terça-feira, 24 de junho de 2014

ESPERANÇA É O QUE MAIS DÓI

Arte de Sônia Menna Barreto

É me acomodar no avião e já adormeço. Nem espero o comissário fechar as portas.

Durante conexão de Galeão para Salgado Filho, escorado na janela, pronto para babar, escuto uma mulher chorando na poltrona da frente.

Sempre vou acordar quando ouvir uma mulher chorando. Meu sono não resiste a mulher chorando.

Ela soluçava ao telefone:

– Você disse que a gente moraria junto depois que terminasse seu treinamento. Você mentiu, você só está me enrolando com promessas. Promessa dói. Esperança dói.

Não alcançava qual o contexto da conversa, mas sua frase produziu muito sentido.

Esperança dói!

Eu quase chorava junto. Ela estava coberta de sentimento mais do que coberta de razão.

Concordava com ela: não minta com esperanças. Minta com qualquer outro sentimento, menos com esperança. Não ofereça esperança se não acredita na relação.

Pense bem antes de falar, pense se realmente deseja cada verbo. Cuidado com aquilo que sonha em voz alta.

Todas as palavras são estrelas cadentes. Prometer é sério, prometer é se comprometer.

Não adianta dizer que só falou, alegar que não fez nada de errado e lavar as mãos no vento. Falar é fazer.

Entenda que a esperança é o que mais machuca. Não há maior tortura do que gerar esperança em vão: é oferecer para tirar.

Não estimule projetos se não está disposto a cumprir, se não é sincero, se não é verdadeiro.

Não diga da boca para fora pelo prazer da hora, pelo romantismo, pelo arrebatamento.

Imaginar já é concretizar. Se não tem segurança com sua companhia, não iluda. Não fique fantasiando casa própria, filhos, cachorro, viagens ao Exterior. Não insufle o porvir para agradar. Não disfarce o pouco sentimento com a eternidade. Não chame o futuro impunemente. Não apele para a emoção à toa.

A fantasia é uma responsabilidade do casal. Pois o amor é o que se vive somado ao que se conversa somado ao que se planeja.

Ao fortalecer intenções, permite que ela ou ele passe a esperar dali por diante.

Somos crianças no amor, ansiosas pela confirmação das expectativas. Enxergamos o que imaginamos, trabalhamos para conseguir o que imaginamos.

Esperança é também parte importante do namoro. Esperança é também lembrança do namoro. Esperança é também memória do namoro. Esperança é também realidade do namoro.

O que foi idealizado a dois é um patrimônio da intimidade, um marco da confiança.

Ninguém sofre numa separação por aquilo que aconteceu, sofrerá por aquilo que não vai mais acontecer. Sofrerá pela perda da esperança mais do que pela perda do amor.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2,  24/6/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17839

8 comentários:

Clara Mello disse...

Que lindo! Realmente esperança dói.
Amei a parte das palavras serem estrelas cadentes, é exatamente isso!

Renato Porto disse...

Muito bom o texto Fabricio, quem já não sofreu por falsas esperanças ou será que nós é que queremos transformar as palavras em esperança para nós mesmos?

Bruna Cembrani disse...

Fabricio eu amo ler o que vc escreve, sempre que posso leio, vc escreve as coisas verdadeiras e profundas, nós sentimos e não sabemos expressar. parabéns sou sua fã desde que vc foi à Foz do Iguaçu na feira do livro (faz tempinho já hehehe) parabéns e continue assim!!

Priscila Sena disse...

Amooo seus textos Fabrício. Também adoro escrever!!
E quanto a este texto em especial, concordo plenamente. "Ninguém sofre numa separação por aquilo que aconteceu, sofrerá por aquilo que não vai mais acontecer."
Parabéns!!!

Claire Walch disse...

Muito bom e realista! Infelizmente a situação reproduzida e o tema abordado são vividos dia após dia. Espero viver para presenciar pessoas com responsabilidade a ponto de cuidar do outro.

DONILDONIL disse...

Queria ter uma segunda chance, precisaria corrigir algumas atitudes. Precisaria ler os textos do Fabrício e ter a capacidade de entendimento para extrair o nectar. . . .

Duda disse...

Exatamente isso, super concordo! Por favor, não dê esperanças a outras pessoas se não sabes se vais cumprir o que está falando. Esperança dói e muito!

Anônimo disse...

Só não é mais profundo que cavar.
��������
Parabéns.