domingo, 29 de junho de 2014

SEPARAÇÕES LÍQUIDAS

Arte de Félix Vallotton

Casar virou namorar, namorar virou ficar, ficar virou provar.
 
Acredito que todo mundo casa fácil porque é também muito fácil se separar.
 
Nos anos 70, o casamento era medido por décadas. Mesmo quando um casamento fracassava, durava no mínimo duas décadas.
 
Nos anos 80, o casamento era medido por anos. Mesmo quando um casamento desmoronava, durava no mínimo cinco anos.
 
O casamento hoje é por dia. Como se fosse hotel.
 
Agora, o matrimônio cobra diária. Todo dia é dia de se separar. E por qualquer coisa.
 
Las Vegas do divórcio é aqui.
 
Você pode sair de manhã, eufórico e confiante, extremamente disposto, seguro do romance, e quando voltar à noite não encontrar mais ninguém ao seu lado.
 
Se cometeu uma falha, nem terá oportunidade de se explicar. Se não errou, nem terá chance de entender e desfazer confusões.
 
É tão simples se divorciar que ninguém mais pretende se estressar. Não há nem o civilizado e educado aviso de despejo. É dar as costas, largar o passado e seguir adiante. Quebrou o amor, troca! Quebrou o amor, compra outro! Quebrou o amor, não vale investir consertando!
 
Os casais não brigam mais até cansar para, então, se separar. Não brigam mais até esgotar as possibilidades para, então, se separar. Não tentam durante semanas e semanas expor as dores, as feridas e a raiva para, então, se separar. Não recorrem ao choro, à histeria, ao perdão, ao abraço, ao exorcismo, aos centros religiosos, aos amigos, aos parentes para, então, se separar.
 
A separação vem antes. A separação é a regra. A separação é o hábito. A separação é seca, definitiva, sem explicações.
 
As pessoas se separam primeiro para depois discutir. As pessoas se separam primeiro para depois conversar. As pessoas se separam primeiro para depois desabafar o que incomoda.
 
Elas arrumam todas as malas, esvaziam os armários, realizam a limpa no apartamento e depois, se houver vontade, se encontram e sentam frente a frente para resolver as diferenças.
 
São uniões interrompidas com silenciadores, distante de estampidos e gritos.
 
Ninguém se separa de fato, todo mundo deserta, todo mundo abandona a convivência.
 
É uma irresponsabilidade extraordinária com o outro, é uma indiferença tremenda ao que foi construído com o outro, é um desprezo ao que foi sonhado a dois.
 
E os motivos podem ser os mais loucos e insignificantes. O desenlace não ocorre mais por justificativas duras como adultério e deslealdade.
 
Há gente que se separa por incompatibilidade de gênios (expressão que denuncia megalomania, o correto seria incompatibilidade de burros).
 
Há gente que se separa porque não suporta o medo de ser traído.
 
Há gente que se separa porque estava muito feliz e não aguentava tamanha pressão.
 
Há gente que se separa porque se viu entregue ao relacionamento e estava perdendo a identidade.
 
Há gente que se separa porque não sabia mais o que estava fazendo da vida.
 
Há gente que se separa porque não esperava que fosse assim.
 
Atualmente entra-se numa relação e não se fecha a porta – a porta permanece encostada o tempo inteiro.
  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 29/6/2014 Edição N° 17844

11 comentários:

Monica disse...

Entrar na relaçāo de porta entreaberta nāo é 'casar', Fabrício!

DONILDONIL disse...

DONILDONIL, 65, minha Deusa, 60. Depois de 40 juntos com a promessa de que seria até a morte, já tentou ir embora algumas vezes com o argumento de que já cumprira a promessa feita no altar. . . Consegui mante-la juntinho a mim apelando para uma história bem construída, loucuras realizadas pelos dois, momentos inesquecíveis. Não sei até quando, pois, de fato as coisas mudaram e muito, em nossa volta só precipícios, desamor, falsidade, futilidades, mídia sem conteúdo, e sabe como é "água mole em pedra dura. . . ." O fato é que como homem que sou, não quero ficar só e ao sabor das marés, posso cair em tentação e com certeza vou me arrebentar. Mais um dia com ela melhor que um ano com outra qualquer e estou apostando todas as minhas fichas em minha Deusa. . . .

Juliane P.Paim disse...

Texto perfeito, aliás, como todos os outros. Carpinejar, te ler é melhor do que qualquer sessão de terapia.
Obrigada pelas palavras, obrigada por ser um sábio que compartilha o lado "b": o lado BOM de tudo!!
Abraços, de uma grande admiradora!

Anônimo disse...

Perfeito!! Vale a leitura.

Sandra Meurer Romanini disse...

Estou casada há 27 anos, muitas vezes me surpreendo com este número. Pois, me parece muito tempo. Porém, no convívio percebo que já alienamos, iludimos e também separamos para re-encontrar o fio do amor. A união, sem querer ser demagoga, está nas palavras me parece. E, enfrentar vazios, investir o tempo e os cansaços faz retornar os efeitos do cuidado com cada um em nós. Assim, um amor para mim dura, mas se houver dois, ou tantos em nós. Obrigado pela tua atenção ao "relacionar", pois a imediatez presente na atualidade faz parecer que os relacionamentos tmb tenham que ser descartáveis sem reciclagem.. ;) Sandra Meurer Romanini

Anônimo disse...

Perfeitoooooooo....

Anônimo disse...

Me vi lendo esse texto e ele fazendo perfeito sentido para mim. Pois estava em um relacionamento de muito, muito amor e, após uma briga, a pessoa resolveu acabar. mesmo que a semana anterior tivesse sido boa. Mesmo que trocássemos mensagens de amor, de eu te amo, 2 dias antes de brigar. Mesmo que tenhamos sonhado uma vida juntos e ela me dissesse que eu era tudo que ela esperava e o amor da vida dela e que ninguém nunca me amaria assim. Seu amor não pôde suportar nossas diferenças. É verdade que tentávamos havia um tempo resolvê-las. Mas também é verdade que não eram tão grandes assim. É verdade também que, após o término, está sofrendo e chorando. Mas não pôde, não conseguiu lutar por nosso amor.Não conseguiu tentar. Não conseguiu seguir o caminho do meio. E eu fiquei sem resposta.

Anônimo disse...

Texto baseado no pensamento de Zygmunt Bauman.
Perfeito!!!! Parabéns Carpinejar.

Anônimo disse...

Sábias palavras, hoje os sentimentos são descartáveis, não por grandes problemas, mas pelas pessoa pequenas que se escondem atrás de mentiras e máscaras. Tudo que penso e estou vivendo Carpinejar descreve nesta coluna. SHOW.

Anônimo disse...

Muito show!!!

Grande Carpinejar!!

Edmundo António Barreiras Ricardo disse...

O passado não me seduz;para mim o passado está morto.Só o futuro tem valor. A energia do passado esgotou-se;a energia do futuro está intacta...Agradeço à existência por ter vindo a este mundo,
neste século e neste tempo.É um privilégio ter vindo a esta terra conhecer seus dramas suas dores mas valeu a pena (obrigado NATUREZA )