sexta-feira, 27 de agosto de 2010

MENSAGEIRO DO APOCALIPSE

Arte de Max Ernst

Abro a janela para sentir onde estou; somente a lufada no rosto resolve. O vento é o único meteorologista em que confio.

Hotel provoca miragem: não acertamos se está frio ou quente lá fora.

O controle do ar repousa ao lado dos canais de televisão. No gabinete. É o efeito estufa em minha vida - viajando, permaneço sempre na mesma temperatura. Gostaria de arder de calor na madrugada ou me encolher de frio, somente para me enxergar em casa. Vida cômoda demais incomoda. A melhor gula é vencer a dormência e mexer na geladeira de noite. O melhor sono, portanto, depende de um esforço físico, em abandonar a zona de conforto, é aquele que caminhamos no escuro por um cobertor ou duelamos com o lençol, empurrando o tecido como um morto no despenhadeiro.

Só que em alguns hotéis a janela está fechada, como o do bairro Anhembi, em São Paulo. O quarto lacrado não me deixava trabalhar em paz. Liguei para a governança:

- Pode abrir as janelas, estou aflito?
- Sim, estou mandando um mensageiro.

Demorou uma hora, e nenhum sinal em minha porta. Insisti, com receio de uma conspiração.

- Eu pedi para abrir as janelas...
- Sim, desculpa, estou mandando um mensageiro.

O jovem chegou. Tinha uma barbicha para forçar a idade. Na minha adolescência, todo rapaz era um bode. Alguns continuam sendo.

Ele veio com um cardápio para assinar.
- Não pedi nada para comer ou beber.
- O senhor não solicitou a abertura das janelas?
- Sim.
- Deve assinar aqui.
- Por quê?
- Para abrir a janela.
- Como?
- O senhor precisa se responsabilizar por abrir a janela.
- Mas eu não me responsabilizei por abrir a porta, por abrir a geladeira, por abrir as gavetas. Que isso?
- É norma do hotel. Abriremos as janelas com seu termo de anuência.

Rabisquei na linha em branco para encerrar o assunto. Nunca tinha pensado em suicídio até aquele momento. Foi tanta solenidade que fiquei com vontade de me matar. O mensageiro criou a fantasia mórbida com o ofício. Deu a ideia. Fomentou a imaginação. Agora sim estava aflito com as cortinas farfalhando. As alturas me chamavam pelo apelido, com inegável intimidade.

Aguentei o pânico, suspeitei que, se me atirasse no pavilhão da Bienal do Livro colado ao hotel, o mundo inteiro diria que era mais um dos meus golpes de marketing.

Desci ao saguão disposto a respirar o térreo. Fugi imediatamente dali. Encontrei André, amigo de editora, lendo jornal. Puxei papo para me distrair. Evidente que descrevi os últimos acontecimentos.

Mas ele ficou pálido, mais nervoso do que eu, envergonhado. Resmungou:

- Quando entrei no meu apartamento, as janelas estavam abertas. Não pediram minha autorização. Vou reclamar ao gerente, não é um convite ao suicídio, já é um assassinato.

21 comentários:

Maria Tereza disse...

A-do-ro teus textos! =)

Laís disse...

eu também!!!!!! e adoro cortinas esvoaçantes...

Tati Pastorello disse...

hehehe
Coitado do André. Senti a aflição dele neste momento!!! kkkk
Beijos.

so sad disse...

ja tinha lido tantos textos teus em blogs outros... agora vou beber da fonte!
beijos!!

Lara Amaral disse...

Muito bom!

Abraço.

Palavra em Fuga disse...

É uma estranha higiene de suicida esta que compele a abrir civilizadamente as janelas para morrer quem sabe até se com estardalhaço de vísceras na calçada. Romper com a carne a transparência do vidro deve parecer mais violento. Querer morrer não é querer machucar-se?! Ou se abre a vidraça para evitar a cobrança do último reflexo no pálido espelho?

Cacá disse...

Eu tive pior sorte que você durante a bienal. Fiquei num hotel na praça da república onde tinha que fechar desesperadamente a janela, com frio ou calor, por causa de uma música ensurdecedora de um bar logo embaixo todas as noites, varando a madrugada. Se cometesse suicídio ia ser interno. Adorei a crônica. Abraços. paz e bem.

Re disse...

Fantástico!!!!!!
Incrível como um gesto tão comum, como abrir as janelas do quarto, pode se tornar a coisa mais burocrática (e mórbida)!

Guilherme Navarro disse...

Muito bom! Ainda espero sua presença honrosa no meu blog...

Oria Allyahan disse...

Forte, instigante!
Nem perco meu tempo buscando superlativos...
É simplesmente Fantástico!

^^

Anônimo disse...

Carpinejar,

uma dica de um mero designer e leitor do seu blog: Este fundo do seu blog está dificultando a leitura e tornando cansativa a navegabilidade. Sugiro a mudança do mesmo por um limpo e como sugestão segue o endereço de uma pesquisa no google...

http://www.google.com.br/images?um=1&hl=pt-BR&biw=1440&bih=737&tbs=isch:1&sa=1&q=wallpaper+clean&aq=f&aqi=&aql=&oq=&gs_rfai=

Ou ainda por cores sólidas.

Pela felicidade e saúde visual dos seus leitores.

Abraços!

LISSA CRISTINA disse...

Seus textos transcendem a flor da minha pele!

Athila Goyaz disse...

Bela Crônica!

Camila disse...

Hotéis são como casas de intercâmbio: cheios de regras estranhas e cheiros irreconhecíveis. Talvez, por isso, os contos de hotel sejam tão legais!

Lucianna disse...

Vc escreve lindamente.
Adorei a maneira que usa as palavras pra falar de coisas simples.
Uma pessoa citou seu blog no Vigilantes da Auto-Estima, um blog de auto-ajuda da Gisela Rao.
Ela disse, inclusive que ficou sua fan depois que te viu no Jô. Infelizmente não assisti.
Ainda não te conhecia.
Estou seguindo vc no Twitter e logo de cara amei a quela frase: "Recusar um pensamento não é apagar o desejo".
Nessas horas, a internet é "uma benção"!
Uma coisa leva à outra. E cheguei até vc!
Já "favoritei" seu blog.
Não deixarei de ler um só dia.
Vc é inspirador! Parabéns F.Carpinejar.

kauanamaria disse...

Mórbido.

Ela disse...

pois... com ou sem possibilidade de suicídio eu voto em janelas abertas e cortinas balançando...

Dorly Neto disse...

Essas normas de conduta e responsabilidade são uma espécie de Metropolis + Tempos Modernos, aliado às nossas vidas cotidianas. Precisamos nos responsabilizar contratualmente por tudo, e temos leis que nos proíbem de coisas óbvias.

Lembro que uma vez fui comprar um ingresso na Fundição Progresso, aqui no Rio de Janeiro, e li uma placa que me dizia para não portar armas de fogo no recinto, sob pena de prisão, nos termos da Lei XXXXX (não me lembro o número, para preservar espaço em minha memória).

Fico abismado com certas normas que precisamos cumprir; normas que deveriam ser ensinadas basicamente sem precisar da imposição do Estado (nada contra o Estado, ele é até charmoso, o problema é com a educação familiar).

No mais, muito obrigado por mais um texto genial. Ótima forma de escrita e muito inspiradora para este que vos escreve, novato escritor que procura ler os melhores para um dia ser apenas bom.

Teia de Textos disse...

Apenas mais um entre tantos comentários. Mas, é isso. Bom. Cotidianamente bom.
Apenas isso.

aleiob disse...

[Nunca tinha pensado em suicídio até aquele momento.]
Entre outras frases geniais. Como sempre!
Boa de mais essa crônica.

Beijo grande.

Franklin disse...

Até eu estou pensando em me matar diante dos ventos fortes que entram pela minha janela!
Sensacional!!!

Espero não me matar...

Até breve.