terça-feira, 21 de agosto de 2012

DESCONGELAR A GELADEIRA

Arte de Edward Munch

Na infância, não receava quando a mãe perguntava quem tinha quebrado um vaso ou quando ela questionava a identidade daquele que mexeu em sua bolsa à procura de troco.

Todo mundo temia a contagem regressiva para limpeza da geladeira.

– Vou descongelar a geladeira amanhã.

Vivíamos 48 horas de ameaças.

Ela entrava em transe monotemático. Ofegante, avisava e logo esquecia que avisou.

Era como faltar luz ou água em casa. Exigia um plantão afetivo, não se podia nem brincar com o assunto e subestimar a força-tarefa com piadas.

Descongelar a geladeira significava uma operação séria, grave, de abstinência coletiva.

Você talvez não vá entender, devido à atual oferta de geladeira com duas, três, quatro portas, capacidade para 450 litros, sistema frost free, drink express ou gelo fácil. Hoje, a geladeira até cozinha, embala e entrega a marmita quente.

Naquela época, o refrigerador não ultrapassava 1m60cm, por respeito à estatura das vovozinhas. Contava apenas com trinco simples, um lado e uma cor. Não sabia ler nem escrever, sem nada automático por dentro.

Uma vez por mês, as famílias deveriam esvaziar totalmente as prateleiras e o congelador.

Uma guerra sanitária que deveria ocorrer no dia certo (de preferência ensolarado), na hora H em que os produtos expiravam as datas de validade. Tudo para assegurar poucas perdas e uma maior economia no lar.

A privação custava caro para as crianças, aniquilava nossos assaltos apetitosos de tarde para adiar os temas. Ficaríamos longe das sobras do almoço e da janta, do ki-suco e do pudim minguante.

A mãe mobilizava a faxineira para ajudar a caçar cheiros passados e bandejas vencidas debaixo das crostas do gelo.

Não podíamos entrar na cozinha enquanto a equipe feminina realizava o serviço e inspecionava a Antártica caseira.

Elas criavam um cordão de isolamento, fechavam o acesso pelo pátio. Juro que uma dedetização seria mais discreta.

Tirar a geladeira da tomada correspondia a iniciar uma cirurgia delicada, salvar o máximo possível de mantimentos, evitar que delicadas e caras compotas estragassem.

O pai se trancava no escritório. Os filhos terminavam enviados para os vizinhos.

Pela movimentação, o bairro descobria a chegada da data decisiva do degelo.

A mãe comentava:

– Mais simples morrer do que descongelar a geladeira.
– Não exagera, mãe! – respondia.
– Exagerar? Vai morrer para ver o que é pior.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 21/08/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17168

3 comentários:

Poliana Figueiredo disse...

EU TINHA PAVOR DE DESCONGELAR A GELADEIRA,UMA DAS TAREFAS DOMÉSTICAS MAIS COMPLICADAS, SEM DÚVIDA, HORAS E HORAS ERAM GASTAS E O TEMPO PARECIA NÃO PASSAR...

Guaracy Britto Junior disse...

Dois anos atrás me hospedei num flat em São Paulo onde tinha um fogão estranho. No lugar do forno tinha uma geladeira. Yin-Yang tecnológico. Xipofagia térmica. Frigofogo.
Abs

Dalva M. Ferreira disse...

Adorei. Não imaginava essa odisséia toda por causa de um ato caseiro. E adorei o "frigofogo" aí do Guaracy.