domingo, 8 de janeiro de 2012

O BIÓGRAFO CORAJOSO DE MACHADO


Todo escritor tem um gênero caixa-preta, que não abre em vida. A poesia foi o esconderijo estilístico de Guimarães Rosa, de Clarice Lispector, de Lúcio Cardoso. E de Daniel Piza, uma perda irreparável para literatura e jornalismo, falecido aos 41 anos, na virada de 2012.

Piza mostrou as garras afiadas de ensaísta, contista, ficcionista. No fundo, era um poeta bissexto. Secretamente devaneava versos. Há um livro de sonetos inéditos na gaveta - pode procurar em seu valioso espólio.
Sua alma fora armada para capturar voos extravagantes e raros. A acidez defendia a delicadeza. A ironia protegia a inocência.

Possuía a vocação ao verso curto, à máxima densa e acachapante. Flâneur do desespero, conde do humor, escrevia com agudeza insuportável.

- Quem fala ‘no meu tempo’ o tempo inteiro já não tem muito tempo - provocava.

Sua independência vinha em primeiro lugar, soberana. Não poupava colegas, não escapava dos debates frontais. A resposta não representava um direito, e sim um dever. Como um verdadeiro intelectual, contava com poucos amigos, mal enchia um café. Já seus inimigos renderiam procissões e comícios. Até porque a inveja é uma admiração platônica.

Piza foi tão amado quanto odiado. Não conheceu a indiferença.

Não gerava suspiros, mas arroubos. Combatia a falsa ingenuidade, prima do ressentimento. Cavava espaço para diferenças sutis. Advogava a moral (preceitos do caráter) contra moralismo (preconceito), por exemplo.

"Aforismos sem juízo", seção do Estado de São Paulo e reunida em livro pela Bertrand Brasil, é uma coleção impecável de ataques líricos. A graça que dói e garante a grande literatura, lastro de Paulo Francis, Mário Quintana, Otto Lara Resende.

A seleta apavora a etiqueta com inversões. Destrói argumentos com contrapontos. Dizima bocejos com torpedos.

Da mesma forma em que Nicanor Parra criou a antipoesia no Chile para conter a hemorragia palavrosa de Neruda, Piza cunhou o antiprovérbio para frear o proselitismo acadêmico. Salvou o jornalismo da tese universitária.

Seus lemas: muito do pouco, clareza agressiva e intensidade do exato. Caracteriza o aforismo como breve, definitivo, pessoal, surpreendente e filosófico.

A boa frase começaria de uma ideia comum e morreria com estremecimento de estrela, clarão desconcertante e imprevisível.

- Nada mais crédulo do que não acreditar em nada - advertia.

Piza foi nosso Karl Kraus, nosso Chamfort, nosso La Rochefoucauld. A chance de duvidar das aparências e também das certezas.

Desconfiava da meia-verdade, desejava encontrar a verdade e meia.

Não informava, deformava a notícia pronta para que enxergássemos o pensamento sem censura e amarras.

Transpirava coragem. Empreendeu a biografia de Machado de Assis (Imprensa Oficial) - rapel da língua portuguesa, tarefa para sepultar reputações. Nunca se alcovitou na preguiça, não recorreu a nenhum dos romances ou contos do Bruxo do Cosme Velho como molde narrativo.

Humildade é elegância. Não apareceu mais machadiano do que Machado. Derrubou a tese de que Machado mudou de repente ao escrever “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881). Ele não mudou, cresceu de modo coerente e progressivo. Piza revirou jornais, detalhes, miudezas, documentos para reconstituir os 69 anos da vida do maior escritor brasileiro. Furtou a casa de Machado enquanto ele vivia, revelando a evolução estilística do autor na intensa produção de crônicas em jornais e em peças de teatro, descrevendo com cuidado atento (nunca bajulação) a sobrevivência social em ambiente hostil.

Machado disse sobre sua mulher Carolina: “Não acharia ninguém que melhor me ajudasse a morrer”.

A literatura de Daniel Piza ajudará o leitor a viver sem ele. Mas será muito difícil. E completamente injusto.

Publicado em O Estado de São Paulo
Memória
"A polêmica como ofício: homenagem a Daniel Piza"
Caderno 2, ps. 8 e 9
São Paulo, 8/1/2011
Ano 133 N. 43181

9 comentários:

Naurelita Maia disse...

Adoro ficar carpinejando por aq. Quando nao estou lendo vc na net, leio nos livros. E quando não leio, lembro, comento. Carpinejando, descubro coisas,espelhos. Vou carpindo, remoendo, deglutindo, brigando e me apaixonando com tudo que escreve. Obrigada por ser o que é!

Bazófias e Discrepâncias de um certo diverso disse...

Carpinejar, gostei muito do artigo. Você enfatizou as preferências teóricas do Daniel Piza, a sua familiaridade com autores e com o seu trabalho de jornalista. Algo meio incomum na sua produção literária, um texto que encheria de orgulho o Piza, colocandoo a nu diante dos seus leitores. Eu senti muito a morte dele, esses dias atrás havia comentado em seu blog a respeito do Natal, também havia comprado na quarta (28) o livro sobre o Machado de Assis, motivado pela entrevista que o Piza concedeu a um programa da UNESP FM, dirigido pelo Oscar Dambrósio (programa que você participou também). Enfim, pensamos em tudo que ele poderia ter criado ainda, mas a sua contribuição para a cultura brasileira e mundial foi grandiosa, mesno tendo falecido tão jovem. um abraço

Murilunk disse...

Ficaram muito boas as duas páginas dedicas a ele no Estadão de hoje. Antes, meu caminho era formado por João Ubaldo Ribeiro, Veríssimo e Piza. Agora, minhas leituras dominicais estão mancas, com esse valioso membro que foi amputado.

Caixa de Pandora disse...

guardo comigo o estimulante relacionamento,e intensos diálogos, com Daniel em torno de Machado (de Assis -- especialmente pelo meu livro de 2008) e de Euclides (da Cunha -- pelo meu livro de 2009). se assim pode-se supor- e criar -- vai ele juntar-se a esses dois no olimpo da cultura brasileira. abalei-me, entristeci-me demais... um desses diálogos em torno de Machado deu-se,com fartos elogios do Daniel - pouco antes do lançamento de meu livro de 2008, que no ensaio crítico apresento esses raciocínio, de resto consensuak nos mais lúcidos estudiosos machadianos - exatamente sobre o processo de evolução literária de Machado:(...)Evolução literária machadiana que desenvolveu-se ao longo de sua vida literária (e pessoal) como um processo, um todo coerente e consistente – obediente a escalas e estágios, por certo, como o é todo processo – mediado por um período de marcante inflexão que antecede o que se convencionou denominar ‘o grande salto’, a grande mudança -- que tanto instiga estudiosos, pesquisadores,historiadores, críticos ; e leitores, por que não . Inflexão que,a par de contribuir positivamente para a análise e interpretação adequadas da trajetória machadiana, em contrapartida serve para sedimentar um conceito, ou avaliação, de muitas formas discutível : a divisão da obra -- ficcional e não-ficcional -- de Machado em duas fases ,o ‘aprendizado’ versus a ‘maturidade’, a ‘formação’ versus a ‘radicalização’.
Procuro reformular o conceito estabelecido sobre tal dicotomia – simplesmente porque a obra machadiana submete-se a estruturas básicas que se superpõem, se interligam e se renovam : na verdade, a estética ficcional e não-ficcional e o pensamento literário machadianos não podem nem devem ser tão facilmente encaixados nesses dois blocos distintos, até porque se desenvolvem e se coadunam concomitantemente,seguindo, ambos, vis a vis,a mesma linha no decorrer de toda sua carreira,apenas sedimentando-se e amadurecendo consistentemente pós-1880 e nas obras seqüentes.
O fato de ser discutível considerar a obra machadiana catalogada em duas ‘fases’ não implica necessariamente em renegar a existência, como em todo processo , de escalas e estágios, com nítidos pontos de inflexão,ou de mais intensa transição : no caso de Machado, os anos 1868-71 , de resto condizente este com o próprio momento histórico-político do País , e principalmente o biênio 1878-79, quando se deu, primeiro a publicação do romance Iaiá Garcia– essencial obra de transição ,de certo modo ‘subestimado’ em sua relevância como elemento crucial de “ponto de viragem” ficcional , antecipador que é da experimentação levada a efeito em Memórias póstumas de Brás Cubas, e; depois, os contos “A chave”, “Curiosidade” e o aqui presente “Um para o outro”, todos publicados em A Estação no mesmo ano de 1879 – mantendo entre si, porém, diferenciações acentuadas e características distintas.
Convém observar que mesmo nos primeiros contos, anteriores a 1879, Machado já formula críticas e ‘desmistificações’ (quer estéticas quer temáticas quer tramáticas, até mesmo formais e de conteúdo ) ao Romantismo, sob a fina e sutil capa de ironia que já lhe era então peculiar (e que o acompanharia por toda a trajetória). Machado, aliás, considerava,ainda no final da década de 1860, o Romantismo-- em sua essência e sob a estética vigente desde suas origens no Brasil,mas ainda hegemônico no Brasil do II Reinado – em plena decadência e literalmente “acabado”.(...)
grato, Fabricio.

Luis disse...

Daniel Piza fará falta.
Mas dizer que ele foi nosso Karl Kraus é um pouco demais.

Roberta Fraga disse...

Realmente mais uma tristeza para o triste 2011. :(

andré boniatti disse...

parabéns, carpinejar, pela tua literatura sempre benvinda... e por lembrar dos teus!

Ana Claudia disse...

Gostei muito desse texto, e deu vontade de ler o Daniel Piza.
Abraço,

mutuca disse...

"Derrubou a tese de que Machado mudou de repente ao escrever “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881)"

Na verdade, essa tese já não estava mais em pé fazia tempo. O Alfredo Bosi, por exemplo, já havia escrito e ensinado isso há bastante tempo. O Piza fez por merecer elogios menos anacrônicos.