segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

AZAR DO MEDO

Arte de Eduardo Nasi

Passamos sempre uma versão mais tranquilizadora a nosso respeito. Um filme editado, de acordo com as nossas intenções. O rolo bruto fica guardado na câmera para nunca ser mostrado.

Temos medo de não sermos aceitos, e vamos refinando a versão, adaptando, colocando e tirando informações e lembranças. Não que a verdade tenha mudado, dificilmente muda de um relacionamento anterior para o atual, pois a verdade requer tempo, análise e enfrentamento.

Justificamos o nosso nervosismo com uma origem bastarda: ou pela sobrecarga de trabalho ou pela falta de dinheiro ou porque cavamos um descuido da companhia e exploramos o conflito do ciúme e da deslealdade.

Mas a cólera é sinal de alguma falsificação. Perder o equilíbrio é aviso de impostura. Ali está demonstrando que vem mentindo.

Coitada de nossa interlocução que acabará não compreendendo como banalidades geram tamanha raiva, e não geram mesmo – é mera transferência de foco.

Quando alguém chega perto da ferida, rechaçamos para longe. Fomos treinados a não confessar as nossas fraquezas. Como a vulnerabilidade é usada nos momentos errados das brigas, evitamos perder a vantagem.

Arrumamos intenções para esconder as vontades, inventamos argumentos a cada discussão para despistar o que incomoda. Não expomos a raiz do problema, balançamos as folhagens com força para distrairmos a atenção.

Criamos uma ilusão de que o nosso par corresponderá as nossas expectativas. Porém, não percebemos o quanto elas são irreais, montadas, forjadas para confortar e não indicar o que realmente queremos.

Forçamos o outro a ser o que mentimos que somos. Assim não exigimos que o outro seja igual ao que somos, exigimos que seja o que não conseguimos ser – eis a trapaça.

O fracasso é previsível no espelho do impossível. E não tem como dar certo o que não é real: estaremos brigando pelos reflexos de nossas ações e jamais por aquilo que merece e importa. Gritaremos em defesa de projeções, jamais pela natureza autêntica das angústias.

O que devemos falar e não falamos? Não sei. Pode ser uma desavença com os pais ou uma disputa com irmãos ou um bullying na adolescência ou romances equivocados. Algo antigo que não foi cuidado, um quarto trancado vendido com a casa. E tampouco temos a obrigação de saber. A questão é que, em vez de colocar a culpa e a motivação em quem nos acompanha, cabe pedir simplesmente ajuda. Pedir ajuda é começar a entender.

Toda honestidade é pobre, não tem efeitos especiais, não desfruta de excesso de palavras, não soa bonito, não é Shakespeare, não produz encantamento. É ser direto com aquilo que nos provoca receio. Azar do medo, sorte do amor.

2 comentários:

Natalia Cola disse...

É a mais pura verdade... Simplesmente magnífico e profundo esse texto, que nos faz refletir e tirar essas máscaras, que nos escondem. Sou sua fã Fabrício.

Valéria disse...

Maravilha de texto! Venho.sempre aqui pra ver se tem novidades.