sexta-feira, 6 de agosto de 2010

JÁ BROXOU?


O homem pode ser tão gentil que se desfaz na bebida para não culpar a mulher pela broxada. A mulher é tão educada que faz de conta que acredita.

Na adolescência, tinha a parceria de Ferrugem nas noitadas. Todo mundo teve um colega chamado Ferrugem. Ou um fedelho na escola chamado Alemão. É uma obrigação constitucional.

Ferrugem contrariava nossos amigos dizendo que não bebia para tornar qualquer mulher atraente, e sim para esquecer seu rosto e atrair as mulheres.

Admirava essa abnegação. Pena que Ferrugem terminava a noite abraçando a privada. De qualquer maneira, ele foi meu herói. Um herói de um final triste.

Talvez tenha vivido para contar sua história e me inventar nela. Já que bebia e me esquecia de tudo, não apenas do meu rosto.

É certo que, desde essa época, eu me preocupo em não usar pijama. Foi um juramento: a impotência viria com o uniforme noturno. Com aquele lençol listrado. Com aquela fronha de corpo.

Deu certo, nunca broxei, o que no fundo me assusta pensando nos debates familiares na boca da churrasqueira. Os tios avisavam: quanto mais cedo broxar, melhor. O homem somente é homem depois que murcha uma vez.

Não decodificava a mensagem – espécie de criptograma Desafio Cobrão. Como a catapora e a caxumba, será que acontece uma vez e não volta? Ou o marmanjo se acostuma com o fato?

Há teorias que não preciso viver para comprovar. Assim como não emprego hipoglós para assadura em minha bunda. Vá que o dedo deslize.

Evitei a contaminação cultural. E o contágio simbolizava botar pijama. Imaginava que o impotente se fardava de pijama azul bebê.

Na minha concepção, macho dependia da velocidade do zíper. Abusar de botões e boca de sino é se aposentar. O próximo passo é aceitar pantufas e transar de meias. O último ato é cantar Julio Iglesias de roupão branco.

Cuido para não ser devorado pelos caprichos.

É o mesmo que sonhar com uma orgia numa banheira de hidromassagem. É tentador, inclusive com as barras laterais para armar acrobacias. Mas não caía na miragem de motel. Relaxamos demais para endurecer. A água quente é LSD natural. A única coisa que levantará da superfície é a bolha de espuma.

Passei a dormir com roupas velhas. Abrigos puídos, cansados do futebol. Preservava as camisas novas e puxava aquelas recusadas do fundo da pilha no armário. Como preferida, escolhia a que recebi de uma campanha de vereador.

Temos somente camisetas de vereadores que nunca foram eleitos e que não votamos. E de três eleições atrás. E com o rosto impresso numa litografia tosca. E com um número derrotado que não serviria sequer para ganhar na loteria.

Realmente não broxava. Com a careta do eterno candidato no peito, quem broxava era minha namorada.

13 comentários:

Laís Bastos da Silva disse...

Qualquer namorada broxaria com uma dessa hein? rá.

SuRuschel disse...

Tenho uma sugestão feminina: use a camiseta ao avesso. Não é legal brochar a namorada e talvez a noite termine em verso. Ahã!

Cleia Lucena disse...

kkkkkkkkkk
Realmente quem deveria broxar na certa era ela.
Agora fiquei intrigada com o hipoglós e nesse caso acho que o medo nao é o dedo escorregar e sim, ser tentado pra que ele escorregue e passar a gostar (brincadeirinha) kkkkkkkkkkkkkkkk

Layla Barlavento disse...

Camisa de vereador derrotado? Aff! Broxante mesmo!

Beijos na alma!
Layla Barlavento
culpadowalter.blogspot.com

Dalva Maria Ferreira disse...

Invejinha de você. Pelo texto, não o hipoglós.

Jorge Cascadura disse...

Meu caro, a vida de todo impotente dá um livro. Em brochura...

Anônimo disse...

No grito de "Canalha"!! da mulher reside a navalha...

Tati Nantes disse...

Sempre bem humorado e brilhante.
Espero que um dia se interesse em ler minhas linhas.
Sucesso e Parabéns!

A viajante disse...

Olha...adoro usar meias e pantufas...como mulher, vejo uma sensualidade em peças de dormir, incluindo aí pijamas de malha...já que são confortáveis e dão liberdades aos movimentos...já as cinta- ligas e calcinhas de renda, além de bregas (e comuns a todas as que inventam inovar)são sempre desconfortáveis...brochantes para quem as usa!

Anônimo disse...

Brochar?! Claro,
muitas e muitas vezes…


ARCADA DENTÁRIA
by poeta anônimo


Quando a viu,
um relâmpago
o transpassou.
Socorreu-se! Mas
de nada adiantou:
só sobrou seu ser carbonizado
com o grito de amor eternizado
numa arcada dentária - que ria!


(Fabro, um poeta anônimo, que tu conheces!)

Priscila. disse...

Sério que você e Verônica Stigger vão estar na bienal dia 19 e eu vou embora dia 17? Puta que pariu.

Anônimo disse...

Ramiro, jocosa e bastante visual essa poesia. Só que não adianta mais pra você ser anônimo. kkakaka

etica disse...

Qual quer um broxaria com pantufas e coisa e tal..