quarta-feira, 16 de março de 2011

AÍ TEM COISA

Arte de Cínthya Verri

Minha obsessão é pelos calções esportivos com um pequeno bolso interno. Um esconderijo de simbólicas quantias.

Eu praticamente só jogo futebol de bobeira com os filhos Mariana, 17, e Vicente, 9. Recuso participar de campeonatos da firma, qualquer um pode sacrificar a perna ou o braço no final de semana com colegas de trabalho. O amador é desesperado; por um caneco de latão, entra numa dividida perigosa e cabeceia as chuteiras do zagueiro.

O que faço hoje é aquela bagunça de praça, nada que force o fôlego. Alguns chutes a gol, dois contra um, marcação das traves com pedras e chinelos, corridas cômicas, dribles na linha de fundo e faltas irreverentes — a maneira que ainda encontro para abraçar meus adolescentes.

Levo sempre cinquenta reais. Uma onça por garantia. Não é destinada a comprar lanchinho ou água, não vou subornar o juiz (desnecessária a presença dele em nossa pelada), nem é caixa dois de amolecer a defesa.

Uso a nota sem usá-la. Dependerei dela durante a partida como uma simpatia, um fundo moral, uma fitinha do Nosso Senhor do Bonfim. É a certeza de que não seremos incomodados.

A primeira vez aconteceu na praia, há dois anos, em Balneário Camboriú.

Brincávamos na areia com nossas redes invisíveis entre cocos. Num banco de pedra, de frente ao mar, três adolescentes acompanhavam o nosso ziguezague engraçado. Debochavam da ruindade familiar. Não continham as gaitadas, já nos atrapalhava a exagerada torção dos seus corpos.

Foi o momento em que peguei a grana e desafiei o bando:

— Querem jogar? Valendo cinquenta reais! Topam? É barbada…

Os monstrengos estavam na faixa dos 18 anos, cheios de energia, prepotentes em sua forma física.

Enfatizei o convite:

— Vamos pessoal, é um menino, um velho e uma jovem contra vocês, dinheiro fácil…

Eles se calaram, receosos.

— Não vão dizer que estão com medo da gente, que são covardes? Cinquentinha, hein?

Desconfiaram da mutreta sigilosa: Vicente escondia o jogo, Mariana deveria ser a sucessora natural de Marta na seleção e eu, um ex-jogador disfarçado de tiozinho.

Compreenderam que não iríamos provocar à toa. Já nos enquadravam como jogadores de sinuca que começam perdendo e, na última hora, aposta feita na caçapa, acertam todas as jogadas de surpresa.

O golpe funciona que é uma maravilha — e nos dá a privacidade de um treino fechado.



Crônica publicada no site Vida Breve

9 comentários:

Roberta Fraga disse...

Nada melhor que começar o dia, lendo um texto assim! Seus textos fazem a gente ser feliz, sei lá...

Mauro Cavanha disse...

Ótima crônica, ao mesmo tempo que é cômica tem uma grande verdade!!

O blefe faz parte do esporte, e assim disse o grande Steve Prefontaine, durante as Olimpiadas de 1972.

"Muita gente compete pra ver quem é o mais rápido, eu corro pra ver quem é o mais corajoso."

Letícia Nunes disse...

hihihih
Ótima tática! Mas no meu caso uma simples e quase instinta nota de R$1,00 já bastaria para desconfiar, tamanho estilo Garça Louca em campo!
Pensariam: só pode ser atuação dessa aí!!

Beijinhos

Domingos Barroso disse...

hehehe,
beleza meu camarada.

forte abraço.

(o máximo que carrego comigo
é dez paus]

Pedro Bravo de Souza disse...

Hahahahaa'
Boa Carpinejar!

Pedro Bravo,
http://www.fotosdepalavras.info/

Domingos Barroso disse...

Ora, estive pensando:
esse bolsinho estreito
escondido por dentro
do calção esportivo
não seria para esconder
algum cigarrinho ilícito?

[após o racha final de semana
relaxa os músculos]

abraço, meu chapa.

Kelli Pedroso disse...

Boa! Sempre tem um inconveniente por perto. Beijo!

Tiago Medina disse...

Que malandragem!!!!
Li teu texto e lembrei da primeira vez que encontrei uma quantia considerável de dinheiro na rua (depois dessa, isso só ocorreu outra vez).
Estava jogando futebol na quadra do condomínio. No chão, estavam lindos R$ 10, logo sacados por mim. O ano era 1995 ou 1996, talvez, e aquilo era um dinheirão. Menos mal que era inverno e eu tinha bolsos para poder guardar - e não perder - a valiosa nota.

Abraço

MaU disse...

Ao ler, vi claramente a cena.
A vantagem de ler é que os cenários mudam de cor, de ângulo, de jeito enfim...
Abs.