quarta-feira, 2 de março de 2011

A FÓRMULA DE BHÁSKARA

Arte de Cínthya Verri

Carlinhos descobriu a Fórmula de Bháskara do casamento. A resposta resolveria mais do que terapia, do que dança de salão, do que compras num shopping. E não traria custo. Desejou patentear o cálculo, mas não queria lucrar com uma ideia tão pura.

Estava na cara e ninguém teve a coragem de dizer. O óbvio é para os corajosos.

A receita transformaria a convivência numa eterna lua-de-mel. Eis o achado:

Anotar na agenda os compromissos de beleza da esposa.

Traria o alívio depois de vinte anos sendo cobrado por não acertar o que havia de diferente em Consuelo. Só não errava a depilação, o que, convenhamos, não merece elogio.

Teve o estalo quando assistia Caxias e São José, semifinal do Campeonato Gaúcho.

“Quem não consegue observar que aprenda a lembrar.”

A frase surgiu em sua cabeça do nada, não poderia ter sido o locutor. Ele se reconheceu absurdamente inteligente, a ponto de criar outra teoria: quanto pior o jogo, melhor o pensamento.

Com o método em prática, seria eleito o marido do ano. Perguntaria de manhã o que ela programou durante o dia e repassaria tudo ao iPhone: manicure/pedicure/sobrancelhas/cabelos. De noite, usaria a informação privilegiada a seu favor, como se não fosse importante. Todo homem perfeito é, no fundo, uma secretária.

Na cama, tomou a mão dela e disse:

— Que unhas caprichadas, ótima a cor.
— Como você percebeu?
— Não precisa muito, é apenas reparar.

(Quando o homem se diminui é que está se sentindo o máximo.)

No jantar, acariciou a franja dela e disse:

— É uma diferença uma sobrancelha bem feita. Abre o rosto.
— Mesmo? Eu arrumei hoje, incrível que tenha notado.
— Como que não? Olho tudo em você.

(Quando o homem se engrandece é que está enganando).

As observações renderam um aumento de 30% na vida sexual e redução em 50% das implicâncias dentro do carro.

Os dois já programavam viagem para Bariloche; experimentavam, de novo, aquela atenção integral de apaixonados.

Mas Carlinhos acabou traído pela casualidade. Consuelo avisou, logo cedo, que não sobraria tempo para almoçar: “O cabeleireiro tem somente horário ao meio-dia”.

Festivo, registrou em sua plataforma implacável: corte de cabelo!

Enfrentaria o grande exame clínico do amor. Ao voltar do trabalho, encontrou sua mulher no sofá assistindo televisão.

Olhou uma, duas, três vezes, e gritou:

— Que linda!
— O quê?, ela ficou assustada.
— Maravilhosa! Dez anos mais jovem!
— O quê? , ela entrou em aflição.
— Seu cabelo, o chanel perfeito!
— Eu não cortei.

Carlinhos jurava que uma mulher nunca desmarcaria o cabeleireiro. Seria capaz de abandonar noivo no altar, de jeito nenhum deixar cabeleireiro esperando. Não contava com essa infidelidade. Suspirou. Não existiam mais papéis fixos no mundo, nem dentro de casa.



Crônica publicada no site Vida Breve

14 comentários:

Sonhos de Sigrid disse...

Ótimo post. Pena que Carlinhos se deu mal no final.Se eu fosse a mulher dele cairia sempre, e com um sorriso no rosto.Afinal de contas ele teve uma boa ideia assistindo um jogo de futebol. Tem que ser elogiado. Beijos.

Dani Gomes disse...

Não contavam com a astúcia da imprevisibilidade feminina... rs

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Pedro Bravo de Souza disse...

Haha. Muito bom Carpinejar!
Adoro suas crônicas...

Pedro Bravo,
http://www.fotosdepalavras.info/

Emanuelle Freitas disse...

Demais Carpinejar.
Agora entendemos como que os homens notam as coisas, sem que tenhamos que passar uma semana inteira lembrando: 'Segunda, eu tenho cabelereiro!'.

Josiane Carla disse...

Como uma situação simples do dia a dia do universo feminino pode se tornar um texto literário tão interessante e perfeito. Essa é a palavra... Perfeito!!!

Isabela C. Santos disse...

Pena que no final ele cometeu um descuido, fiquei imaginando o desespero que a mulher dele sentiu "O que? Tem algo errado?"
Haha, essa é uma das crônicas que mostrarei a minha mãe para darmos boas risadas!

Anônimo disse...

Ótima ideia!
Usar da tecnologia para lembrar das coisas mínimas, mas não esquecendo a sensibilidade para verificar a veracidade delas... ;-)
abração!

Thaís de Lima
Blumanau/SC

Elisa S disse...

Ó! Mas o descuido foi da esposa... Afinal, o homem a quem a mulher é mais fiel é sempre o cabelereiro.

Margareth disse...

Oi Fabrício, boa lembrança, Bháskara o famoso matemático das equações. Me fez lembrar Bosco, nervoso mais um excelente professor de matemática que tive nos meus tempos finais de escola. Adoro matemática, deixando de lado essa matéria, só uma curiosidade: Esse Carlinhos és tu, não é? Acredito que o homem só se sente o máximo quando se sente dono das suas razões. Ai vem o engano, pois esquece que o acaso segue a sua sombra. Essa fórmula do casamento só serve para os distraídos. Secretário, agenda, iPhone, lápis, papeis, até mesmo as forçadas lembranças, tudo vale para acompanhar os passos da bela vaidade feminina. Às vezes ainda não resolve, só enrola ou adia os problemas. Que linda! Maravilhosa. Olho tudo em você. Essas são as palavras do enrolão. Sei bem como é isso. Pura enrolada, pois com a agenda em dia, qualquer um posa de bacana. Sobra argumento para os elogios. Surgem as dúvidas: o almoço ou o cabelo. Carlinhos no caso apostou na fidelidade da beleza, se deu mal, pois o acaso deu uma rasteira na sua escolha, o que confirmou que ele não observa as mudanças no âmbito da convivência, muito menos em sua amada. Na realidade é um belo distraído, provavelmente até de si mesmo.
Margareth.

Fernanda B. Leite disse...

Ótimo!!! Pois adoramos ser notadas e elogiadas...
Anotar no iPhone foi uma boa idéia paras os homens descuidados e desatenciosos em reparar e lembrar das coisas mínimas(acho que a maioria).
Mas tal uso podeira fazê-los esquecerem que nada seria mais importante para uma mulher do que um jantar ou almoço ou qualuqer outro compromisso com a pessoa que você ama. A tecnologia tirou a sensibilidade de cuidar, de atenção à outra pessoa, no geral descuidou do amor; Pois quem ama deixa qualquer compromisso mínimo(até mesmo um cabeleireiro que seria muito importante para as mulheres),só pelo prazer de ter a companhia do amado. A tecnologia o fez esquecer o que seria mesmo importante para a mulher que está ao seu lado, deixou de observar e conehcer a sua amada.

Luedna disse...

Muito bom! Ainda que traído pela observação no final, o esforço é muito válido. Adoro seus textos.

Thaiane Andriollo disse...

Adorei demais esse texto.
Obrigada pelos textos maravilhosos.
Parabéns.

Verônica Andrade disse...

Maravilhoso!! Adoro ler as suas crônicas são simples, intensas. Parabéns!!

Tiago Medina disse...

Puuuutz, Carlinhos, tava indo tão bem.
Mas é uma bela tática, a ser reproduzida mundo afora. Fica, só, o alerta...