sexta-feira, 3 de maio de 2013

I WILL SURVIVE



Não gemer mais do que ela é o mínimo que deve fazer. É uma questão de decência. Uma etiqueta básica desde os visigodos. Uma gentileza inadiável.

No berço, o macho aprende a não ser espalhafatoso, a secundar o chocalho, a chorar baixinho, a não melindrar as cantigas dos móbiles.

É um mandamento inafiançável: durante a transa, não ultrapassar sua namorada na gritaria.

Controle-se. É uma regra cavalheiresca: puxar a cadeira, aguardar ela se servir e não fazer escândalo na cama.

O show é dela, amigo. Você é apenas um convidado, aquiete-se em seu lugar. Não se trata de disputa vocal, dueto, soletração.

Não há orgasmo que justifique exceção, que lhe garanta o direito de superá-la. Não se mexa muito, pois os braços chamam o canto. Mantenha a movimentação aeróbica básica (ou as pernas ou as mãos, evite a sincronia). Um pouco mais e estará cantando Gloria Gaynor.

Toda beldade entra em pânico quando o homem geme acima de 85 decibéis. Ela gela, acha que errou de quarto, de corpo, de época. Pira, surta, paralisa o vaivém para identificar o alarido invasor.

O susto desemboca em trauma amoroso, capaz de provocar frigidez e abstinência. O fenômeno é recente e os psicólogos não avaliaram os danos. Talvez ela saia correndo nua pela Paulista. Ou se converta para meditação de Osho.

A onda mecânica necessita ser discreta. Varão comportado geme na altura de micro-ondas, nunca de uma máquina de lavar e jamais de um aspirador de pó.

Não banque a estrela do aiaiai, a vedete do uiuiui, a Carmem Miranda da banana descascada. Não confunda ereção com seleção de musical da Broadway.

É grosseria ofuscá-la na intimidade, é falta de decoro erótico, é ciúme da vagina.

Ela pode usar cera quente, algemá-lo na cabeceira, recorrer ao fio-terra, chamar seus brinquedinhos para dançar, apontar uma lâmina em seu pescoço, lançar chicote em seu lombo, mas não se desespere. Morda a fronha se não aguentar, bata na madeira se o gozo irromper violento.

Vale apenas resmungar. Já latidos, miados e uivos estão na faixa de agressão ao ambiente - os vizinhos não toleram frescura e serão os primeiros a denunciar a poluição sonora ao zelador.

Mulher se excita ouvindo sua cadência melódica. O prazer dela cresce quando reverbera o timbre pelo espaço. A voz é seu espelho.

O papel masculino consiste em proteger a tranquilidade da audição, resguardar a diva dos impostores e atravessadores. Ela aguarda o eco do seu gemido, o retorno perfeito do palco.

Sexo a dois é ainda masturbação para a mulher. Ela não quer ninguém atrapalhando.




Minha coluna na Revista IstoÉ Gente
São Paulo, março de 2013, p. 68, Edição Nº 695

7 comentários:

Anônimo disse...

Plenamente de acordo. Em certa ocasião, indo para a cama pela primeira vez com um ex-quase-namorado (quarentão), na hora do "quase finalmente" ele começou a gemer e a gritar feito um alucinado: "Maínha... Maínha... Maínha... Maínhaaaaaaaaaa..." E assim finalizou sua performance, provavelmente ecoando por todos os andares do edifício e adjacências. Incrédula, parei tudo, olhos fixos na criatura e segurando uma bela gargalhada. Fiquei realmente sem ação. Uma cena inesquecível, mesmo 12 anos depois. Será que ganhei um trauma?

Gislâne Louseiro disse...

Putttu'z.. pura Verdade Fabrício..
acho q isso até 'quebra um pouco o prazer da mulher'.. sei lá.. tive um experiencia nem um pouco agradável..
adorei o texto.
beijos

Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski disse...

Eu fiz uma homenagem a sua pessoa poética. Não nos conhecemos. Sou sua leitora assídua. Espero que goste.

Gemidinho - http://versosintimistas.blogspot.com.br/2013/05/gemidinho.html #VersosIntimistas

ארינה - Arina disse...

Discordo! Gosto de homem que grita, mas não de soprano. Tem que ser grave, coisa de barítono. Isso de papel de homem é esse, de mulher é aquele, é coisa do passado. Hoje isso está mais que démodé.

Valéria Martins disse...

Concordo com a Arina, também acho que condicionar papéis em masculinos e femininos está fora de moda, rs. E ele gostar de gemer e ela sentir prazer em ouvir ele gemer? Isso não pode ser posto como uma regra, rs.

Lívia Carolina disse...

Disse tudo!!!

Marco Aurélio disse...

Carpinejar,

Acompanho sua carreira a anos e posso dizer que sou um fã incondicional dos seus livros e textos.
Mas como todo grande artista, tem seus momentos de "bola fora".
Protocolos sexuais, papeis definidos( masculino e feminino) em pleno sec XXI????
Ainda mais para o poeta do amor, sensivel, inteligente e delicado.
Temos que é ir contra toda esta "normatização social"vigente!!!!
O homem quer gemer?? quer gritar??? a mulher quer dar umas palmadas??? Quer ser ativa???
tudo vale a pena, se a alma não é pequena...tudo deve ser levado com prazer a dois...protocolos só servem para engessar o prazer e inibir o sexo.
Espero que este texto fique resumido ao blog. Não merece "caminhar"por ai. Degrine sua imagem e tudo de bom que vc já produziu. Desculpe a franqueza. forte abraço!!!!