quarta-feira, 1 de maio de 2013

BIBLIOTECA AMOROSA


Arte de Eduardo Nasi

Os adultos deveriam ler um pra o outro.

Antes de dormir, eu e Juliana não nos isolamos em nossos próprios livros. Não nos separamos em obras diferentes.

Pego um romance que interessa aos dois, ela deita em meu colo e vou lendo até que as páginas se transformem em cílios. Preciso adivinhar o momento em que ela apaga para continuar no dia seguinte. Marco um singelo colchete de lápis e sigo o passeio da paixão durante a semana.

Ela sonha com a minha voz, eu misturo o cheiro de sua pele ao papel. Ambos estão conectados em caso de pesadelo.

É o nosso rivotril, o nosso lexotan. A leitura acalma e organiza as experiências.

Não abdicamos do luxo da narração. A língua renova os dentes e as letras voam pelo quarto.

Depois de um livro lido a dois, todo casal dormirá abraçado o resto da madrugada, não se soltará, será íntimo do pensamento. É terapia de família, é natação dos olhos, é massagem nos ouvidos.

A leitura cuida da alma da voz. É uma transfusão de alma. Não nos defendemos. Não nos armaremos, estaremos disponíveis ao acaso do enredo e da intensidade do inesperado. Formamos a união feroz das nossas fragilidades.

Bonito quando ela pede para repetir, bonito quando alongo a pausa para espiar se ela cochilou, bonito que ela se emociona e perde o sono com alguns autores, bonito que me encabulo ao recitar trechos e a descrição se torna exageradamente embargada. Bonita que é bonita que é bonita a nossa cumplicidade.

A partir dos personagens, surgem observações sobre amigos, assuntos do trabalho, bagunças da memória, lembranças extraviadas. No fim, forramos os volumes com nossos desejos e nos conhecemos mais.

O livro é o nosso bar, nosso balcão, nosso restaurante.

O gesto cria arrebatado discernimento. Percebo o quanto a solidão fortalece o que aprendemos a dois.

Não é possível se conhecer para amar. É o contrário. Só posso me conhecer ao amar. Ela é que me ensina a me amar — não é algo que faria sozinho.

Eu me amo admirando seu amor por mim. Eu vou copiando o amor que ela me dá.

Avançamos trinta páginas por noite. Mas vários capítulos em nossa relação.

 



Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

7 comentários:

ana disse...

Unir as fragilidades é o que nos torna invencíveis.
Parabéns pelo texto...

(achei sua namorada parecida com a Marcia Tiburi)

Paulo Tamburro. disse...

OLÁ CARPINEJAR,

sou seu seguidor há algum tempo e não faço nenhuma coisa extraordinária em sê-lo, como diria o abominável Jânio Quadros, após a centésima terceira dose de cachaça, ou, "como nunca se viu neste país", como bostejaria nosso preclaro Lula de todos e todas.

Principalmente, de todas!!!

Enfim , quero dizer que estou de volta, como a inflação e gostaria usar da humildade dos sábios e a generosidade de Madre Teresa de Calcutá ao colocar meus blogues à sua inteira disposição.

Alguns são de humor e outros escritos quando sinto-me mais normal, do que eventualmente, me ocorre.

Receba um abração carioca!!!

Ps.Esse abraço é de graça,coisa incomum nesta nossa admirável sociedade capitalista.

Dalva M. Ferreira disse...

Oi. Estou quase acabando de ler "Canalha", bom em excesso. Tem autor que com metade daquilo faz um livro e vende feito água. Pronto, elogiei.

Quanto a esse texto, mais uma vez touché. Houve um tempo em que eu lia de noite na cama para o meu amado, e creio que éramos muito felizes. Depois eu não sei o que aconteceu, mas eu o perdi: seria tão bom se eu o tivesse ganho.

Ana Fonte disse...

te descobri ontem, e hoje estou surpreendida com o que li. Ganhou meu coraçao, minha admiracao, minha vontade de absorver. Parabens e obrigada. :)

Anônimo disse...

Quando eu amei de verdade, meu amor foi vivido que nem o seu, Carpinejar. E foi tao bom que, mesmo sem agora, ainda sei o que é viver em sua total plenitude um sentimento... Então, com tantas verdades, tantas pequenas emoçoes que você vive ao lado dela...se um dia perdê-la vai ser difícil "arrumar" outra, por isso estou sem namorado. Minha referencia de relacionamento foi tão perfeita , leve que ainda nao consegui encontrar outro alguém que dividisse comigo esses momentos tao simples e suficientes ao amor.Geralmente querem barzinhos, baladas, viagens, presentes...eu só quero alguém q leia junto comigo...beijos

Pedro Nicoll disse...

Opa Fabrício,

faço o mesmo com minha menina.
E sendo que fui indiretamente presenteado com esse escrito, mando-te outro em retribuição.

Felicidades...
Té.

http://pedronicoll.blogspot.com.br/2011/11/um-dialogo-daqueles-que-voam.html

Lorenna Bitencourt disse...

Simplesmente lindo!