segunda-feira, 28 de julho de 2014

NÃO VOU ME JULGAR E FAZER O TRABALHO PELOS OUTROS


Veja entrevista concedida a Yasmin Taketani para o Suplemento de Cultura de Pernambuco, edição de julho.

A palavra é um copo de água com açúcar. A saudade é uma esperança de amor. O impossível é o possível a dois.

Fabrício Carpinejar parece ter respostas para tudo — boas frases, no mínimo. O poeta e cronista brinca com o senso comum, pende para a moral, provoca a banalidade ou encuca dúvidas.

Tudo isso está no recém-lançado Me ajude a chorar (Bertrand), livro de crônicas que enfoca as relações humanas (sobretudo amorosas), lembranças de infância, a felicidade de um grupo de operários — histórias de uma faceta mais melancólica, mas plena de esperança.

Carpinejar é autor de mais de vinte livros e vencedor de importantes prêmios literários. Escreve nove crônicas semanais (para veículos como Zero Hora, Rádio Gaúcha, Vida Breve e o blog n’O Globo), mais duas mensais, e participa de vários eventos de literatura pelo país. De uma palestra há uns seis anos, guardo a imagem do showman que não parava quieto na poltrona e dispensava mediação; no ano passado, em um evento em Curitiba (PR), conversei com um cara tão doce quanto provocador.

Na entrevista a seguir, realizada por telefone — enquanto Fabrício cuidava das contas a pagar, cumprimentava pessoas na rua, era quase atropelado (?), entre outros intervalos —, falamos sobre sua rotina, o novo livro de poesia (previsto para 2015, oito anos depois de sua última publicação no gênero), crônica, crítica literária e morte.

Em uma crônica recente, você escreveu que “Em algum lugar de mim, todas as ofensas estão guardadas e chaveadas”, que não as procura para não chorar. Agora, você pede Me ajude a chorar. De onde vem essa mudança?
CARPINEJAR - Não é mudança, é um apelo. Não me faço sozinho. Nem para rir, nem para chorar. Risada solitária é loucura. Choro sozinho é desespero. Preciso de apoio para a tristeza e felicidade. O passado me ameaça mais do que o futuro. Tive que me inventar na juventude para me descobrir na maturidade.

Literatura não é solidão?
CARPINEJAR - Pelo contrário. Literatura é sair da solidão, é esse esforço espartano pra sair da solidão. A tua independência é feita da insuficiência. Tu tem que ser muito bem resolvido para precisar de alguém, admitir que é insuficiente.

Por que fazer isso através da literatura?
CARPINEJAR - Eu não tenho outra competência. Não me tira ela. (Risos)

Suas experiências pessoais estão muito presentes nas suas crônicas. Até que ponto você aceita tornar pública a sua intimidade, e em que medida ela vale como literatura?
CARPINEJAR - Só vale como literatura aquilo que não me salvou. Partilho dúvidas, o arrebatamento das incertezas. A crônica é o gênero da primeira pessoa. Mesmo quando estou ficcionalizando, estou me confessando de alguma forma. É muita pretensão o escritor acreditar que pode escrever sem ser contaminado pela própria vida. É suspirar que mudo minha vírgula.

Ainda assim, suas crônicas têm muitos conselhos e certezas, afirmações.
CARPINEJAR - Quer uma dúvida mais visceral do que o palpite? O conselho não é uma certeza, é um ponto de vista. E todos os meus conselhos são invenções do senso comum. Tem uma inquietação aí. A gente tem a preguiça de tentar ajustar a realidade ao que a gente está sentindo. A gente quer o que se encaixa nas nossas convicções.

Você quer abalar as convicções do leitor?
CARPINEJAR - Não estou contra o leitor. Estou contra mim. O leitor está em mim. Não escrevo para agradar ou para encantar ou emocionar...

Mas dizem que você encanta e emociona.
CARPINEJAR - Mas não porque eu quero. Senão, escreveria livros técnicos. No livro emocional, pode sair tudo errado. Hoje eu escrevi uma crônica sobre um sonho que tive com um amigo que morreu. Não estou pensando se vão achar que o texto é espírita ou... Pelo contrário. Senti necessidade desse texto. Literatura é urgência. O escritor é arquiteto do vento, não de coisas sólidas. Tu está lidando com algo imprevisível.

Qual é a sua melhor obra?
CARPINEJAR - Não vou me julgar. Não vou fazer o trabalho pelos outros. (Risos)

Então, qual a obra que você vê com mais carinho?
CARPINEJAR - Eu gosto muito do Meu filho, minha filha. Acho que ali identifico uma mudança na minha poesia, que devo mostrar no meu próximo livro.

O livro, seu último de poesia, foi publicado em 2007. Por que esse intervalo?
CARPINEJAR - Acho que para não me repetir, não cair num modelo de pensamento. O poema, ele é muito perigoso. Porque precisa ser só o essencial. Se tu não tem o que dizer... Daí de repente tu vai apenas se exaurir. Eu parei de escrever para não me repetir. Meu próximo livro é mais um réquiem do que uma outra visão.

E por que o livro de poemas nasce agora?
CARPINEJAR - Não tenho a mínima ideia. Talvez porque eu não tenha conseguido na terapia. Poema é o fracasso da terapia.

Você publica quase dez crônicas por semana. Escrever tornou-se mais fácil?
CARPINEJAR - Eu sou capaz de escrever no celular, até. Como se fosse um torpedo. Porque o texto está em ti.

O que você precisa para escrever?
CARPINEJAR - Eu preciso adoecer de amor. E me curar de amizade.

E como fica a poesia? Você tem alguma rotina?
CARPINEJAR - Não. Poesia funciona mais em transe. Ela te puxa. A crônica trabalha a informalidade do pensamento. Ela vai ajudando muito o pensamento da poesia, a tornar tudo mais comunicativo. Traduzir o inacessível.

Me parece que você tinha um retorno da crítica muito maior na poesia.
CARPINEJAR - Na verdade é uma rejeição da popularidade, como se aquilo que fosse popular não pudesse ser bom. Eu me tornei popular como poeta, antes de ser cronista. E aí acho que houve um esfriamento da crítica — não que fosse negativa, mas de não falar. O cronista sofre muito com a ausência de crítica.

A tua relação com a literatura mudou dos primeiros livros para cá?
CARPINEJAR - Total. Eu buscava a posteridade. E hoje eu vejo o quanto que é difícil ser feliz... Não tem como ficar preso à posteridade. A gente é provisório.

O que você busca hoje na literatura?
CARPINEJAR - Tem escritores que buscam a remissão dos pecados. Eu procuro um lugar onde possa pecar ainda mais.

Que tipo de pecado?
CARPINEJAR - Todos. Eles ampliam as dúvidas. Ninguém se equlibra com uma certeza, mas com mais de uma dúvida. Toda certeza só leva à doença. Se você tem uma certeza, você fica preso a ela. Vai cair no orgulho, na teimosia. No preconceito. Mas se tu tem várias dúvidas, tu não vai ser preconceituoso. Tu vai esperar, ouvir, compreender.

A dúvida não paralisa?
CARPINEJAR - Me põe em movimento.

Em que direção?
CARPINEJAR - Não preciso saber para onde estou indo. Preciso saber o que eu vou deixando.

Você escreve e fala a milhares de pessoas na tevê, no rádio, no jornal, em palestras, na internet. Não cansa ter que dizer algo o tempo todo?
CARPINEJAR - Sabe que às vezes me dá uma ressaca da visibilidade. Preciso ficar parado. Não cansa porque gosto muito do que faço. E para quem não sabia falar na infância, é sempre um triunfo. Você tem que falar na TV, no rádio, em palestras e tal... Mas é uma solidão tremenda.

Deve ser uma responsabilidade grande encarar milhares de pessoas que esperam que você diga algo importante.
CARPINEJAR - Tenho essa responsabilidade, adoro. Não me intimido. Responsabilidade é assumir quando você erra. Responsabilidade não é invisibilidade. É uma derrota altiva. É imperfeição iluminada.

Você cria essas frases na hora?
CARPINEJAR - Sim, tô falando contigo.

Às vezes penso se o Fabrício Carpinejar que vemos em palestras, na televisão, em entrevistas e nas redes sociais não é um personagem, com ótimas respostas para tudo. É possível que você tenha criado um personagem para si mesmo?
CARPINEJAR - (Risos) Não criei um personagem. Eu estava em tanta falta comigo que o personagem é que me criou. Não tinha nada no lugar. (Risos) O autor passou a ser pelo personagem. O personagem criou o autor. Sabe quando que a gente se torna adulto? Quando a gente passa a não ter amigo imaginário. A minha estratégia para me guardar é me expor.

E como esse autor dialoga com o poeta de Terceira sede, por exemplo, que me parece ser mais movido pela sutileza, dúvida e sensações?
CARPINEJAR - O poeta continua ali. O poeta fica pescando em ti. Teus pensamentos, angústias.

O que ele pescou para o próximo livro de poesia?
CARPINEJAR - O livro sou eu morto, tentando descobrir quem será minha viúva. O Brás Cubas da poesia.

Por que “tentando descobrir”?
CARPINEJAR - Você vai ter que ler...

Você é um escritor consolidado. Imagino que isso te coloque numa posição confortável e também de expectativa.
CARPINEJAR - Confortável?? Numa frase tu pode perder tudo o que construiu. Imagina uma frase infeliz na web? Quinze anos numa frase infeliz na web. Quinze anos transformados num meme!

É até incrível que isso não tenha acontecido com você, nenhum deslize em todo esse tempo.
CARPINEJAR - Não aconteceu porque eu também tenho autocrítica. Antes eu achava muito mais fácil ser escritor. João Cabral, Drummond, Bandeira — eles não tinham que dar opinião sobre tudo. Eles não tinham essa superexposição para as pessoas ficarem enjoadas deles. Tinha a obra e deu..

O que você espera do escritor?
CARPINEJAR - Firmeza, caráter. E senso de humor.

Na obra ou na vida?
CARPINEJAR - Em tudo. Principalmente na literatura. Não ter vergonha de ser perecível. Tem escritores que ainda defendem a vida culta, letrada, como se fosse um dom aquilo que eles têm.

Certa vez você disse que perguntar é se sentir vivo, “é a inquietação de tentar alargar os nossos limites”. Que pergunta o acompanha atualmente?
CARPINEJAR - Tu sabe, agora eu já estou numa fase em que meus amigos estão morrendo. É terrível isso. O que eu queria é o poder de me sentir velho. Os amigos estão morrendo e eu só me sinto finito. Se teus amigos morrem, você não consegue envelhecer com tranquilidade. Mas eles morrem e tu não fica com medo do tempo; tu fica com medo da morte. Me deixa ter medo do tempo. Não da morte.

Eu não te entendo. Você se entende?
CARPINEJAR - Se tu me ama, já é um começo. Eu percebo que tem um estalo, um fermento aí — por exemplo, nisso que eu sinto de que a morte vem antes do tempo. Eu queria ter medo do tempo, medo da velhice, de enrugar, de falhar, de não ser tão exato. Não — tenho medo da morte. Antes mesmo de envelhecer você pode morrer.

Um comentário:

EVANI disse...

Oi, achei maravilhosa essa entrevista, tanto as perguntas inteligentes e criativas, quanto as respostas tão profundas e particulares.
Adoro sua singularidade na forma de escrever, me emociono muitas vezes e outras delas me pego sorrindo, me identificando.
Beijos em seu coração - sou fã dessa pessoa que vive dentro do escritor.
Evani