segunda-feira, 9 de agosto de 2010

REVOLUÇÃO

Arte de Franz Kline


- Você tem que ensinar ironia para sua filha, me disse o amigo Gustavo.
- Por quê?
- Ela precisa se defender do mundo.
- Não, repliquei. Ironia ela está farta de saber.

O adolescente tem ironia de sobra. Já é sarcasmo. Ironia para superar a separação dos pais, os desentendimentos dos horários, a obrigação dos temas e as escalas para dormir e voltar. Ironia para suportar as reclamações do trabalho dos adultos, a falta de tempo, as sucessivas renúncias inventadas para cobrar o amor de volta.

Mariana de 16 anos conhece de cor e salteada a ironia. Depende disso quando reitero pela terceira vez o que ela deve fazer e peço para ela repetir minha frase para ver se realmente a ouviu. E percebi que não converso há muito tempo com ela, só quero que ele repita as frases. Ela virou aspas da minha cegueira. Não é um diálogo, são ordens. Eu percebo que ela escutou, mas reforço com o objetivo de manter a autoridade, para mandar nela. Ela pressente a tirania e não responde.

Desde quando repetir é educar? Envelhecemos não quando ficamos surdos, e sim quando acreditamos que o filho é surdo e o torturamos com a insistência das perguntas.

Já arrumou seu quarto? Já estudou para prova? Já tomou banho? Que bagunça é essa em cima da mesa? Onde está meu carregador?

Era uma vez não existe na adolescência, são inúmeras vezes uma única ameaça. É um massacre. Um bate-estaca. O que era um pedido transmuda-se em mandamento e depois em chantagem e, no fim, numa briga de portas trancadas. Somos contrários à decoreba na escola, porém não largamos de difundi-la em casa.

Eu tenho que ensinar ingenuidade para minha filha. Ingenuidade no amor. Ingenuidade no trabalho. Ingenuidade nas amizades. Os jovens estão sobrecarregados de pessimismo, receberam nossas desilusões de herança.

Revolução não acontece com cinismo, política talvez. Revolução é feita com ingenuidade. É acreditar mais do que desconfiar. É ir para frente por uma causa ou um sentimento, não prevendo se vale a pena ou se levarão alguma vantagem pessoal. Que fracasse com convicção, mas experimente os próprios desejos. Toda experiência será sempre uma situação de risco.

Ironia não é sinal de maturidade, muito menos ingenuidade é prova de imaturidade.

Porque logo mais minha filha não começará um relacionamento sem a certeza de que dará certo. Não se aproximará de ninguém ao antecipar os possíveis foras e enganos. Não escolherá a carreira predileta devido à instabilidade. Excesso de cautela não é prevenção, é medo.

Nossos filhos não confiam em mais ninguém, nem nos pais, sequer neles mesmos. Foram treinados a não conversar com estranhos, a não fornecer dados pessoais, a não expor suas crenças. Não se arriscam com a seriedade que o idealismo pede. Serão inconsequentes, não corajosos.

Por favor, minha filha, não me escute, vá viver sua vida com vontade.



Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 119, Número 201
Agosto de 2010

25 comentários:

carlota disse...

CHOREI....era assim que eu vencia o gigante malvado, carrasco, impiedoso e torturador do meu pai, mesmo assim eu acreditava que ele não era ruim, pra poder ama-lo, ele me amava mais do que aos outros por isso. Era um anjo só pra mim!

Anônimo disse...

Eu li e fiquei arrepiada, até na nuca, um texto assim, inspirador. Que bonito.

Djonatha Geremias (Jhonny Colin) disse...

Faço minhas as palavras do Anônimo aí de cima... Me arrepiou. É até triste ter que assumir que é verdade esse quadro da nossa sociedade...
Forte abraço, Fabrício!

Projeto Palavra´s disse...

Fabro;
Ainda não sou pai.
Continuo fazendo minhas revoluções com ingenuidade.
Parabéns pelo texto.

Abraços

Maria Tereza disse...

Adorei isso! Pai resolvido é outra história! =)

TÂNIA CAVALHEIRO disse...

Deve ser muito bom ter um pai (esclarecido) e pensante como tu...Deus te abençoe!
Obrigadaaaaaaa...
Beijo de grudar almas!

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Penso que adolescência a.risca não segue ordens porque ré-num-se-é-ação... :D

Rafael Noris disse...

Carpinejar, a sua crônica é a primeira coisa que leio ao abrir a Crescer. Sempre me surpreende, sempre me emociona, além de me ensinar.

Abraço!

Renata Luciana disse...

Adoro a tua desconstrução. Quando você faz o caminho inverso e diz tudo que o inconsciente nos revela o tempo todo.

lia henriques disse...

Adorei sua crônica... penso o mesmo e mandei para o meu marido ler e pensar a respeito - pela independência e pelo respeito a nossa filha. Obrigada! Estou adorando seu blog!

Sérgio Augusto Sant'Anna disse...

Pais como você, Carpinejar, devem ser adotados como exemplos para os pais que aqui se encontram nas escola que leciono. Abraços!

IsaBele disse...

Bravoooo!

Rita disse...

ADOREI, como sempre!!! Ah, se todos os filhos tivessem pais assim: presentes, amorosos e esclarecidos! Parabéééns!
bjs

meusolnaotempeneira disse...

Estava em um blog e cliquei em um link que me trouxe aqui então lhe reconheci, há um mês atraz visitando uma livraria quase comprei um livro seu, só não o fiz porque não estava com o dinheiro naquela hora mas anotei seu nome na mente para procurá-lo novamente, não leio muito então nao conheço nomes simplesmente entro na livraria e folheio ate achar algo que me de vontade de ler, lembro do seu livro O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR, senti muita vontade de te ler, vou fazer isso em breve.
Abraços!
Nanda Volpe - http://meusolnaotempeneira.blogspot.com

Cacá disse...

Se juntarmos esses ingredientes todos, vamos dar no idealismo, que é isso que falta. Muita gente pode chamar de ingenuidade, que é o que caracteriza o idealismo nos dias de hoje, onde só vale o que vem do mercado de compras. Espetacular o texto. Meu abraço. Paz e bem.

Guilherme Navarro disse...

Textos cheios de vida. De escrita minuciosa, de fluidez contínua. Gostoso passar horas e horas por aqui. Voltarei sempre!

Caso haja tempo, critique-me no meu blog também. Ficaria honrado.
Grande abraço!

air max nike disse...

Thank you very much for this article!
For a long time I have done exactly what you warn against. This article

was a slap in the face - but a needed one.
That being said, what is the value of an intuitive explanation? Is it to

give a lay person an "ah-ha" moment? Is it good to have SOME

understanding, even if it is "vague and mush?"
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vida de garoto disse...

adorei sua palestra com marcelino freireno sesc de maringa.achei voces bem criativos quero muito ler seus livros e sobre sue oculos e sua unha verde achei bem bacana.eu tambem acho que todo homem tem seu lado femenino

Bento Qasual disse...

As relações de pais e filhos unca será perfeita é fato! É importante apenas que exista respeito acima de tudo de ambas as partes, se colocar no lugar um do outro, sem a tirania de "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Quando houver "Faça o que quiser, desde de que façamos juntos", as coisas mudaram para bem melhor.
Bento.
www.bentoxiii.blogspot.com

H. Machado disse...

Dá mesmo, aquele medo, de ser pai. Ou melhor, de não ser.

Marcos Montanhana Junior disse...

Você se acha interessante?
Sim ou não? Por quê?
Você é sim, na minha opinião porque você é nosso Patrono da 8a Feira do Livro de Sertãozinho-SP

E.M.E.F Professor Anacleto Cruz

Samuel Henrique de Lima disse...

Sou da escola E.M.E.F Professor Anacleto Cruz
Estou muito feliz por você ser o Patrono da 8ºfeira do Livro de Sertaozinho-SP
Boa Sorte!

Arthur Campanini Favaro disse...

Olá Fabricio

Sou da escola EMEF Anacleto Cruz, eu adimiro
muito seu trabalho. Fabricio, parabéns! Fique
com Deus!

Sertãozinho S.P.

Victor Hugo Gimenez Gonçalves disse...

Bom dia,sou um aluno da escola Emef.Prof.Anacleto.Cruz.
Me chamo Victor Hugo,Fabricio você vai ser o nosso patrono da 8ªfeira do livo de nossa Sertãozinho a nossa feira do livro é muito legal o seu livro Minha Catequista gostei muito desse livro!!!
beijos e abraços

Moema disse...

Isso! Ensine a ingenuidade!! Meu Pai me ansinou assim... Ainda acredito nas pessoas, nas coisas, por mais que muitos "nãos" sejam recebidos, por mais que a vida mostre o que o ser humano é capaz! A autenticidade de acreditar não tem preço! E é o que nos leva a lutar!
Muito bom texto! Adorei
Moema veiga
@moemaveiga