ficam cegas ou surdas o mundo estava salvo.

Cecil disse...

tocante. tb me emocionei.

Simone disse...

Emocionei-me. Lindo texto, não resisti e postei no Facebook indicando seu blog ao final, e agora - depois de feito - peço sua autorização. Abraços!

Anônimo disse...

tu escolhe as palavras tão certas!!!
Lindo texto.
Cora... linda Cora... ela ouvirá o som do teu coração, com certeza. E saberá o amor q tens por ela.

Re disse...

Que lindo! "Amar é mudar, sempre mudar, sempre se adaptar."
Com certeza a Cora vai perceber que a voz mudou de lugar: agora são os dedos que falam, para que ela possa escutar com a pele. E tem palavra mais bonita do que a falada pela mão, traduzindo o que o coração sente?

Anônimo disse...

ESTOU CHORANDO MUITO!
COISA LINDA!!!!

Nicole disse...

nossa, me deu um aperto no peito...
acabei de passar por isso com o Peter, meu cocker de 10 anos.
Um pouco antes disso descobrimos que ele também possui 2 tipos de câncer, ainda assintomáticos.
Sinto uma dor cortante ao afagá-lo, pois sei q ñ pode ouvir palavras de carinho e que se sente sozinho e triste por isso boa parte do tempo. O sentimento de impotência diante do fim próximo é terrível. Como alguém disse certa vez "a vida do cão é muito curta e este é seu único defeito", algo assim...

Professor Diogo Xavier disse...

Se você não se importa, compartilhei esse texto em meu blog (http://minhalinguaeeu.blogspot.com/2012/01/fabricio-carpinejar-leitura-deleite.html). Belíssimos seus textos. Grande abraço.

MOliveiraPyhus disse...

Você não vai concordar com o que vou dizer, pois sei que você gosta muito de 'gente' - compartilhar, conviver - estas coisas... Ando muito irritado, indignado mesmo com as pessoas, é, as pessoas...Essa gente que diz uma coisa e faz outra, essa gente dissimulada, que trai um amigo - pois não existem mais valores...Tudo isso para dizer que prefiro conviver com os animais do que com os humanos, pois eles são leais - ao contrário de nós. Viva os animais e que os humanos aprendam alguma coisa com eles...

Queila disse...

Emocionante, chorei de saudade da minha Cissa.