terça-feira, 23 de abril de 2013

ERMENEGILDO


Fui comprar um terno. Tenho alguns, mas desejava adquirir uma opção para o inverno.

Acompanhado da namorada Juliana, entrei em loja do térreo do Shopping Iguatemi totalmente desavisado.

Era um espaço mais tradicional, conservador, de grife. Não custava olhar, apesar de não fazer meu gênero.

Girei pelos manequins à procura de um conjunto moderno em conta.

Nenhum casaco descia em meus ombros com exclusividade. Já estava com a cabeça fora dali, idealizando o nosso jantar.

Mas, na saída dos corredores, percebemos um terno lindo, preto, com corte diferente nas mangas.

Para quê? Experimentei e entrou como se a minha pele nascesse dele.

Não escondi o entusiasmo e questionei o preço para a vendedora.

Ela soletrou:

– R$ 4 8 9 6 5...

Já vibrei com o braço na frente do espelho, meditando que poderia pagar R$ 489.

Arrematei o cabide:

– Decidido, vou levar!

A atendente arrumou a barra com alfinetes, dancei Travolta com o novo visual, combinei a retirada na próxima tarde, e me dirigi ao pagamento.

Para me certificar, consultei o preço.

Ela reiterou pausadamente:

– R$ 4 8 9 6 5...

Juliana ficou perplexa. Não alcancei a confusão. Deduzi que fosse pela passionalidade da compra.

Ela abanava com as mãos em minha orelha:

– Mas é um Ermenegildo, Fabrício, Ermenegildo!

Tranquilizei:

– Vi, amor, um Ermenegildo mesmo, é barbada, né? Que sorte entrar aqui e pegar uma promoção.

Ela mordia os dedos.

Eu não tinha ideia de que a peça se tratava de Ermenegildo Zegna, pai dos ternos da Itália, Dom Corleone do tecido, mentor de Dolce Gabbana e Armani, figurino predileto do Oscar, stradivarius das golas.

Confesso que desconhecia Ermenegildo.

Na hora de passar o cartão, a caixa perguntou se eu desejava parcelar o valor.

Disse que não precisava, que poderia ser direto no débito. Em uma vez.

Juliana arregalou as sobrancelhas.

O cartão não autorizou. Reforcei que havia saldo. A caixa explicou que as financiadoras não aprovam compras em shoppings depois das 22h, para evitar sequestros.

Ela tentou driblar o controle e dividir o valor em dois cartões. Eu assobiava de feliz.

Neste momento, eu vi, eu enxerguei a verdade cósmica dos números no visor, o E=mc2 do meu consumo.

O valor da compra era de R$ 4.896,50.

A soletração sem vírgula da funcionária me confundiu.

O terno de Ermenegildo, em promoção, valia R$ 5 mil.

Reprisei as feições da namorada em sequência, e compadeci do seu desespero. Um pouco antes, no mercado, na frente dela, neguei uma gilete pelo acréscimo de R$ 0,50.

Não entendeu nada do que aconteceu. O meu surto. A minha surdez.

Quando descobri o engano, não encontrei coragem de contar a verdade e menti para a vendedora que voltaria no dia seguinte.

O terno continua me esperando, com as minhas medidas impressas na calça.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 23/04/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17411

10 comentários:

Morganya disse...

Parabéns, ótima crônica! Fabrício Carpinejar admiro muito o seu trabalho e te agradeço por ser uma de minhas influência em meio as minhas tão pocas poesias ... Abraço !

Alice Mânica disse...

Acho que a sua reação ao "Ermenegildo" foi a mesma do meu marido quando passamos em frente a uma loja do "Salvatore Ferragamo" e eu fiquei maravilhada - e ele nem tchum! Hehehehe!

(mas tb só passamos na frente, não tive coragem nem de ver se tinha preços na vitrine...)

Elisandra Pereira disse...

Confusões numéricas e "pechinchas" realmente nos levam a precipícios financeiros, muito boa sua crônica. Bom ver que não somos as únicas a nos maravilharmos quando ouvimos o preço errado.

Anônimo disse...

Sensacional, como sempre, Fabrício! Abraço!
Marcelo Petter

Lucas Azevedo disse...

Irei apresentar essa cronica na escola, se alguêm poder ajudar a formular minha opnião eu agradeço;

Paula Marques disse...

Com 5.000 eu reformo meu guarda roupa e ainda compro um guarda roupa novo.

Gislâne Louseiro disse...

Achei engraçado !! rsrsrsrsrs
Uma vírgula faz uma baita diferença.principalmente quando se trata de valores... adorei Fabrício

Unknown disse...

kkkkkkkkkkk ri muito, Na minha cabeça os números da vendedora passava dos 48 mil, pra mim, absurdo, mas, Ermenegildo...

Wendley Silva disse...

Como é difícil reconhecer-se incapaz de perceber as coisas, de quando em quando... Bom quando ainda há a chande de dizer: "amanhã eu volto."
Mesmo que não retorne nunca mais. :D


-muito bom o relato!!

Anônimo disse...

Olá pessoal...tenho um Brechick aqui em SJCampos e por um acaso tenho um blazer e um terno do Ermenegildo entre outras marcas italianas tb....se alguém tiver interesse, entre em contato comigo através do email....lopes.claudirene@gmail.com, e posso garantir que o valor não passa nem perto do da história rsrsrsrs abraços!!