Não tiramos o presépio depois do Natal. Ele fica até janeiro. Transformamos a churrasqueira em gruta de igreja - sem carne espetada no período de um mês. É nossa pia de água benta à espera de benzer a testa. É assim desde criança. Os rituais mantém a família unida. Somos mais do presépio do que do Papai Noel. O bom velhinho de vermelho nunca desceu pela chaminé porque tem uma criança surgindo na manjedoura. Minha mãe me ensinou a montar o teatro bíblico, a fazer uma maquete do solo com papel especial, a colocar algodão imitando nuvens, a recolher pinhas, palha e barba de pau das árvores para compor o cenário rural. Nossos Reis Magos - Melquior, Baltazar e Gaspar - perderam as mãos e colamos com bonder. O burro e as ovelhas estão amarelados pelo tempo, mas seguem zunindo e balindo. O anjo caiu algumas vezes do prego do portal e rejuntamos as suas asas. É a mesma turma desde pequeno. Bonita porque quebrou e se refez, humana e falível como a gente, com a história explicada dezembro a dezembro aos filhos e netos. Deixou de ser apenas esculturas, porém réplicas em miniatura da resiliência familiar. São pedras onde depositamos os nossos laços. Há a casa no sangue e a casa no espírito, que começa com o presépio. Não valorizamos as luzes piscando, não esnobamos com decoração o pinheiro na sala, mantemos o costume de privilegiar as sombras e a simplicidade da reencenação de Cristo, criada por Francisco de Assis. E as crianças desfrutam do direito de colocar no presépio os seus brinquedos prediletos. Já teve Barbie ladeando a Nossa Senhora, já teve Playmobil ajudando o carpinteiro José, já teve miniaturas de Kinder Ovo puxando conversa com os pastores. As modas mudam, as épocas variam, e amadurecer talvez seja não evoluir no amor: preservar o olhar puro e pobre do nascimento para todo o sempre. Publicado em Donna ZH em 30/12/2017
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
O PRESÉPIO DA FAMÍLIA
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