segunda-feira, 22 de março de 2010

O PASSADO DO PERFUME

Arte de Magritte

Brinquedo de verdade unicamente no aniversário e nas datas festivas.

Extravasava minha infância com brinquedos de mentira. Na época, criança significava o que havia de mais avançado em lixo reciclável. Acolhia produtos, potes e latas para criar cidades em miniatura e povoar minha imaginação. Tudo o que acabava para os pais ressuscitava em minhas mãos. Não foi uma vez que a mãe me entregou uma embalagem de sabonete: olha que bonito, quer ficar?

Eu ficava e embrulhava o olfato. Gostava de receber os frascos dos perfumes, minha oferenda predileta. Ainda mais que vinha o refil para borrifar, potente como uma pistola de piscina. Eu chegava a gastar o perfume paterno no ar para logo ganhar o recipiente. Apressava seu uso. Não existia banheiro mais cheiroso do que o nosso.

Sobrava um resto de fragrância, cerca de um milímetro dos cinquenta iniciais, justa a medida que o canudo não alcançava. Eu me encarregava de misturar com xampu e água. E passava no pescoço e nos pulsos para ir à escola. Confiava que tinha restaurado o conteúdo. Não me constrangia de ser só vapor. Transbordava a seco. Forçava as narinas a descobrir o espírito do vidro, a fingir que nada mudou desde a compra.

Mantinha uma caixa especial com os perfumes que nunca terminavam. Quando atingia a seca, recarregava da torneira e voltava a fingir pólen. Meu quarto era um free shop mais barato do mundo.

Acho que sou o igual na vida pessoal. Um pouco de cheiro e trato de encher o resto. Conservei a herança. Sofro muito diante de posturas secas e anti-românticas. Armo os olhos a surpreender e ser surpreendido e depois sereno as frustrações.

Deliro que sou desnecessário, talvez seja. Incomoda-me a minha gula, o nível de exigência, já cogito que devo ser louco, daqueles perfis inclassificáveis, em que a carreira não é mais importante do que o namoro. Posso aguentar a semana inteira trabalhando, desde que partilhe um final de semana de juras mútuas. Não pretendo descansar, e sim trabalhar a delicadeza. Se fosse para estar sozinho, não pagava a pensão e terminava preso.

O que me comove são os programas em comum: assuntar coladinho, despistando os problemas e repetindo as declarações óbvias por todo sábado e domingo. Sou um retardado afetivo, que me diga que me ama sem parar. Pelo menos, não conheci um retardado acabrunhado.

Não vejo maior arrebatamento do que alguém perguntando o que desejo fazer. Curtir a sequência de agrados até dormir com profunda nostalgia e levantar com desgosto diante do alarme. Quem não acorda ranzinza na segunda-feira não foi feliz no final de semana.

Mas o relacionamento está em baixa. Permitimos a companhia desde que nosso par não invente de existir e atrapalhar. Somos capazes de nos dedicar mais aos amigos do que à própria mulher. Nem percebemos, são distrações imaginárias. Se surge uma fresta de duas horas no serviço, não ventilamos a possibilidade de telefonar para a namorada e convidá-la repentinamente ao cinema ou a um motel. Geramos tarefas nas tarefas para justificar o tempo tomado. A indiferença é involuntária, até moderna, charmosa, atraente. Tenho consciência do meu perecimento, exalo antiguidade, ando curvado sobre a vaidade como um animal pré-histórico. O individualismo é apelidado de independência e qualquer um que ameaçá-lo será comparado a Fidel. Ninguém mais confessa que se vestiu para o outro, por exemplo. A gente diz que se veste para nos agradar e pronto, que se dane o mundo.

Eu acredito sinceramente que, ao morrer, não terá sido em vão se minha mulher confessar que não houve quem a divertisse tanto. É mais uma crença idiota.

Meu perfume acaba e abasteço o pote novamente. Só eu sei que é água. Mesmo dentro do relacionamento, grande parte do amor permanece platônico.

20 comentários:

Sabrina disse...

somos iguais, pena que exceções :s sempre espero ansiosa tuas crônicas, tu me descreve melhor que eu mesma ousaria tentar descrever.. Obrigada por não me fazer sentir tão fora desse planeta, no mínimo somos 2 ;) beijããão...

Augusto Amato Neto disse...

Não vejo problema em desperdiçar perfume para ser feliz na reposição mesmo que por água. A finalidade é o que importa.
O fim de semana foi ótimo e a segunda, por conseguinte, está ranzinza. Mas nesse minuto fico inconformado com o individualismo disfarçado de independência.
Ao menos agora sei que sou platônico de qualquer maneira: antes, durante e depois.

Anônimo disse...

Teu melhor texto de sempre. Agora deve se aposentar, porque melhor e mais humano que isso não sei se dá.

abs

Maria Tereza disse...

bah tchê! Sempre se superando! Adorei o texto! =)

Juliana Holanda disse...

Ah, quero um "retardado afetivo, que me diga que me ama sem parar"...Por onde será que ele anda? Ahahahaa. Você é excelente!!

Anônimo disse...

Mano,
você é um vivente retardado mesmo. Isso é ótimo. Mas já cobrou da amada o que ela deve dizer, hein?
Paz e bom humor, blogueiro.
Walmir
http://walmir.carvalho.zip.net

Dalva M. Ferreira disse...

Que tristeza! O pior é a solidão subsequente à consciência.

Carolina disse...

Perfeito!

Débora Tavares disse...

A primeira parte da crônica: "Biografia de uma árvore", "Terceira sede", "Cinco Marias", "Um terno de pássaros ao sul"... Matei a saudade desse teu lirismo triste, amoroso e inocente que embora se esconda, nunca morre.
beijo
Débora Tavares

Anônimo disse...

é um tipo de homeopatia, fabrício. criaste uma água-benta, talvez.

M. Refatti

Linda Simões disse...

Pois eu fazia também meus brinquedos, principalmente no quintal de minha casa...E sofro ainda com posturas secas...

Uma página boa de ler. Gostei muito.Parabéns.


Um abraço

juliana disse...

"Subsequente à consciência",kkkkkkk..seja mais clara por favor.

Jééh disse...

Estava lendo (e relendo) agora alguns de teus textos, rindo muitos com alguns, e pensando na razão da existência do meu com outros, sério essse lugar aqui é maravilhoso, um bom lugar pra quem quer se perder ou se encontrar. Obrigado pelos os seus textos :*

Anônimo disse...

DEPOIS DESSA, JÁ ME CONSIDERO UMA RETARDADA AFETIVA!!!
E O MELHOR: MEU FILHO AMA PERFUME. E O DELE (PRIMEIRO INCLUSIVE), ESTÁ ACABANDO...
EM MENOS DE 1 SEMANA, DECIDI E MUDEI MINHA AQUI...
E AINDA COM A FELICIDADE DE CONTINUAR ENSINANDO MEU FILHO QUE PARA SERMOS FELIZES, É SIMPLES E NÃO CUSTA NADA, BASTA AMAR, DEMONSTRAR E PARTICIPAR. O DINHEIRO PRECISAMOS PARA COMEMORAR!

Anônimo disse...

"Subsequente à consciência". Significa: Perceber que é um retadado afetivo e achar-se sozinho no sentimento. Notar qualquer coisa em si que não se encontre à volta e passar à depressão.

Poxa, dá pra escrever mais simples, tipo: Depois que eu vejo isso, fico muito mal. Fica melhor que "Subsequente à consciência", que é tão pedante quanto o meu comentário.

abs

Anônimo disse...

Gugu... Dadá...Gugu... Dadá
Sou uma retardada afetiva abandonada
Gugu... Dadá...Gugu... Dadá
Estou a procura de outro retardado.

Anônimo disse...

nem eu conseguiria me definir tão bem! gracias!
beijos
Yvette

Clarissa disse...

Nossa ainda hj falei, me arrumei toda pensando em ti, é realmente sou tbm uma retardada afetiva!
Amei o texto!

Vivis Amorim disse...

Me vi no texto. Em todas as linhas.

Adélia Carvalho disse...

Também gosto de manter meu 'vidro de perfume' cheio, mesmo que de água. Não tem coisa melhor que desejar mais o amor, a todo instante, do que tudo mais que nos engole na correria diária.