quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A PRINCESA E O SAPO

Arte de Osvalter

Sou fascinado por experimentar roupas. Ainda procuro alguma peça que seja alquímica, ainda suspiro por um tecido que me beije e me transforme de sapo em príncipe.

Entendo as mulheres que caçam o jeans perfeito ou a blusa de sua vida. Sou igual: aceito meu corpo devagar. Não tenho interesse em mudar minha nudez, mas me acomodar dentro dela.

Se houvesse alguma maratona dentro das ruas de um shopping, seria o favorito disparado. Demoro muito. Não tomo banho de loja, é caldinho. Saco em todo momento expressões para acalmar minha namorada ou filhos: “Deixa espiar” ou “Só um minuto”. Vitrines não são de vidro, são de vento. Entro em cada uma delas com um sopro.

Arrasto qualquer um que me acompanhe para cumprir meus objetivos. A dificuldade é que não saio de casa com objetivos definidos (uma calça ou um terno), desvendarei na hora as promoções e criarei necessidades súbitas. Mentirei que achei uma oferta imperdível, que nunca aconteceu um preço igual, que não existe como abrir o guarda-roupa se não levar aquela camisa. Meu desejo mente, não sou eu. Eu me vejo como um cleptomaníaco que rouba de si — cansei de vigiar os desfalques.

Sofro, portanto, pelos homens que são carregadores de bolsas nas viagens às lojas. Há muito tempo deixei de cumprir esse papel deprimente e submisso. Aceito transportar o tíquete do estacionamento e mais nada.

Alegam que estão sendo enganados. Não se conscientizaram de que estão sendo mesmo enganados.

Eles precisariam relaxar. Não assimilaram o processo histórico apesar da insistência, da reincidência, das repetições quinzenais. “Vamos dar uma volta?” significa retornar no dia seguinte. Significa atravessar quarteirões e quarteirões de manequins até surgirem bolhas nos pés.

A resistência somente aumenta o passeio e a curiosidade feminina. É mostrar indisposição que a mulher fica mais excitada. Mais impulsiva. Mais indomável.

Os namorados e maridos são previsíveis em sua tristeza. Coaxar, para quê? Mal atravessam a porta e perseguem o primeiro banco alto para sentar. Não soltam uma única risada odontológica. Cruzam os braços e insistem em baixar o rosto. Incorporam leões de chácara, vigias, seguranças — trabalham de graça para os lojistas. Não mexem em nenhum dos cabides, não mostram interesse. Desprezam a beleza das atendentes por teimosia, sacrificando a simpatia de rostos harmoniosamente pintados. Acenam afirmativamente diante dos provadores e não opinam mais do que um lindo sobre as roupas.

Aqueles homens são crianças mimadas, contrariadas, emburradas. Dos pais, herdaram a resignação do castigo. Não aproveitam o momento, anulam aquelas preciosas horas de seu expediente amoroso em nome do orgulho.

Poderiam soltar a franga, testar novos modelos, desfrutar da imprevisibilidade cômica.

Caso entrassem em surto consumista, sua mulher raciocinaria duas vezes antes de convidá-lo para as compras. Não é viável um casal com dois gastadores. Deveriam enlouquecer e provar as gravatas disponíveis e pedir para sua companhia fazer o nó. Ou por que não se aproximar do balcão e fingir que é um bar? Solicitar café, água gelada e biscoitos, olha que delícia, sem nenhuma conta ao final. Ao invés de ser puxado, tomar dianteira e anunciar: quero que veja uma loja imperdível de sapatos. Ela se assustará, ela temerá sua alma feminina. Cinderela odeia concorrência.


Crônica publicada no site Vida Breve

12 comentários:

Dani disse...

peraí... você tá falando sério?! que horror! rs. eu acho terrível as corridas ou supostos "passeios" aos shoppings.

nossa, aquela tortura de ir de loja em loja, gente entrando e saindo enlouquecida, revirar vitrines e mais vitrines e aguentar vendedores na agonia de tentar achar cor, modelo, preço e número certo numa peça só!

ah, não! essas caçadas me aborrecem!
adoro ter as roupinhas, aquelas que são a nossa cara, a blusinha predileta, um vestidinho ou sapato novo de vez em quando, mas de longe tenho fome de shopping center, das experimentações todas e dos armários atolados.

poxa, raramente encontro irmandade nesse quesito entre as mulheres, meu alívio eram os meus amigos homens!
ai, ai, ai... :)

HNETO disse...

E eu sou
especializado
em trocar roupas,
que nunca
experimento
por pressa,
tédio,
vergonha ou
aquela sensação de
"preciso sair desse shopping agora".
E o sol sempre me agradece.

J. disse...

Nossa muito show!

Pena que detestaria um homem alucinado por compras...
Não há nada mais insuportável que andar em shopping!

Mas seria uma cena inusitada e incrivelmente evoluída, dividir um momento destes com uma alma masculina, oh lalá!

=)

Rafaela Gimenes disse...

Realmente, adorei a crônica. hahha Ri bastante e acho que você está muito certo. hahaha

Sole disse...

Uma coisa igual a mim, tbm n saio com objetivos definidos na cabeça, odeio quando as moças perguntam: que deseja? ora eu não sei, eu quero ver, apalpar, sentir a peça de roupas nas minhas mãos...Quando tô de bom humor, eu sorrio e digo, 'posso ver'? Quando tô bravinha, eu olho bem diretamente nos olhos das mocinhase digo: eu posso só olhar???? heim???

bjo Carpinejar, como sempre brilhanteeeeee

Anônimo disse...

Carpi, bravooooooo!! Poxa..


HNETO, aposto que com essa você venceu o cuncurso na escola do seu filho de 8 anos, né? Para de tentar mostrar que também faz poesia! Isso é coisa de mendigo. Sua réplica titica poética aos textos do carpi me despertam todo tipo de repulsa e enjôos. Ah! você acha que vai pegar alguém escrevendo desse jeito??? Junta esse tempo que gasta escrevendo besteira, transforma em dinheiro -SEM ESCREVER PELO AMOR DE DEUS - e pega alguém nos classificados. Pronto, agora vai em paz, sem se iludir pra não sofrer heim?
Não leve a mal minhas críticas construtivas.(-;


Fábio

juliana disse...

Então nasci com o sexo errado, tenho pavor de ficar provando roupa horas e horas e passeando no shopping sem um rumo definido, ao contrário das outras mulheres, prefiro a praticidade e a objetividade.
Bjos Fabro!!

Larysse Tavares disse...

Ótima crônica! Legal você ser assim, diferente dos demais. Ter percebido seu papel faz toda a diferença e gostar de experimentar roupas, rsrs... Você é 10!

Ioneide disse...

Também detesto ficar hora sno provador.Geralmente quando vou ás compras, vou bem definida: se vou comprar uma bolsa, é uma bolsa que compro.Se é uma blusa , compro uma blusa...e por aí vai.Sou bem prática, objetiva e decidida nessas horas.
Beijos Fabro!

Gisele Rodrigues disse...

Olá PessoALL!!

"Descobri" Carpinejar ontem vendo um vídeo do You Tube, onde Ana Carolina falava sobre ele em uma entrevista ao Altas Horas. Curiosa que sou, fui em busca de saber quem era. Fascinei-me com o que encontrei!!!

Voltei hoje para ler mais um pouco do que ainda não tinha lido. Deparei-me com esse texto (maravilhoso, como todos os outros que pude ler) e fiquei pasma a saber que existe um homem que gosta de ir às compras (eu até conheço um que não liga em esperar, carregar as sacolas, e toda essa tarefa árdua, mas creio que o faça realmente por falta de opção, é melhor gostar do que passar horas brigando).
Quanto mais eu ia lendo o texto, maior a minha perplexidade: Um homem que gosta de ficar em lojas experimentando roupas?
Pensei: Será sério? Um homem desse existe de verdade?
Voei em meus pensamentos imaginando o quão bom seria ter alguém assim do meu lado...
E antes que terminasse o texto, pensei: "Duas de mim? Melhor não! (Como diz Carpinejar, não estamos acostumadas com concorrências)

Também sou fascinada por sair às compras, mesmo que por vezes não compre nada (o que é raro), mas é que quase sempre também saio sem saber o que comprar, vou apenas passear pelas vitrines, esfriar a cabeça (isso é desculpa, eu gosto mesmo, e muito). Esse processo quase sempre é sentido no bolso e na quantidade de sacolas que volto carregando.
Mas, voltando ao texto...
Fiquei mais boquiaberta ao ver os comentários da mulherada aqui!
Mais raro do um homem como Carpinejar é encontrar tantas mulheres que não gostam de comprar, ir ao Shopping, experimentar roupas. Sempre achei que mulher era sinônimo de compra.
Meu mundo acabou de cair, tenho que rever meus conceitos (risos)

Bjks mil a todos e minha admiração ao Carpinejar

thais disse...

escreve bons livros

Anônimo disse...

ás veses me chateio com essas generalizações!!!
por que quando se fala em universo feminino só se pensa em shopping, salão de beleza, escova, esmaltes e outras futilidades???
um dia um amigo me disse todo orgulhoso que entendia tudo sobre as mulheres, sabia até a diferença entre um chanel e um scarpam! muito sábio esse meu amigo.
mas um enorme desgosto pra mim.
odeio shoppin center, não gosto do ambiente de fofocas dos salões, (corto meu cabelo no barbeiro!)
acho que para entender a alma feminina é preciso entrar novamente na cozinha de nossas avós, onde poderosos feitiços eram servidos em simples bolo com chá.
para entender a alma feminina é preciso olhar de novo para a Lua cheia e sentir os pelos do corpo se erissarem com a brisa morna.
é preciso celebrar as estações do ano;
é preciso sentar novamente em volta de de uma mesa e ouvir histórias antigas de heróis mágicos;
que vinho tinto é um elixir dos deuses e que o gozo é conexão com o universo.
para endenter de verdade uma mulher, é preciso nos sintonizarmos com os ciclos da natureza e entender que nós geramos a vida.