quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

BEIJO MULTIMÍDIA

Arte de Tereza Yamashita

Amor ensina o óbvio. É o que eu mais gosto de aprender.

Nem sempre mereço atenção. As crianças têm o direito de serem tolas, por isso são mais sábias.

Minha namorada narrava as diferenças entre o Playstation e o Nintendo Wii e mencionou a expressão device. Eu nunca descobri o significado. No passado, utilizei o termo pela intuição, coitado de quem me ouviu.

— O que é?
— Está brincando?
— Não sei, o que é?
— Para de gozação!

Admiti que conhecia, pois estava ficando chato. Já me sentia um ignorante. Como desconheço device aos 37 anos? Como?

Ela anteviu que tirava sarro dela, que me fingia de burro para que explicasse à toa. Como ninguém quer ser idiota, fica complicado salvar a idiotice alheia.

Eu era burro mesmo. Tentei resolver essa lacuna e abrir espaço para outras ignorâncias. Confesso que careci de coragem para teimar e imprimi uma risada apaziguadora. Soou como brincadeira.

O que me arrebata é a chance de ser puro. Como muitos juram que sou malandro e maquiavélico, arriado e abusado, dificilmente alguém confia na minha limitação. A curiosidade sofre os efeitos colaterais da reputação e não recebe reforço.

De vez em quando, Cínthya esquece quem eu sou para me amar mais. E é minha melhor professora.

Teimei em entrar com uma ameixa em seu carro. Vermelha, lustrosa, com todo o verão dentro. Estávamos atrasados. Costumo comê-la com o rosto inclinado ao chão para derramar o prejuízo no tapete dos pés. Não estudei como destroçaria a fruta em seu carro. Sentei no impulso, traindo minha atitude selvagem e desprezando o encolhimento do espaço.

Dei uma mordida e o sumo escorreu para a calça; ela olhando, limpei. Na segunda investida, já de pernas abertas, o líquido infestou o banco; ela olhando, disfarcei. Quando consegui espirrar no vidro, ela interferiu na operação, não havia como se manter distante. Ou falava ou seu twingo se transformava num liquidificador:

— Vem cá, por que não chupa ao morder?
— Chupar ao morder? Posso?
— Claro, depois que larga os dentes, chupa.

Ela aceitou meu despreparo e contornou o caroço e mordeu e chupou perfeitamente. Engoliu a lasca e o suco. Vi que podia. Pena que não tinha mais ameixas para exercitar.

— Onde aprendeu?
— Em Constantina, sou campeã para não me sujar.

Ainda não perguntei sobre os efeitos colaterais dessa aula. Mas não duvido que não tenha influenciado até minha forma de beijá-la.


Crônica publicada no site Vida Breve

10 comentários:

Raiana Reis disse...

"De vez em quando, Cínthya esquece quem eu sou para me amar mais."
Esta foi a frase que mais me encantou nas nuances de reflexão... Quantas vezes é preciso que também amamemos com a pureza da criança, que aventurando-se oferece o sorriso carinhoso como mais um presente novo...

Augusto Amato Neto disse...

Pior do que não saber aos 37 o que é device, é um dia ter sabido aos 27, mas ter que olhar no dicionário ao ler sua crônica! rs
Abraçossss..

Jacelena Dourado disse...

A maior prova de que em tudo se pode aprender alguma coisa é observar nos pequenos detalhes e nas coisas mais simples lições para toda a vida... Um gesto de alguém ensina muito!!!

Carpinejar, aprendo muito com você, é muito importante compartilhar as coisas que acontecem conosco...
Abraços carinhosos...
Jacelena

Renata de Aragão Lopes disse...

Detesto ter que dizer o óbvio.
Se isso se faz necessário,
realmente falta amor.

Mile Corrêa disse...

Nunca é tarde para aprender! =)
"Amor ensina o óbvio. É o que eu mais gosto de aprender."
Concordo inteiramente com você!
Belo blog, vou seguir. :)

Sayô disse...

A gente aprende todo dia, esse é o verdadeiro sentido em estar vivo...ja pensou chegar aos 37 e ja saber de tudo? Tédio, não? rs

Celize disse...

estou colecionando suas citações!! "bôra" lançar um livro delas? =D

Léo Santos disse...

Vindas de um escritor, jornalista e professor universitário - títulos que normalmente nos remetem a intelectualidade - suas explanações sobre a necessidade de aprendizado do óbvio, são uma prova concreta da tua nobre simplicidade.

Um abraço!

Andrea Zuccolotto disse...

Eu sei chupar e morder. E vice versa.
Chupar é uma coisa legal. Faz barulho, exercita a língua, o paladar, a boca. Ouvi em algum lugar que, para aprender beijar deve treinar-se chupando uma laranja...ou poderia ser essa ameixa. Hum. Lambi os beiços...

Adélia Carvalho disse...

aprender é sempre bom, e olha que essa lição daí foi bacana: morder e chupar pode ser exercício bom! rsrs...