segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O QUANTO AMO MINHA FILHA PARA ENTENDER SUA IMPLICÂNCIA

Minha filha hoje completa 24 anos.

Minha filha não usa o meu sobrenome para não criar ligação direta comigo.

Agendar um encontro com minha filha é uma operação de guerra. Chamo para almoço, jantar, café, viagem, cinema, e costuma arrumar uma desculpa e uma urgência para não aceitar.

Minha filha não comenta os meus textos. Muito menos revela se leu os meus livros.

Minha filha não usa as redes sociais para não criar parentesco com as minhas postagens.

Minha filha me deixa no vácuo quatro dias numa mensagem – eu até uso emojis para sensibilizá-la, sem efeito.

Minha filha não atende às minhas ligações – depois de algum tempo, pergunta se eu telefonei.

Minha filha não sofre com os meus problemas – avisa que é para parar de drama.

Minha filha não se emociona com o meu abraço escandaloso na rua, pelo contrário, faz um gesto de menos.

Minha filha reclama quando beijo o seu rosto e roço as bochechas com a minha barba.

Minha filha sugere que tem vergonha de mim, e é, no fundo, orgulho. Quando o filho se opõe ao pai, significa respeito e admiração. Eu não fracassei, eduquei alguém capaz de me encarar de igual para igual e me testar para descobrir o quanto a amo.

Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando. Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.

Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.

Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência.

Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.

A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.

Ela vem aprendendo a se defender do mundo comprando briga em casa. Há sempre um porém. Já entendi que não está à minha sombra. Cursa Letras, porém confessa que é para seguir um caminho diferente do meu. Escreve, porém mente que não é escritora. Compõe e canta, porém guarda as suas músicas para o seu próprio prazer.

Ela não admite o quanto somos parecidos. Logo descobrirá que não somos. Ela é muito melhor do que eu. Paternidade é rascunho.

Publicado em Jornal Zero Hora em 26/12/2017

5 comentários:

Cris disse...

Que texto lindo! Adorei...difícil querer ser rascunho, admitir que diante de filhos, aluno(a)s é isso que somos...

Chris Ramalho disse...

Adorei essa crônica, Carpinejar! É mesmo muito legal refletir sobre o modo como nossos filhotes decidem nos incluir/excluir de suas rotinas virtuais. O amor tem formas inusitadas. É esse seu maior encanto e nosso maior desafio. Beijos! Christina Ramalho (lembra do concurso da FUNARTE? Muitos anos já...)

Iraci Bahia Cardoso disse...

Adorei teu texto e me levou a pensar no meu relacionamento com minha filha... "só mudam de endereço mesmo rrs..." o fato de não querer parecer com os pais só nos leva a pensar que muitas das vezes é apenas birra... no fundo são igualzinhos... nos resta observar... bjokas Fá!😙

Márcio disse...

Poucos entendem essa passagem: "A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera."

Luciana Targino disse...

Adorei. E me ajudou a compreender uma criaturinha minha que age parecido... Obrigada!