quarta-feira, 22 de agosto de 2012

SIM E NÃO

Arte de Cínthya Verri 

Não mexa no iogurte dela. Ela tem uma técnica especial para enrodilhar a tampa, é estragar um dos melhores momentos de sua vida e desperdiçar a nata que se acumula no alumínio.
 
Já pode desenroscar à vontade sua garrafa da água. Ela não vê nenhuma arte nisso.
 
Não rasgue o pacote de bolacha. Ela deseja raspar os dentes no recheio da primeira bolacha, a mais crocante.
 
Já arrebente a linha pontilhada do salgadinho. Ela agradecerá o desperdício.

Não leia as dedicatórias dos livros dela, são cartões de amor disfarçados.

Já rompa o plástico da embalagem do CD, ela se revolta com o lacre.

Não coloque geleia ou manteiga em seu pão, existe um deslizamento da faca que aproveita a crosta dourada. Excesso de força talvez quebre a fatia e esfacele a obra-prima.
 
Já pode sacudir e servir o suco, é uma atitude carinhosa.

Não toque no saquinho de chá, cada um tem seu jeito de mergulhar o sachê e extrair a fragrância.

Já prepare o café, ela se sentirá aquecida pelo perfume.

Não perfure o vinagre e o azeite — o furinho de prego é herança de família.
 
Já tire a rolha do vinho e do champanhe.

Não invada o delicado pote de requeijão, é sacrificar o buquê de queijo.
 
Já pegue para si o frasco de pepino e de azeitona. Pressão é com você.

Não coloque de volta as roupas no cabide. Ela deve conservar uma ordem de importância das peças.

Já guarde os sapatos, não tem como estragá-los.

Não espie a cor do batom, ele grudará na tampa por sua imperícia.
 
Já aponte o lápis de olho.

Não ouse olhar o estojo do pó facial, o recipiente é frágil e não há como remediar depois.

Já desenrosque a cola bonder, eternamente com a ponta grudada.

Não estreie o xampu, significa o maior desrespeito à privacidade.

Já tire os sabonetes das embalagens e caixinhas, é de um cavalheirismo comovente.

Não esprema o tubo da pasta de dente.

Já pode manusear qualquer produto com spray.

Não lave as espátulas, tesourinhas e pinças do banheiro.
 
Já providencie a limpeza dos espetos do churrasco.
 
Gentileza não é se antecipar aos movimentos femininos e fazer tudo, mas saber o que fazer. Não é abrir tudo, mas saber o que abrir.

Ser educado sem perguntar é falta de educação.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

5 comentários:

Gabriela Martins disse...

Já acho a primeira bolacha sempre quebrada...prefiro a segunda!

Teffi disse...

Carpiiiii, você é demais. Por que não entendem que nem sempre gostamos das coisas que fazem por nós? hihi

O primeiro item sou eu purinha! Quase não gosto de danone, mas quando quero um é só pra ter o prazer do restinho grudado no alumínio *u*

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Comentar é bonito e educado :)

Vinicius Melo disse...

Melhor ficar de braços cruzados a tentar que possivelmente irá machucar sua amada. "Antes o nada bem feito do que o tudo de forma errada"

Parabéns pela crônica Fabrício.

Cher Lopes disse...

Esqueceu do "não corte a primeira fatia do bolo, ela fez, ela corta como se fosse uma fita de inauguração"

Dalva M. Ferreira disse...

Eu sou tão sem mistérios, tão grosseira mesmo!Não tenho NENHUM desses jeitos femininos de ser. Eu jamais me apaixonaria por mim mesma...