terça-feira, 14 de maio de 2013

ARITMÉTICA DA SOLIDÃO



Quando fiquei novamente solteiro, estava decepcionado com o mundo.

Entendia a solidão como sarcasmo. Minhas roupas não enchiam mais uma máquina de lavar, a comida estragava na geladeira, toda noite era fim melancólico de domingo.

Não fazia sentido estar sozinho. Logo eu, que sempre defendi a vida a dois, logo eu, que sempre valorizei o casamento, logo eu, que dizia que liberdade na vida é ter um amor para se prender – me enxergava amaldiçoado, raivoso com a falta de sorte, ofendido com as separações.

Reclamava da sina aos amigos da injustiça, já profetizava que ficaria encalhado o resto dos dias, já me preparava para ser um canalha incorrigível, já prometia encerrar o destino romântico e rasgar as crônicas enternecidas.

Minha filha Mariana buscou me acalmar. Saiu comigo para esfriar o drama. Afinal, até ópera tem intervalo.

– Pai, dá um tempo na choradeira...

– É fácil dizer porque não é contigo.

– Está se sentindo o único separado da terra, que coisa, relaxa, olha para os lados.

– É que parece que jamais vou encontrar a mulher de minha vida. Adoro a convivência a dois.

– Você já é dois, pai.

Aquela frase me confortou: eu era dois. Era inteiro. Não dependia de ninguém para me completar. Não precisava levantar os braços para o ônibus de recolhe. Não morreria de sede como uma samambaia. Poderia me cuidar, me dar ao luxo de ser egoísta e não mendigar alianças.

No momento em que aceitei a solteirice, e sorria dentro dela, conheci Juliana. E tudo que abandonei floresceu furiosamente em meus olhos.

O cara que não queria mais um envolvimento sério voltou a oferecer declarações eternas. O cara que não queria mais casamento passou a se imaginar no altar. O cara que não queria mais ter filhos descartou de vez a vasectomia. O cara que não mais confiava nas mulheres começou a desconfiar dos homens.

O namoro venceu o apocalipse, mas não eliminou a dúvida. Havia o receio de reprisar histórias anteriores.

Fui conversar com Juliana:

– Eu sou dois sozinho.

– Pode ser três comigo – ela corrigiu.

Eu ri. E completei:

– Então, posso ser quatro contigo. Eu e minha solidão, tu e tua solidão.

Nunca mais seria metade de ninguém. Nem de mim mesmo.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 14/05/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17432

15 comentários:

Ritinha disse...

já gostava de ler, agora gosto muito mais... $uce$$o sempre! agora estu te seguindo... abraços. Ritinha

Anônimo disse...

Sempre muito bom! Obrigado!

Chris Macêdo disse...

Adorei. Ainda não encontrei meu dois pra formar um quatro comigo, que entenda minha solidão e minha autosuficiência, que me transborde, uma vez que já sou inteira. mas acredito que iremos nos esbarrar numa dessas esquinas da vida. Obrigada por sempre me emocionar e me alegrar com seus textos.Bjos

Unknown disse...

Maravilha. Agora confesse que contou a minha história não? Menos o final pois ainda não encontrei minha Juliana (e o tempo está célere).
Grande abraço

vanessa carvalho disse...

eita, que bonito, carpinejar.

flores.

Jéssica Folchini disse...

É isso mesmo Carpinejar. Quando a gente menos espera aparece alguém em nossa vida disposta a mudar tudo. Não adianta sair a procura ou ainda, forçar algum relacionamento. Precisa ser natural, emocional e verdadeiro. Acredito que esse novo relacionamento fez uma renovação na pessoa, no poeta, no pai, no amor, no amante Carpinejar.
Beijos da sua fã Jéssica Folchini

Olga disse...

Adoro vc Carpinejar pq,ao contrário da maioria dos homens,vc escreve de alma aberta,sem hipocrisias...Muitas felicidades,vc merece!Bjs,

Anônimo disse...

Que bom que vocês se encontraram:Fabrício, Juliana & Cia! Afinal, amo suas "crônicas enternecidas" e não suportaria a ideia de sabê- las "rasgadas".
Ana

ana disse...

pela primeira vez desde que acompanho seu blog, sinto que voce está se relacionando com uma pessoa real e nāo com uma projecao de seus desejos.
Com ela , sinto que você vai superar " o trauma de poeta " ,
aquele que os poetas sentem quando nunca encontram alguém que os tratem com a mesma dedicacåo paixāo e intensidade com que eles brindam o relacionamento.

Martha disse...

Carpinejar, sou mais uma admiradora de suas participações onde quer que seja. Parabéns pela poesia cheia de autenticidade que compartilhas conosco. Seja feliz nessa nova fase de sua vida ao lado dessa linda pessoa, e deixe os outros morrendo de inveja!
Um abraço, Martha.

Anônimo disse...

Sabe o que mais encanta nos teus textos? É a nudez com que escreves.
Escreves com a nudeza de um recém nascido, com o coração puro que todos nós tivemos no feliz dia em que chegamos neste mundo.
Pois mesmo conhecendo e experimentado todos os sentimentos, tu não permite que estes lhe atrapalhem no momento em que externas através da escrita, a beleza das pequenas e grandes coisas que temperam a nossa vida.
E isso, é muito legal!!!!!

Paula Marques disse...

Nossa que lindo!
O amor não faz milagres, ele é o próprio milagre.

JULIANA CAVALCANTE disse...

Maravilha.

DeMorais disse...

Prezado, já tinha ouvido falar de você, mas nunca tinha lido nada que você escreveu. Quis o destino que estivesse pesquisando no Google o termo “aritmética da vida” e tenha encontrado este seu post. O retrato da minha vida é quase o que você falou. No momento só os meus filhos e o meu blog me servem de alento. Obrigado!

Renan Reis disse...

já li uns 3 livros seus... pqp, vc é foda! parabéns!