sábado, 15 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"MELHOR AMIGO DE MEU PAI É MEU AMANTE"
Arte de Thomas Eakins

“Eu me apaixonei perdidamente pelo melhor amigo do meu pai. E ainda é casado. Não posso dizer que temos um relacionamento, mas desde que nos reencontramos, há dois anos, sempre que ele aparece a gente fica. Não sei o que acontece. Se o medo dele é do meu pai descobrir e não perdoá-lo, se é medo da esposa se matar ou matar alguém. Penso que seja por isso que ele não se decide definitivamente a se separar, pois ela tem crises e ameaças suicidas. Já pensei até que o medo dele é por ser 12 anos mais nova. Eu realmente não sei. Abraços, Ingra”

Querida Ingra,
 
Você está mexendo com magia negra. Investir em namoro com amigo de pai é pedir para sofrer. Deve conhecê-lo desde pequena, criar a fantasia que estava se guardando, que o amava em segredo, que não resistia em fantasiar quando ele vinha visitar a família; uma doideira só.
 
Não é sadio se envolver com quem nos viu de fraldas. É pedofilia atrasada.
 
É um relacionamento para desacontecer. Parto da seguinte regra: se o caso demora mais de um ano, esqueça. Os amantes se acostumam rapidamente com a clandestinidade, e a clandestinidade é mais estável do que o casamento. Além de tudo, seu companheiro é mentiroso. Vive se protegendo na doença da esposa para não se decidir a favor do divórcio. Não é que ele não se separa porque a esposa pode se matar, clássico engodo masculino. Ele alimenta a enfermidade dela com ciúme de você para nunca se separar. A mulher suicida e perigosa é o escudo da inércia, o atestado médico, o pretexto ideal.
 
Existem muitos homens usando a falsa histeria da mulher para manter um caso por mais tempo. São malandros que forjam um descontrole doméstico para prosseguir com a identidade dupla. Eles se portam como vítimas de um casamento infeliz. Ainda carimbam a imagem de preocupados e generosos, que não podem deixar a coitada na mão. Você confia mesmo neste conto de fadas hipocondríaco?
 
Certamente ele não se interessa em casar com você, ou oficializar qualquer laço público. Procura aproveitar a comodidade e facilidade dos encontros. Jamais vai se curar da esposa doente e completará bodas de ouro. A diferença de idade tampouco é problema. O que lamento é que tenha quebrado a confiança paterna. Sob a roupagem do amor impossível, nem percebeu que elaborou todo o enredo para chamar atenção do pai. Você se aproximou do amigo dele para castigá-lo pela ausência em casa? Está mandando a seguinte indireta: como você não me ofereceu atenção, eu roubei o confidente.
 
Seu entrevero sentimental é um atalho à vingança. O que mais deseja é que o pai descubra o romance para que ele se afaste do melhor amigo e fique mais tempo em família. Coisas de criança orgulhosa, que não sabe como ganhar colo ou conversar sobre suas tristezas.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 16/12/2012 Edição N° 17285
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

6 comentários:

ana disse...

A clandestinidade é mais estável que o casamento....
Como posso contestar um gênio ?

Olho no olho. disse...

Diagnóstico perfeito!

Anônimo disse...


Quando é verdadeiro, acontece! Simples, é só lembrar do que já aconteceu, como tudo foi se encaixando, ajeitando...detesto tudo que é difícil,por sou facinha..rss

Anônimo disse...

Mas ser a OUTRA é sempre mais interessante. Atente para o conselho: a clandestinidade...

JACK disse...

O que todo mundo quer é viver uma história legal com alguém do lado, do tipo, viajar, ir a restaurantes, bares, festas, confraternização familiar; poder gritar ao mundo que aquele amor é seu! Veja por este angulo e não procure alguem comprometido com outra relação amorosa...de chance ao destino! Não concordo que ser a outra é mais interessante... nunca fui, nunca procurei ser e, por isso, vivi grandes e intensos amores e ainda hj vivo um! corcordo com Fabrício! beijos

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