segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O PAI NO HOSPITAL

Estranhamente eu me vi contente quando o meu pai baixou hospital. É um sentimento feio para se confessar, mas foi o que aconteceu comigo. Não consigo definir se era felicidade ou alívio.

O meu pai sempre foi rigoroso comigo, de meias e duras palavras, sério, distante, inacessível. Demonstrava afeto e importância falando de dinheiro, se eu precisava de alguma coisa, mais nada, nunca descobri o que pensava e o que desejava, jamais expôs uma outra preocupação carinhosa.

O máximo de contato que tivemos se resumiu a seu aceno uma vez na rodoviária quando segui viagem para estudar na capital. O pássaro de sua mão voando tornou-se nossa recordação mais próxima. Quisera ter fotografado.

Já no hospital, pela primeira vez, eu poderia tocar em sua pele, sem medo, sem susto, sem que ele virasse o rosto, sem ser ofendido. Fiquei perto da cama o observando: uma rocha no mar que recebe a superfície afofada do líquen.

Ele, indefeso, apresentava uma nova autoridade. A autoridade do amor. A sabedoria da fragilidade: nem tudo passa, a amizade dos filhos, surpreendente e incompreensível, grudava-se na pedra.

Fiz questão de cuidá-lo. Ele que nunca me beijava, nunca segurava a minha mão, nunca me abraçava, nunca pedia um favor. E eu o beijei, eu o abracei, eu entrelacei os meus dedos em seus dedos enquanto dormia, eu segurei o copo d’água perto da boca, com a calma sôfrega do canudo.

Recuperei todo o nosso tempo perdido nas três noites de vigília.

Quando ele se recuperou, voltou a ser o que era antes, fechado e distante. Mas eu não voltei a ser a mesma pessoa.

Publicado em O Globo em 09/11/2017

Um comentário:

Miguel Lopes disse...

Não contratei com a vida.

O que ela me liga

é uma conquista de viver,

é uma fúria aprendida,

mas que gosta de ventar em mim.



Nunca segui cláusulas,

normas de existir.

Deixo que outros as cumpram

ou descumpram,

em artigo de morte ou vício.

Deixo que os contratantes

tentem apanhar a vida

em desídia;

ou busquem leva-la

aos ombros, na garupa

dos próprios escombros.



Não contratei com a vida.

Se ela me deu temores, desespero,

não me queixo, nem combato.

Não uso a legítima defesa

para impedir seu parto;

que ela nasça em mim,

cresça e se desfaça


Culpa não tenho

deste amor em desgraça,

deste amor sem casamento,

padrinhos, festas oficiais

e oferendas.



Não contratei;

o estado de graça

é castigá-la

com merecimento,

desamarrá-la das horas,

matá-la em nós.

E continuar vivendo.

Muita saude pro seu Carlos, aliás conheci seus textos procurando pelos versos dele; força e fé!