sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O SACRIFÍCIO FILIAL

Arte de Andrea del Verrocchio

Meu pai se separou da mãe quando tinha sete anos. A saudade apertava. Tanta saudade que conversava com as roupas dele. Criava diálogos imaginários com seus bonés, com suas gravatas, com suas camisas listradas. Eu me trancava no armário, dormia entre seus casacos, o desespero brinca com qualquer lembrança, eu entendia que dormir ali significava subir de novo em seu colo.

Mas minha mãe não me contou que o casamento dos dois acabou. Ficou no ar. E não perguntava para evitar o choro. A dor nos proíbe de falar certos assuntos.

O que ouvi é que o pai simplesmente viajou. Havia a expectativa de que ele pudesse voltar a qualquer momento. A qualquer hora. Como uma loucura que se cansa. Como um trabalho que se termina. Até hoje olho a porta por hábito, minha esperança não é de um homem, mas de um cão. Farejo as frestas e vou latir para a campainha.

Eu protegia minha mãe porque jurava que ela tinha sido enganada pelo destino. Que a vida não tinha sido justa. Que o pai nos esqueceu. A espera se transformou em resignação e migrou para uma raiva silenciosa.

Não calculo bem se me tornei um menino obediente por mim ou por ela. Não ansiava atrapalhar, somente isso, e talvez tenha me anulado. Fui mais fixo e previsível do que uma mesa de jantar. Odiei meu pai durante anos para ser fiel à mãe. Depois odiei minha mãe para conseguir me reconciliar com o pai.

Nunca escapei daquilo que não foi dito. Careci de alguém que nomeasse exatamente o que aconteceu. Uma frase me contentaria:

- Eu e seu pai nos separamos e vamos continuando criando vocês em casas diferentes.

O subentendido me apavora, tremo diante de silêncios longos.

Não pretendo levar, portanto, minha filha a me repetir e decorar meus problemas com flores.

Ela ama sua mãe. Reclama, lamenta a ausência de compreensão, mas nunca irá morar comigo. Por mais que insista, acredita que me viro sozinho. Ama com veemência, com determinação, pode dedicar toda sua vida para provar que sua mãe não está errada. Não duvido que consiga.

É o sacrifício de Isaac sendo reencenado ano a ano, família a família.

Eu admiro minha adolescente, admiro os filhos que desculpam sua mãe tentando ser iguais a ela. É uma renúncia espartana, uma oferenda secreta. Não é fácil, não é pouco. De repente, escolhem uma carreira, casam, tomam uma atitude que não aceitariam por desejo próprio, somente para abençoar um exemplo. É um agrado involuntário. Para ficar do lado delas. Para defendê-las da verdade.

Apagam suas vocações, suas biografias, suas aspirações para concordar com a educação que receberam, mesmo sabendo que poderia ser diferente. As explicações para o abandono de sonhos serão idênticas as alegações maternas. Para dizer que sua mãe não estava enganada, vão largar o balé, o futebol, o cinema, a música, a literatura. Oferecem um amor sem limites e, conseqüentemente, sem personalidade.

Amargam um dilema: ou discordam com o enfrentamento (e uma grande dose de traumas) ou apóiam tentando conservar aquilo que foi ensinado. Não serão filhos, mas advogados, elogiados quando concordam no ato, incentivados quando obedecem. Não questionam a versão oficial, confiam em absoluto nas descrições do berço. É fácil descobrir quando isso acontece: as histórias são mais sentimentos do que fatos, mais suspeitas e impressões do que lembranças.

Há mães que não entendem que os filhos não são iguais, nem devem. Não cortam o cordão umbilical. Não alcançam à ideia de que a felicidade é pessoal. Aquilo que pode me deixar eufórico, por exemplo, é capaz de deprimir o outro. Pensam assim: "tudo que foi bom para mim será bom para o meu filho". Não respeitam diferenças de idade, carências, temperamentos diversos. Anulam a época, as mudanças de costumes, as conexões da linguagem.

Se a mãe estudava seis horas por dia, o filho também terá que seguir a mesma receita. Se ela namorou tarde, não custa o filho esperar mais tempo. Se trabalhou cedo, permanecer no quarto é vadiagem. Se a moda é secundária, o filho não depende de nenhum luxo, usará somente o básico. Se ela dorme cedo, nada de luz acesa de madrugada. Se não gosta de música, som alto é barulho. Se não viveu com pai, o filho tampouco necessita.

É óbvio que a casa explodirá em brigas, censuras e castigos. Não existe modo de convencer a criança a fazer do nosso jeito. Porque a ditadura vem da falta de escolha, uma simples mudança de costume surgirá como uma birra, uma afronta inaceitável. Dar o exemplo não é ser o exemplo.

Essas mães, como a minha, como a sua, como a de qualquer um não fazem por mal, ainda não descobriram que podem mudar o passado e repetem suas mães para provar que elas também não estavam erradas. É um efeito dominó, longe de um fim.

Por mais alguns anos, suportarei a distância de minha filha. Mas não quero sua dependência para me sentir importante, quero sua independência para que ela seja importante.




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 58, Número 195
Fevereiro de 2010

29 comentários:

Ana Domingos disse...

Que texto maravilhoso. :)

Celize disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Celize disse...

que medo tenho de impor aos meus o que me foi enfiado goela abaixo! e penso que esse medo pode se cegar, se apagar e até desaparecer no calor das emoções... e lá vou eu, fazer o que tanto temia...
Sou filha única de mãe solteira e por várias vezes me peguei dando conselhos a mim mesma, como este:

Se um dia optar por ter filhos, não tenha apenas um.
Não o obrigue a crescer falando sozinho, apegando-se as pessoas com mais ardor do que o necessário, agindo por pura carência e medo da solidão, que lhe foi sempre a única companheira inseparável.
Não deixe que ele cresça sendo o centro das atenções, que tenha vergonha das descobertas que faz sobre a vida e seu próprio ser por achar que está só, também nestas descobertas.
Se além de filho único lhe faltar um dos genitores, não substitua este por bens materiais.
Deixe-o perceber que ser diferente já é normal.
Você que pretende ser mãe, não se obrigue a ter um marido, mas não abra mão de ter ao menos dois filhos.
Filho único não aprende a amar na medida certa, não aprende a dividir o que tem e o que lhe falta. Filho único carrega responsabilidades grandes demais em seus ombros.
Vai passar a vida atrás dos próprios sonhos e dos sonhos dos pais.
Vai se anular para ser o que os pais idealizaram.
Vai ter dificuldade com separações, mesmo as naturais.
Vai procurar em cada amigo um substituto pro irmão que não lhe foi dado, e amigos, são amigos...irmãos são irmãos. Se você tem um ou mesmo que não tenha, você sabe a diferença.
Um dia me disseram que se eu me colocasse em posição de quatro apoios e me curvasse para olhar entre as pernas, era uma crença popular para se ganhar um irmão.
Eu fiz, e fiz pedidos em orações, e fiz promessas...
Os pais sonham com o futuro de seus filhos, universidade, profissão, casamento. Pode ser que seu único filho nunca se case ou abandone a universidade. E sua decepção, suas cobranças serão únicas como ele. Suas expectativas serão únicas, seu carinho e amor, suas preocupações e exageros terão um só foco. Aquele que veio ao mundo pra ser único, sozinho, singular.

paula disse...

já havia me sentido meio assim, meus pais se separaram quando eu tinha 4 anos e, infelizmente segui o mesmo caminho, me separando quando o meu filho estava com 4 anos. sempre me senti - e posso dizer que ainda me sinto - muito responsável pela minha mãe... como se eu tivesse obrigação de criá-la agora, já que ela dedicou sua vida a mim, encobrindo a ausência de meu pai... meu ex-marido vai se casar novamente agora e vai mudar-se de SP para Aracaju... sei que meu filho, agora com 7 anos, vai sentir a falta do pai, mas não vou fazer nada para mudar isso e não vou enchÊ-lo de expectativas. não quero que ele passe pelo que passei. quero que ele seja ele mesmo, com gostos particulares... parabéns pelo texto!

Ivany Vilarim disse...

Adorei, adorei!

Edilson disse...

Querido Fabrício:

Relmente fico maravilhado quando leio as coisas que escreve. Me surpreende a sua capacidade de sintetizar emoções da forma como o faz. Brinca com as palavras e elas saem tão naturais, tão leves que tudo que escreve parece de fato tão digerível (até o que muitas vezes incomoda). Parabéns por sua brilhante carreira, saúde e sucesso.
Edilson
Obs: Quando puder me faça uma visita, ficaria muito honrado...abraço grande.

www.lua2gatos.blogspot.com

Anônimo disse...

Puxa, que texto maravilhoso, trabalho direto com pais e crianças, procuro sempre perceber a linguagem de ambos porque expressam suas ações.Também lembrei do meu pai e de seu silêncio muitas vezes, provavelmente daí o meu em outras vezes. O ser humano deve viver pela liberdade ainda que dependa em algumas circunstâncias.

Anônimo disse...

Me sinto privilegiado em poder ler e sentir o que tu escreves Fabrício.
Abraço fraterno,

Juvelino

Eternus Apprentice disse...

"Essas mães, como a minha, como a sua, como a de qualquer um não fazem por mal, ainda não descobriram que podem mudar o passado e repetem suas mães para provar que elas também não estavam erradas. É um efeito dominó, longe de um fim."

De fato, como dar fim ao conflito familiar que quando compartilhado só corrobora para a afirmação de uma tradição que se perpetua em cada lar? Tens razão. Lembro-me de Elis ao cantar "Como nossos pais".

Parabenizo a genialidade em cada ideia e a fluidez de cada texto. Acompanho e admiro seus versos.

Um abraço,

Juliana Sá.

A beleza do erro puro do engano da imperfeição disse...

Como romper com tudo que é tão enraizado em nós?
Se nem ao menos sabemos onde começa o que queremos ou o que quiseram para nós?
Assistiu aquele filme japonês, A partida?
Ouvi um conselho certa vez, logo cedo, pé na estrada...
Estou aqui divagando sobre isso!
Obrigada por seus textos, sempre sensíveis e profundos!

Abraço,

Daniela Almeida Prado

Léo Santos disse...

Excelente texto!

Sofri também as mesmas penas! Porém em momento algum cheguei a odiar meu pai... Hoje tenho duas filhas e sou feliz por estar vendo-as crescerem em ambiente familiar... Tenho tanta sorte quanto elas!

Um abraço!

Anônimo disse...

Os filhos se afastam para que possamos enxergar-nos um ao outro, por inteiro. Sem um tanto de afastamento não é possível enxergar.

beijos
Débora

ana disse...

Eu me vi. Só que optei pelo enfrentamento, o que também não foi nada fácil.

Anônimo disse...

E como VC criaria a sua filha?? Sim, pq é muito fácil apontar as falhas de quem está responsável enquanto nos mantemos a distância. Criar um filho para o mundo é muito lindo e lúdico,desde não saia nada errado,assim podemos nos sentir aliviados e dormir em paz, afinal,a culpa é sempre de quem dorme,acorda,cobra responsabilidades, etc.
Acho que temos o dever de assumir e expor a situação sempre, desde que ambos estejam dispostos a arcar com a responsabilidade da criação e do resultado final dela.

Keli disse...

incrível como os teus textos me emocionam!

Me separei quando meus filhos eram ainda muito pequenos e nunca parei pra pensar se poderia prejudicá-los indiretamente, por causa da separação.

Me preocupei muito com a "distância do pai" e acabei não percebendo que a minha "presença" poderia ser prejudicial!

Obrigada por me abrir os olhos!

Bjo grande e sucesso!

Projeto Palavra´s disse...

Querido Fabro...
Estou sem palavras. Conseguiu me emudecer.
Hoje, mais do que nunca, entendo melhor o seu livro "Um terno de pássaros ao Sul", meu caro "menino sensível, fruto sem caroço".

Beijos com saudades de irmão.

Anônimo disse...

OI Fabrício, esse blog esta mais pessoal. com as fotos de sua familia e suas. Você esta mais presente como pessoa, tanto como autor. Acho que com isso a literatura perde um pouco. A isensão. É diferente do blog de antes em que aparecia menos, como Carta para a amada Ana. Pode ser besteira. Porque ainda o que os leitores vêem é muito pouco da sua vida pessoal. E os textos continuam chegando para o leitor em um campo de infinitas possibilidades. E o leitor ve mais o texto do que voce. e conhecer voce pelas palavras pode favorecer a literatura. ou melhor fazer um forum para o leitor opinar. um abraço

Anônimo disse...

cont... acho que polui um pouco. Em uma hora que poderia ser para o leitor só do texto. Se é ou não é interessante para cada leitor. Mas o texto em si é suficiente. E as imagens que voce coloca em cada post já é legal. As figuras pulando do lado nao favorece a literatura. Talvez o leitor do antigo blog entenda o que quero dizer. Obrigada pela atençao

juliana disse...

Anônimo, sou leitora do antigo blog a muito tempo de dicordo de você, o Fabrício está neste mais pessoal sim, mas não deixou de nos trazer o conteúdo que sempre nos fez admirá-lo.
Bom, voltando a esse texto maravilhoso em que eu também fiquei de boca aberta, não tive meus pais separados durante toda a minha vida, hoje mais madura talvez entenderia se isso viesse a acontecer, sou a favor da felicidade do lado de quem vivemos e não das falsas aparências em que muitos vivem dentro de um relacionamento.
Confesso que discordo em alguns aspectos da maneira que fui criada, talvez faça diferente qdo eu tiver os meus, mas sempre tive a presença dos meus pais em todas as fases da minha vida e isso fez toda a diferença, hoje depois de 15 anos morando longe, estar perto deles é a melhor coisa da minha vida, curto cada minuto, cada olhar, cada carinho!!
Bjos Fabro!!

isabelle disse...

Bando de puxa saco, o Blog é uma ferramenta onde as pessoas ficam abertas a críticas e elogios, quem não tiver estômago para isso, compra um diário e começa a escrever só para si.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Fabrício,

os homens do sexo masculino machos sempre foram uns folgados, e a família só funcionava pela via da submissão econômica da mulher do sexo feminino sinhá-moça.

depois do feminismo, contraditoriamente, apesar da sua emancipação financeira, o mulheril vem se arraparigando no sentido da desagregação familiar do mãe-solteirismo adolescente e até infantil, bem como a poseficação peladística nas revistas machistas de punhetaria masturbatória.

outrossim, grassa o divórcio, e o xadrês superlota-se com a rapeize da pensão alimentícia. é, conforme reza a velha letra do almanaque: a mulher mais barata é a mulher da zona.

mas, "se o tempo não pára", eis a Era Huxley?


=D
Marcos

Graça disse...

Fabrício,

que bela história, a sua!

Acredito, meu amigo, que todos temos nossos verdadeiros dramas interiores, por conta de situações vividas em nossa família, uns maiores, outros menores...se é que pode-se avaliar em tamanho e grandeza o sofrimento humano!

De uma coisa esteja certo: vc tem a solidariedade dos amigos aqui, e isso é muito confortante...

Sou professora de português e literatura (atualmente trabalhando com Biblioteca escolar). Criei um blog-projeto educacional, em julho do ano passado. Há um post lá que dediquei ao seu "Diário de um apaixonado", e, na época tentei contato com você, mas como não conhecia seu blog, não consegui.

Aqui está o link, se lhe apetecer, dê uma olhadinha, por favor, pois não escondo de ninguém que sou sua fã...

http://botoesmadreperola.blogspot.com/2009/09/aos-apaixonados-aos-amantes.html

Um grande abraço, com grande admiração.
Graça

paula telles fernandes disse...

Fabricio,

Achei o texto belíssimo. Parabéns! Li várias vezes e me emocionei a cada vez que lia.
Acho que esse texto tocou fundo na alma de muita gente que passou por situações semelhantes. Espero que você continue assim, tocando as pessoas e fazendo com que elas reflitam sobre como elas próprias educam seu filhos.

Um beijo e obrigada,

Paula

Dalva M. Ferreira disse...

Muito esclarecedor. Obrigada, vou refletir.

ana disse...

Poeta é aquele que soube desde a infância que realidade e fantasia são coadjuvantes, como a escola e o quintal e não conceitos antagônicos como alguns acreditam.

Ivi Medau disse...

Muitas mães, inclusive a minha, precisam ler este texto!
O melhor é que ela não terá a quem tentar calar, não terá como ficar se defendendo o tempo todo.

Beijos!

CarinA disse...

Carpinejar, incrível, nem me atrevo a fazer muitos comentários. Só quero deixar registrado que lembrarei de seu texto quando eu pensar em gerar um filho. Você é uma contribuição de Deus pra humanidade. Um abraço fraterno e tudo de melhor pra ti e pra tua família. Carina - Torres, RS.

Adélia Carvalho disse...

Reclamamos as marcas dos erros dos pais em nós, tentamos não repeti-las e para isso, criamos em nós novos erros para que nossos filhos não queiram nos repetir...

Beth Blue disse...

Há mães que não entendem que os filhos não são iguais, nem devem. Não cortam o cordão umbilical. Não alcançam à ideia de que a felicidade é pessoal. Aquilo que pode me deixar eufórico, por exemplo, é capaz de deprimir o outro. Pensam assim: "tudo que foi bom para mim será bom para o meu filho". Não respeitam diferenças de idade, carências, temperamentos diversos.

Concordo plenamente e digo mais: este é um dos piores erros que uma mãe pode fazer. Eu felizmente saquei isso bem cedo (talvez por ter eu mesma um temperamento independente e curioso). E meu filho está liberado pra ser o que quiser, e fazer o que quiser e não apenas o que eu acho bom e gosto de fazer. Somos dois indivíduos diferentes, com algumas semelhanças de berço (ele é tagarela como eu mas não gosta de ler, a minha grande paixão). Como a vida seria mais fácil se todas as mães entendessem isso.

Quanto ao pai, ao menos esta culpa eu não carrego. Nos separamos quando o menino tinha 5 anos e até hoje temos a guarda alternada e convivemos muito bem (Liam acaba de completar 10 anos e tanto pai e mãe são muito presentes em sua vida).

Pensando bem, este post me deixou feliz. Por saber que eu cometo erros sim, como todo ser humano, mas que ao menos algumas coisas eu estou conseguindo resolver direito na minha vida.

Vivendo e aprendendo. Um dia de cada vez.