terça-feira, 28 de agosto de 2012

CADÊ MINHAS LEMBRANÇAS FELIZES?

Arte de James Ensor

De todas as conversas que tive com minha mãe, só lembro aquela que me magoou.
 
De todos os nossos longos e curtos diálogos no carro, no ônibus, em casa, nas praças, nas caminhadas pelo bairro.
 
Milhares de cumprimentos, de abraços, de risos, de colos, de palavras de incentivo, de piadas e recordações, e o que guardo é ela dizendo que não presto.
 
Uma única vez em que não prestei entre um turbilhão de outras em que fui tratado como um príncipe.
 
Por que essa ingratidão memorativa? Por que essa desigualdade evocativa?
 
De todas as conversas que travei com meu irmão, só conservo a que nos separou.
 
A gente fez castelo juntos, jogou futebol, armou casinhas, confabulou planos, inventou segredos; centenas de dias ensolarados e noites de insônia partilhadas e agora desaparecidas entre o hipocampo e o córtex frontal.
 
O que ficou de agradável: nada.
 
Estou por concluir que a memória abomina a felicidade.
 
Não cuidamos dos positivos das lembranças, apenas colecionamos os negativos.
 
Não nos esforçamos para guardar os bons momentos porque temos a ideia – equivocada – de que são obrigatórios.
 
Há o entendimento de que normalidade é acumular glória na vida enquanto a dor é um acidente de percurso. Há a convicção de que a alegria é uma condição natural enquanto a cara fechada é uma exceção (não seria o contrário?).
 
Predomina em nós a compreensão ingênua da felicidade como facilidade e da tristeza como dificuldade. Ser feliz seria simples e ser triste consistiria numa tremenda injustiça.
 
Uma noção do mundo em linha reta, de amor em abundância, provocando o desperdício constante e perigoso.
 
Não preservamos as delicadezas, assim como não economizamos água, já que ela verte com ligeireza pela torneira da residência.
 
Não poupamos as cenas comoventes, assim como não economizamos luz, já que ela depende de um clique para clarear as paredes.
 
Não embrulhamos a ternura, esnobamos. Parece que é um dever recebê-la, que nossa companhia precisa nos oferecer sempre o cotidiano mais precioso. Devoramos um bolinho de chuva pensando no próximo. Beijamos a boca de nossa mulher cobiçando o segundo, o terceiro e o quarto beijo.
 
O que é ruim é solene. O que é bom é descartável.
 
A morte se torna mais inesquecível do que o nascimento. O atrito surge mais consolidado do que o primeiro encontro. A ruptura se destaca diante dos acordes iniciais da amizade.
 
Temos amnésia da leveza, pois deduzimos que virá mais e mais no dia seguinte. Não criamos álbuns de nossas gargalhadas, mas recortamos as cenas rancorosas e amargas como se fossem definitivas e esclarecedoras.
 
Somos algozes da felicidade e, ao mesmo tempo, vítimas da infelicidade.
 





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 28/08/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17175

14 comentários:

Unknown disse...

É assim mesmo. Só guardamos o que nos marcou negativamente. Fato.

Uma menina com uma flor disse...

Esse texto me fez refletir...Mais uma vez você traduz em palavras o que sentimos, o que passa batido pela nossa existência. Obrigada por essa leveza, esse jeito único de nos tocar!

Izabela Cosenza disse...

bravo!

Estermann Meyer disse...

Minha namorada me perguntou hoje se eu conhecia os teus textos ou livros. Morei fora do país nos últimos anos, confessei que nunca ouvira o teu nome. Resolvi pesquisar. Gostei especialmente dos poemas que encontrei. Parabéns pelo trabalho, de coração. Também escrevo poesia, mas ainda jovem, muito o que aprender. Ficaria muito feliz se tu desses uma olhada no blog que mantenho. O endereço é
www.fundodocopoprofundo.blogspot.com

Mais uma vez parabéns, grande abraço, Guilherme.

Cib Gomide disse...

Acho que é porque a gente aguenta mais a magoa que a felicidade que não está mais. Acho que a gente quer ser tão feliz e não suporta a idéia de ser só um pouco ou só lembrar. Melhor lembrar do que é ruim porque já é uma felicidade saber que é lembrança.
A tristeza lembrada é a felicidade do alívio.
Penso que essa amnésia é mais defesa que ingratidão. Mais desamparo aprendido que perversão

ociolivre disse...

Mais uma vez, diagnóstico perfeito.

Anônimo disse...

Eu devo estar vivendo em outra dimensão... Esta é a primeira vez que leio um texto seu e tenho de discordar tão profundamente...Não me identifico com NADA! E pior, olho ao meu redor e não vejo alguém próximo à mim que tb apenas colecione infortúnios e más lembranças... Entendi eu errado?! Reli o texto e nada. Guardamos os momentos ruins pra nos ajudar a superar perdas, dificuldades. Mas exatamente quando estamos no momento ruim, o que me faz sobreviver é o quinhão de pequenos momentos, gargalhadas e sorrisos que carrego dentro de mim...tão vivos como o momento vivido. Não me considero nada especial por isso, achei q esta era a "normalidade"... Se vc estiver certo, eu posso dizer q sou abençoada. E não me ressinto por isso. Espero que este seja um texto em um momento ruim e apenas isto.

Maurício Costa disse...

Incrível! Falou o que sempre quis dizer de uma forma linda! Parabéns!

Anônimo disse...

Exatamente o que tenho pensado ultimamente...Cadê minhas lembranças felizes???

Ana Braga disse...

No Twitter, Gikovate exolica porque pensamos mais nas coisas ruins: "A mente humana está programada para a preservação da vida: se ocupa muito mais com o que está indo mal do que com o que pode nos dar prazer!"

Ana Braga disse...

*explica

Gustavo Salazar disse...

É verdade! Sempre guardamos com mais eficácia as lembranças ruins. Felizes aqueles que tem pouco memória.
De março/02 à Ago/12 foram os anos mais felizes da minha vida.
Parabéns Carpinejar.

Nayara Magalhães disse...

Já fiz um texto parecido.
Tive tantos amigos desde a infância, mas penso mais naqueles que me separei com ódio no coração, me lembro mais dos que me feriram.
Tive inúmeros aniversário, mas me recordo sempre com detalhes do qual meu pai se matou..
Tive muitos momentos felizes ao lado de meu pai, porém os que me vem sempre a lembrança na hora de dormir, são as de brigas e discussões..
Por que?
O ser humano gosta tanto de se martirizar!
Onde estão os bons momentos?
Cheguei a conclusão de que estão escondidos, amedrontados pelos momentos mais difíceis!

Pedra do Sertão disse...

Fabrício,

Eu tenho uma irmã que parece estar no início de seu texto. Quando envio fotos de nossa infância, ela só reclama das broncas, da infelicidade da infância, da implicância dos meninos e meninas da escola...coisas assim. Me assusta um pouco isso, porque estava ali, junto dela, e tenho uma compreensão totalmente oposta. Mesmo com a pobreza, a dor de muitas perdas, das dificuldades, minha memória é cheia dessa leveza de que você fala. Muito bom sempre vir aqui e ler seus textos!

Abraço do Pedra