terça-feira, 3 de janeiro de 2012

MINHA CIDADE SÃO AS PESSOAS

Arte de Peter Blake

O que faz gostar de uma cidade são as pessoas. A amizade é o ponto turístico que resiste ao tempo.

Minha vontade de conhecer mais as praças, os bares e restaurantes depende de alguém emocionado com sua rotina.

Lugarejos ficam atraentes com o entusiasmo de seus moradores. Nem requer grandes monumentos de Antonio Caringi, façanhas arquitetônicas de Álvaro Siza, desenhos de Oscar Niemeyer, paisagens de Burle Marx, mas o cuidado com as singelezas maravilhosas de seu bairro.

O que me seduz é como o morador desenrola o mapa discreto do seu dia a dia. É quando valoriza as quadras de seu mundo, e tem interesse em mostrar onde é o minimercado em que compra suas urgências, a cafeteria que cura sua ressaca, a floricultura que devolve sua esperança no amor.

O arrebatamento surge mais pela ternura do embrulho do que pelo presente. Papel dobrado com fita reflete o dobro de confiança.

A generosidade torna qualquer local agradável, e repõe a gana de voltar. Carisma de garçons salva restaurantes. Simpatia de manicures salva salões. Paciência de atendentes salva lojas.

Não há maior educação do que a alegria.

Sou influenciável pelos personagens comuns que não se esgotam em acordar cedo e falar bem de seus percursos. Fogem do elogio da lamúria. Retiram milagres das repetições.

Os amigos formam minha cidade. As ruas que passo mereceriam nomes das pessoas que amo. Deveria mudar as placas dos logradouros: nada de políticos e celebridades, mas quem é famoso secretamente em meu silêncio.

Moraria na Rua Cínthya Verri, médica e terapeuta, paralela às ruas Mariana Carpinejar e Vicente Carpinejar, que eu não sei ainda o que eles serão, mas já são tudo como filhos. Os pais, Maria Carpi e Carlos Nejar, teriam direito a duas avenidas do tamanho da Assis Brasil e Ipiranga.

Batizaria o viaduto que me leva ao centro de Mário e Diana Corso, casal de confidentes. Seria Diana para quem chega e Mário para quem parte ao interior do Estado.

O mercado público ganharia a graça de Luiz Ruffato, irmão de prosa que cataloga frases de efeito. Chamaria o teatro de Cíntia Moscovich, a casa noturna de Renato Godá, o shopping de Eduardo Nasi, a Biblioteca Pública de Rosemary Alves, a orquestra de Francesca Romani, a Agência de Correios de Fernanda Seelig. Honraria o Jardim Botânico com um professor fundamental, Luís Augusto Fischer, que me alcançou uma lição preciosa: somos mais inteligentes criando novas dúvidas do que repetindo certezas. Convocaria um colorado, Paulo Scott, para assumir a posteridade do estádio.

Desejaria indicar o crítico Daniel Piza para ser minha rodoviária, espaço em que ocorrem as mais pungentes despedidas. Mas ele morreu na última sexta, aos 41 anos, de AVC. Não dá mais.

Amigo vivo é rua, amigo morto é estrela.

Daniel Piza vai piscar conselhos para mim toda noite.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 3/1/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 16935

22 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Certamente, o o principal ponto turístico de uma cidade são seus moradores, pessoas que dizem mais à alma do que a foto do cartão-postal, pessoas como Daniel Piza.

Alice Mânica disse...

Sua crônica me fez pensar nos nomes dos amigos com os quais batizaria meus caminhos pela cidade...

Vanessa Bencz disse...

ai Fabro... ñ me canso de te ler!
http://garotadistraida.wordpress.com/

Anônimo disse...

Singeleza de doer... (abracao da Laura Leiner)

Relicário Urbano por Aline Barbosa disse...

Encantador...

Anônimo disse...

Seu talento pra escrever é sem retoques. parabéns!!!!!!

luisa vaghetti disse...

me formei em jornalismo na ufrgs em 96, desde então fui morar em pelotas.Todo mês de novembro, durante minhas férias, retorno à capital para encontrar meu AMIGOS. A cidade em si já não me encanta mais. Quero a alma e esta só encontro no brilho dos olhos daqueles que amo.

João Marcos disse...

Delícia de texto. Homenagem discreta e emocionante ao Piza.

Parabéns pela participação no Provocações. Sintonia grossa mas doce Carpinejar-Abujamra.

Cassio Rubin disse...

Excelente texto! A sua 1a frase foi o motivo que me trouxe morar na minha terra Natal!

Rita Ribeiro disse...

Muito lindo!

Cecil disse...

lindo de arrepiar. Parabens, sempre!

Anônimo disse...

Fabrício,

Você consegue combinar encanto e magia em cada uma de suas palavras. Não consigo deixar as manhãs passarem sem passar por aqui a procura de novos textos, novos devaneios. Sou sua fã, admiradora.
O texto de hoje sem dúvida deve ter feito muitas pessoas pensarem e até mesmo sentirem vontade de dar o nome das ruas a cada um de seus amigos.
Tenho que concordar com vc que a Fernanda Seelig ganharia destaque em uma das ruas, achei o máximo encontra-la destacada por aqui e saber que mais pessoas tiveram a graça de conheçe-la!

Um grande abraço.

Ramiro Conceição" disse...

Fabro, essa está no nível daquela
"Querido Sérgio 'Prego' Fischer".

dspouso disse...

descobri isso na virada do ano com os nordestinos na periferia de Brasília. Excelente guri. Vi ontem tUA ENTREVISTA NO PROVOCAÇÕES. Falta gora tu ser gremista. Larga o inter que te aceitamos.

Ramiro Conceição disse...

Em tempo ainda...

Efetivamente, a arte é uma menina em um beco-labirinto à procura e ao encontro de saídas. Essa sua crônica remeteu-me àquela que mencionei acima. Pois bem, a reli novamente e redescobri que o Luís é o irmão do Sérgio.
O surpreendente foi que escrevi o comentário anterior de maneira totalmente inconsciente… E observe, Fabro, a sincronicidade: o Luís lhe ensinou uma lição primorosa “somos mais inteligentes criando novas dúvidas do que repetindo certezas”.
É engraçado, faz algum tempo que inventei um aforismo que sempre digo aos meus alunos quando percebo em seus olhares o medo terrível de perguntar: “não existem dúvidas idiotas, mas respostas idiotas.” E ainda reforço “nunca acreditem piamente em qualquer professor, pois ele pode estar a reproduzir uma idiotice”. Sempre, depois disso, advém uma constelação de estrelas-cadentes-perguntadeiras… E a aula flui para algum sentido possível.

Ramiro Conceição disse...

Fabro, feito agorinha, agorinha…


CONSELHO
by Ramiro Conceição


Por favor,
nunca acredite piamente em ninguém
porque pode ser um alguém… idiota.
Meu amor,
não há dúvidas idiotas,
mas respostas idiotas.

floresnagarrafa disse...

Ler esta cronica é ler você.
Encantador meu querido..
Beijo grande.

Érica, disse...

Texto lindo, homenagem merecidíssima ao Daniel Piza.
Saudade.
um bjo afetuoso meu.

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Bela homenagem e o texto passa uma mensagem muitas vezes esquecida: a de que a beleza também reside no cotidiano das coisas e do mundo... Tem uma estrela sorrindo agora!

Naty disse...

Linda homenagem!
Bjs

Denise Guilherme disse...

Olá, Carpinejar
Feliz 2012
Há algumas semanas tenho tentado contato via e-mail para pedir-lhe autorização para publicar uma crônica sua - Encadernado pela Imaginação - na revista do Instituto Avisa lá. (www.institutoavisala.org.br)
Esse texto foi publicado pela Crescer também.
Gostaría de obter um retorno seu mas, cremos que esteja em férias.
Há outra pessoa com quem possa entrar em contato?
Grata
deniseguilherme@avisala.org.br

Aline disse...

Texto perfeito!
Cheguei a me emocionar...
Resume tudo o que penso sobre as cidades!! Parabéns pela tua ENORME sensibilidade!!!!!!!!