segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

UM COPO D´ÁGUA PARA PAULO MARINHO

Arte de Moholy-Nagy

Caminhava pelo aeroporto de Congonhas, esbaforido, suportando a terceira troca de portão da companhia aérea.
 
Alguém me chamou.
 
Virei o rosto já acenando.
 
Observei um homem encolhido numa cadeira de rodas, em área reservada aos que necessitavam de cuidados.
 
Não reconheci. Pela pressa do voo, não lancei atenção demorada. Bati a mão no peito fortalecendo o cumprimento. Deduzi que fosse um leitor ou algum espectador. Agi com brevidade simpática.
 
Quando retomei meu rumo, sua voz ainda me agarrou:
 
– Você me amou e me abandonou!
 
Conferi de novo seu vulto, intrigado com a força da sentença.
 
Quem? Não me parecia estranho: barbudo, 50 anos, sotaque gaúcho.
 
Avancei assim mesmo pelos corredores.
 
Colega de aula? Da turma da adolescência? Do bairro Petrópolis?
 
Os olhos amendoados e esverdeados me intrigavam. Teria sido um confidente? Como que me esqueci?
 
Os olhos ávidos (não carentes), de quem mesmo?
 
Os olhos dele continuavam grudados em mim enquanto eu arrastava a mala.
 
O medo de ter sido ingrato me consumia.
 
Entrei na fila do embarque. Ao entregar a passagem para o comissário, reconheci tardiamente o rosto. Ai, Meu Deus. Abandonei a fila, dei meia-volta em direção ao saguão e corri para encontrá-lo.
 
Fui gritando de longe, pedindo desconto pelo lapso:
 
– Paulo Marinho! Paulo Marinho!
 
Ele me enxergou vindo e sorriu. Sorriu bonito. Sorriu vingado. Sorriu refeito.
 
Só desejava que eu me recordasse dele.
 
O que mais deseja um doente do que um copo d’água e ser lembrado?
 
Fragilizado pelo câncer, Paulo Marinho não era mais a figura que conhecia: um fiapo, os braços derrubados, a fala arrastada.
 
Muito diferente do tempo robusto de nossa convivência, quando ele pescava, viajava, contava histórias de seus amores com galhardia e metáforas.
 
Muito diferente da época em que ele escrevia crônicas maravilhosas no Vale do Sinos e armava animados churrascos em Sapucaia.
 
Neguei sua fisionomia para negar sua doença. Infelizmente não queremos nos incomodar com amigos vulneráveis. Eles devem aguardar o fim das festas. Não é que não identificamos, tememos enfrentar o sofrimento que vem com a intimidade.
 
Mas seus olhos foram mais rápidos do que minha indiferença. Mais moleques. Mais guris. Recobrei seu nome pelos olhos infantis. Seus olhos não perderam a curiosidade com quem atravessa sua frente e a esperança de ser amado.
 
No Natal, não deixe nenhum amigo anônimo no hospital ou no aeroporto.
 




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 24 e 25/12/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17293

8 comentários:

Anna Paula Barp disse...

Maravilhosa crônica!

Feliz Natal!!

ana disse...

Quer dizer que se fosse um leitor ou um espectador você teria ido embora ? Neste Natal não deixe nenhum anônimo no hospital ou no aeroporto
ainda que não seja seu amigo.

Fernanda Magalhães disse...

amo voce

Anônimo disse...

Uma leitura diferente diferente da estadia de Paulo Marinho no aeroporto.
Concordo com Ana no comentário acima, e ainda afirmo qe dar mais atenção para Paulo Marinho do que para um leitor não é coisa pra divulgar como motivo de orgulho, sabendo que o primeiro não potencializa a sua cultura, a leitura ou o intelecto no que faz (Globo) e o segundo é potencialmente alguém que o aprecia e admira.

Com apreço e admiração(tocados agora depois desta leitura),
Liz.

Anete Fuchs disse...

Adoro sua maneira de ser e conheço o Paulo Marinho vçs são duas pessoas cativantes e queridas que mereçem todo o nosso carinho e respeito.Beijo e fiquei muito feliz com esse reencontro pois sei que ele deve ter ficado radiante diante de ti. Ele mereçe ser feliz pois durante toda sua vida fez muita gente sorrir.

Anônimo disse...

Engraçado como as pessoas não conseguem entender o valor dos sentimentos.
A questão aqui não é se Paulo Marinho era ou não um leitor ou expectador, se era um conhecido, alguém importante na sociedade.
O que importa é que ele era Paulo Marinho. Uma pessoa única, como todos nós. Paulo Marinho poderia ser Marcos, Laís, Sandra, Angela ou Maria... Podia ser qualquer um.
A questão não é esta. A questão é que independente do tempo, da saúde, das experiências, das vivências, somos únicos e especiais. E merecemos ser lembrados e acalentados.
O melhor sentimento que um ser humano pode sentir é o amor: pela sua família, por alguém, por um bichinho, por seus colegas, por seus amigos.
Fico triste por Paulo Marinho estar doente... Sei o quão importante ele é para pessoas que são importantes para mim. E desejo do fundo do meu coração que Deus o proteja...
Mas como Carpinejar mesmo escreveu: não devemos deixar aqueles que amamos desconhecidos ou não reconhecidos... não apenas no natal, mas todos os dias.

Parabéns pela crônica :-)

Sandra disse...

pena que anônimo, mas brilhante a
colocação: ¨O que importa é que ele era Paulo Marinho. Uma pessoa única, como todos nós. Paulo Marinho poderia ser Marcos, Laís, Sandra, Angela ou Maria... Podia ser qualquer um¨
Mas Paulo Marinho é Paulo Marinho...difícil escrever sobre ele que escreveu sobre tantosssss...
na vida dos que conheço que ele passou, em todas deixou marcas...espero meu amigo que estejas bem...até breve...

Delvan disse...

Fabrício
Casualmente esta semana estava me lembrado do Paulo Marinho, cujas crônicas eu lia sempre no jornal Vale dos Sinos. De repente, ele sumiu. Pensei esta semana: onde andará o Paulo Marinho? E agora vejo, não sei se tardiamente, esse artigo seu de 2012...