segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O MENINO DONO DA BOLA

A bola era cara antes dos anos 80. Não se reproduzia em série como hoje, não havia oferta do produto por diferentes marcas, não se adquiria a bola oficial da Copa, da Libertadores, do Campeonato Brasileiro e do Gaúcho, não podia ser encontrada em camelôs, muito menos tinha a aparência como a conhecemos: impermeável, sem costura, realmente esférica e de várias cores.

A bola tinha gomos de couro, que caíam conforme o uso. Ia se desfolhando como massa de pastel, até aparecer a bexiga, que saía para fora como uma espinha gigante pronta a estourar. Não durava muito. Costurada à mão, artesanal mesmo, exigia cuidados especiais, como esfregar sebo no couro, assim como um surfista passa parafina em sua prancha. Tudo para deixá-la mais resistente aos paralelepípedos e campos de terra batida.

O risco de perdê-la costumava ser imenso. Jogávamos também nas ruas, com traves de tijolos e, invariavelmente, diante do chute desesperado do zagueiro para desafogar o ataque, a bola quebrava uma vidraça ou parava no pátio de alguma residência, e os vizinhos não a devolviam, para compensar o prejuízo. Isso quando não terminava atropelada por um carro. O estouro ou a apreensão de uma bola poderia significar o término da brincadeira por meses, suspender o campeonato do bairro, pois a turma não desfrutava de condições de comprar outra.

Receber uma bola de presente costumava ser uma dádiva da classe média alta para cima. Coisa rara para nós, molecada descalça.

O que criou condições para o surgimento de uma figura odiada no meu tempo: o menino rico que dava carteiraço porque trazia a bola. Ele nunca jogava nada, inábil e desastrado, com alma perna de pau, mas mandava e desmandava nas partidas. Agia como um híbrido de gandula, técnico e cartola. Abusava da autoridade de sua posse. A pelada só começava quando ele autorizava, do lado do time que ele desejava, com o regulamento inesperado de seu humor. Quando perdia, ele apitava o fim do duelo. Do nada, estragava a disputa, enervava o adversário dizendo que não havia vencedor já que o jogo foi suspenso e corria para casa com a desculpa de que a mãe o estava esperando. Queríamos bater em sua lata esnobe, enchê-lo de porrada devido a sua tirania, oferecer uma lição ao seu egoísmo filhinho da mamãe, porém pensávamos melhor e aceitávamos a cartolagem, passivos e obedientes, porque só ele possuía a bola, no raio de 10 quilômetros.

Todas as pessoas de que não gosto na vida, eu as imagino com uma bola debaixo do braço fugindo para casa. Nunca me recuperei dessa submissão na infância.

Publicado em Jornal Zero Hora em 19/12/2017

Um comentário:

Miguel Lopes disse...

Salve Carpi (seu lindo!); E aquele "bacon" tipo Chulapa de carne pedurado na ponta do dedão? Quixute tinha, mas só p escola...