quarta-feira, 4 de agosto de 2010

AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO

Arte de Cínthya Verri


Em passeio ao zoológico com os filhos, quase choro diante do aviso de “extinção” nas placas explicativas sobre os bichinhos. Aquele é um dos únicos animais do mundo e está enjaulado — que sina.

Eu também enrubesço com o extermínio de várias espécies urbanas. O filador de cigarro, por exemplo. Já é complicado encontrar alguém com fogo, imagina pedir um cigarro emprestado. O filador é uma subcategoria do fumante. Como o primeiro é desagradável, o segundo é detestável. Sua existência está fadada ao fracasso.

Outra raça ameaçada é o caroneiro. Peguei excessivas caronas em final de festa na adolescência; era um profissional. No começo, esperava o convite que nunca vinha. Caminhava, lento e sozinho, pela rua escura, aguardando que uma alma generosa percebesse que não tinha carro. Até um flanelinha seria mais chamado do que eu.

Não funcionava a saída chapliniana. Desenrolava o mapa da cidade tão deprimido quanto qualquer assaltante que pudesse confiscar meus trocados. Mais próximo da concorrência da bandidagem do que do papel de vítima.

Tomei gosto pelo desespero e aprendi macetes do ofício. Perdi a vergonha. Avisava de cara a todos no início do encontro que o trânsito estava terrível e que ainda desci na parada errada. Pronto: sabiam que estava a pé. Na hora de perguntar o nome, aproveitava e perguntava onde a pessoa morava. Direto. Tive êxito na empreitada. Cogitei que seria uma vocação e poderia atravessar os continentes com o polegar deitado. Tanto que esqueci os nomes dos amigos, mas nunca seus endereços.

A tática surtiu efeito, mas não consegui manter o sangue-frio. Carregava um remorso misterioso, um mal-estar do abuso. Pensamentos terríveis e incessantes feriam o orgulho e me tiravam o sono. Fazer com que um colega alterasse o trajeto surgia como uma dívida impagável. Agradecia pedindo desculpa. Desejava me livrar do favor. Mal saíamos e dizia que ali estava bom. Sussurrava ao generoso motorista me largar em qualquer esquina. Para o caroneiro, estar perto de casa já é a própria casa.

Assim que tirei a carteira, troquei de figura, encarnei a função avarenta da história. Procurava fugir dos chatos sem veículo nas saídas dos bares e das baladas. Menosprezava o grau de amizade, achava um modo de sumir. Nem me despedia para não gerar propostas. É óbvio que fracassava e ficava irritado. Aparecia um pangaré bem quando voltava com uma garota e usaria o trajeto para convencê-la a ficar comigo. Frustrava meus planos. Não dava para seduzir e ser taxista ao mesmo tempo.

Ou, quando casadinho, gostaria de ir a um motel e traçar uma rota romântica inesperada. O amigo fingia não notar nada de estranho no ar e congelava a preliminar com sua direita e esquerda, direita e esquerda.

Praguejei os pedestres abusados por uma década, criei listas de abaixo-assinado contra suas insistências, invoquei meus direitos.

Minha vingança foi longe demais. Errei a medida. Observo com desalento o término do caroneiro. Dói uma saudade desse componente trágico e avulso da madrugada. Persiste em meu peito uma nostalgia infinita do banco de trás. Os carros estão cada vez menores. Com smart, só há dois lugares. É um reinado, com tronos exclusivos ao rei e rainha. Impossíveis a negociação, o fiado, a vassalagem. É uma avareza explícita.

Logo inventarão um veículo com um único assento, daí será mais fácil e honesto ir de bicicleta.





Crônica publicada no site Vida Breve

13 comentários:

claudia disse...

Quem sabe eu possa tirar um tantinho de peso de suas costas dizendo: "A culpa pela extinção do carona não é sua. Foi a facilidade de crédito do mercado, com prazos de pagamento beirando o infinito, o motivo de todos terem seu próprio carro". Pouco romântico, apenas objetivo.
Abraços,
Cláudia

Renatinho's disse...

Sacanegem, voc^era caroneiro, depois que tirou a carteira de motorista e tinha carro fugia dos caroneiros... Muito boa essa crônica... Renato

Ângelo disse...

Fabrício, você testemunha o fim do filador de cigarros e do caroneiro. Em pouco tempo também veremos o fim do requerente de informações na rua, com o GPS, ninguém mais vai parar para perguntar "onde fica?". Ainda teremos a melancolia de não mais nos perdermos.

simoneriah disse...

sou uma caroneira, só que orgulhosa, reluto em admitir que sou e que preciso da carona.

Rafaella Rímoli disse...

Esse texto dá carona pra beleza.
O destino é todo lugar.

Beijos.
Rafa.

Anônimo disse...

Também frequentei o ponto de carona da universidade e hoje tenho um carro de dois lugares. Muahaha.

Renata de Aragão Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renata de Aragão Lopes disse...

Inverto os adjetivos.
O filador de cigarros é desagradável.
O fumante, sim, é detestável!

Além de poluir o ar das vias e praças públicas,
lugares que lhe restaram para o vício,
ainda arremessa as guimbas ao chão,
emporcalhando a cidade por toda parte.

Não me incomodo que entre em extinção.

Carlos Rodrigo disse...

Olá! Adorei o seu blog, axei MTO interessante! Vou te seguir! Eu criei o meu a um mês e alguns dias, se quiser dar uma olhada fique a vontade!
Abs!

Suzana Machado disse...

Menino, digo, nunca fui caroneira, mas ofereço caronas a torto e direito... rs

Franklin disse...

kkkk...
Belíssima crônica! muito engraçado o trajeto de toda a história!
rs...

Maino disse...

Pegar carona é quase uma arte; livrar-se de um caroneiro, também.

Tania Lopes disse...

Persiste em meu peito uma nostalgia infinita.
No meu também. Altas histórias, boas de se lembrar, sem ranços.