segunda-feira, 8 de março de 2010

VIÚVA ALEGRE

Arte de James Rosenquist


Cada um sofre como pode. Alguns precisam se retirar por dias e permanecer incomunicáveis. Outros nem deixam a dor esfriar e vão para festas.

Não há padrão de comportamento. As paredes são árvores, as árvores são paredes.

Mas existe um preconceito com quem reage com senso de humor. Pois se voltou a trabalhar e a sorrir é como se não estivesse sofrendo. O luto determina um protocolo de solenidade de governo: choradeira, náusea e comiseração.

Não dá para passar a palavra antes das lágrimas.

Sou estranho. Uma viúva alegre. Podem me condenar, preparar uma fogueira na Praça da Matriz, ao som do violino e acordeon do Tangos e Tragédias. Eu me recupero com ligeireza porque sou pai. A paternidade é minha sobrevida.

Não vou forçar meus filhos a sofrer comigo. O luto é meu, não deles. Não ficarei duas horas chorando e assoando o nariz para constrangê-los com minha vulnerabilidade. Não utilizarei nenhuma desculpa para não cumprir as atividades. O almoço me chama, a escola me chama, os temas me chamam, as tarefas de organização da casa me chamam, atendo mesmo quando não estou em mim. Não irei diminuir meu ritmo, apesar de somente pensar na incurável distância da mulher que amo.

Há de tocar a vida mesmo que o corpo seja mais lento e menos obediente. Não que eu não deixe de sentir, eu não me excluo de sentir nada. Mas eu não sinto somente isso. Não construirei arquibancadas para o grito. Dispenso a exclusividade. Apenas não posso me sentar e me esbaldar na cama no escuro, penarei de pé, andando apressado pelos corredores, girando pelas salas, conversando suspirado, misturando as lembranças boas com as ruins. Não me fixarei no problema para odiar alguém. Sou contrário a mobilizar nossas forças e nossa disciplina para não ter dúvidas. Eu adoro as dúvidas. As dúvidas regeneram as verdades. Uma verdade parada não é paz, é abandono.

Arco com toda pontada e naufrágio amoroso ao mesmo tempo em que conservo os cuidados paternos.

Desconfie dos tumultos. Não mostrar o sangue não elimina a chance de hemorragia. Assim como encontro as caretas mais assustadoras na comédia, não em filmes de terror.

O riso é catarse. O riso é muito mais nervoso do que a coriza. O riso é mais um jeito de gemer.

Meu sofrimento não é cerimonioso. Vou me distribuindo entre telefonemas e crônicas. Parcelando a angústia. Guardo a consciência de que não resolverei a dívida afetiva à vista. Não mentirei fundos. Não me envergonho da falta, do vazio, não me encabulo de pedir ajuda o quanto antes.Não espalharei embalagens de comida chinesa e redomas de papelão de pizza pela sala, não convidarei moscas e baratas para coroar a tortura, ou permitirei que a barba cresça, atenderei o interfone, não sumirei para chamar atenção. O suicídio faz um drama excessivo, as pequenas mortes se contentam com a humildade de uma cruz e um nome.

Não enxergará uma anormalidade em minha fossa. Meu quarto estará limpo como num dia de trabalho, a louça estará lavada.

A explicação é simples: aquele que é capaz de atender uma tele-entrega tem condições de voltar a atender sua vida.

Criarei as pequenas desculpas para me aliviar dos grandes medos. Sintomático que na enxaqueca procuro primeiro um AS infantil para depois admitir que cresci e dependo de uma aspirina adulta.

Não me dou nem o direito de jejum, de emagrecer, de afundar olheiras. Esperneio os olhos com cebolas e sigo viagem pelos varais. Não conheço tempo para drama. Não gozo do direito da frescura. O luxo de parar a rotina e me exilar na chácara de um amigo. Eu mesmo me sirvo e me atendo. Não é errado procurar a solidão, curtir o couro e ajeitar as fotografias por ordem de datas. Tampouco estou errado. As mães me entendem. Talvez transmita a ideia de reprimido. Não creio que seja.

Lenços, para quê? Os abraços do filho e da filha são lençóis e me põem a dormir acordado.

O sol lava a minha cara. O suor é a mesma água da lágrima e mata igualmente a sede.

37 comentários:

HNETO disse...

Na sociedade vigente em algumas (talvez muitas) cidades do interior, não é permitido à viúva um sorriso, a alegria, a felicidade. Viúvas são feitas para o eterno luto, para as lágrimas e o eterno pesar da vizinhança. Jamais para o colorido. Viúvas ainda são fetiches literários.

Marinha disse...

O sorriso, às vezes, disfarça o choro da alma.
Bj, Fabro.

dtabach disse...

Que texto tocante, muito lindo. Também sou pai e compreendo esse chamado à vida que os filhos involuntariamente nos fazem a todo momento.
Você é viúvo de fato, ou é uma força de expressão ou personagem?

Anônimo disse...

as mães te entendem...

elaine disse...

Sorte sua, ser assim.

Augusto Amato Neto disse...

Já experimentei tudo o que disse não fazer, hoje vivo a perda como você. É muito mais sadio. Não tenho filhos, pelo menos por enquanto, mas tenho uma irmã caçula de 10 anos pra pegar emprestada!

Anônimo disse...

E a carga fica nos pequenos!?
Bom para os filhos que o vissem humano.
A dor é caos e tudo se esvai quando finda-se um amor...

Andrey Brugger disse...

Que força, Fabrício.
Espero, num futuro, entender todas essas palavras, quando a Vida tentar me derrubar; mas eu encontrar equilíbrio nos meus pequenos.

Um abraço admirado

Tonho disse...

Ser não inclui sofrer.

Anônimo disse...

Homenagem a ti mesmo no dia da mulher, não é de se estranhar...
... faltou contar que quando estás tristíssimo(a) (como Laika talvez) vais ao salão de beleza!
Chyntia é um mulherão, gata-menina,
parabéns pra ela nestes dias especiais!!!

juliana disse...

Lendo você, pude me enxergar atualmente, já sofri por amor, ja me descuidei, emagreci, chorei muito...mas hoje caso vier a acontecer novamente, meu amor-próprio estará acima de qualquer coisa, hoje sofro calada, sem choro nem vela, em alto estilo e cheia de vida.
Bjos Fabro, parabéns pelo texto.

Pri. disse...

Realmente não existe fórmula. ;-)

Qdo me separei do pai da minha filha há 5 anos, chorei 2 semanas seguidas pela morte dos meus sonhos de menina. Mergulhei fundo na tristeza e vesti de negro a minha alma. Quando passou, segui inteira. E minha filha teve que aprender desde cedo que a mãe dela também é mulher, profissional, filha da avó dela, ser vivente que ri e chora. Essa é a mãe dela. Não há como travestir-me de algo que não sou porque tive uma filha. A minha verdade é o que tenho de mais precioso para dar a ela.

Assim como não generalizamos "viúvos", as mães também não pertencem a uma categoria estanque. Somos várias - porque humanas.

Bjos!

Renata de Aragão Lopes disse...

Verdade lindamente pronunciada!

Quem é mãe ou pai
não tem sequer tempo
para abandonar a rotina
para curtir uma desilusão qualquer.

Ainda bem! : )

Um beijo,
doce de lira

.Sté. disse...

Admiro muito os teus textos. parabéns

marcelo disse...

Esconder o sangue, além de não eliminar a hemorragia, aumenta as chances de "morte". Muito bonitos teus pensamentos.
Grande abraço!!!!!!!

Anônimo disse...

Não consigo sorrir quando a minha vontade é de chorar, não consigo comer quando a minha vontade é de vomitar... O sofrimento faz parte do crescimento humano, quem não aprende com a dor de uma perda é burro ou insensível. As crianças nos demandam atenção, é verdade, mas entendem que muitas vezes precisamos de tempo para nos reerguermos, isso faz parte do aprendizado deles também.
Cada um tem uma forma de encarar a dor, a tua não é menos digna, porém não é absoluta.

Fabi disse...

lindo. aprendi "seu" jeito pela meditação budista numa época dura de separação. concluí que minha mente é maior que o sofrimento (SEMPRE) e que não ser humano que me faça deixar de ser INTEIRA para ser uma única emoção - a dor. admito, sou um ser humano melhor hoje, já passei por outra separação que foi mais intensa e no entanto, menos DOLOROSA. paradoxo? não acho. simplesmente, SOU MAIS EU O TEMPO TODO. inclusive na dor.

ana disse...

Pode parecer um paradoxo, mas situações-limite
transformam pessoas distraídas em verdadeiros poetas e
poetas em pessoas verdadeiramente distraídas...

Ramiro Conceição disse...

Sei, caríssimo Fabro, que estás agora na sala de estar de tua casa entre mil pedaços de um arco-íris que amaste. O que vou cantar é ínfimo - diante da dor de parir um amor ao mundo. Porém é a única coisa que possuo, neste instante, para acariciá-lo...


O LEGADO DA ESPERANÇA
by Ramiro Conceição


Naquele dia fiz – feliz –
um poema que ainda diz:

“ Me dêem uma janela,
uma simples janela,
que redescubro o Universo.”

Assim, para mim, caro ouvidor,
maior valor tem uma janela
que um império adjacente a ela.
Ainda mais:

descobri no templo do tempo que
uma janela pode ser maior do que
um bilhão... – delas!;
descobri que um livro livre, um canto,
nasce na janela duma folha em branco;
com saudável ironia,
descobri que a vida
é uma janela repleta
de memórias que, inexoravelmente,
serão esquecidas no fim da história.

Logo, o único legado,
as janelas desabotoadas,
são as sombras deixadas
em pegadas
pela Esperança que voou
em noites e dias sob o Sol.

Bianca disse...

Simplesmente tocante.
Entendo como se sente porque tenho filhos e sei o que é "estar bem" apenas por eles. Nem sempre consigo. Sua postura é um exemplo.

Bianca
http://twitter.com/biancabriones
http://redoma-de-cristal.blogspot.com/
http://www.formspring.me/BiancaBriones

Cla disse...

Perfeito! Um soco no estômago,como diria Clarice. Uma dor sem bula. Um sorriso feito máscara. Cada vez que venho aqui fico mais sua fã. =)

Mara disse...

Entre doer e chover é uma questão de trovejo que só a gente sabe... independentemente da rotina ensolarada dos pequenos e de seus raios de sol que polimos todos os dias, já que nos invadem de qualquer modo. E que bom!
... estava pensando justamente nisso outro dia... o filho é ele que tem. Eu fico com a companhia dos livros então rs
Tenho a impressão que se vacilar, e não dar fizer desse tropeço uma pequena dança malandra, vou cair e me esperniar e agonizar e querer esperar a próxima escânia! rs

Valeu sempre pela toque de humanidade!

V. Linné disse...

às vezes é preciso ser forte também a ponto de não sofrer...

juliana disse...

Concordo plenamente com V.Linné, ser forte a ponto de não sofrer.
Bjos Fabro.

\/ndre\/ disse...

A dor é de quem a quer.

E parece-me que de liberdade raros poucos entendem.

Liberdade é ter-se como se é, sem restrições. Ë isso que voce faz.

Beijo, Fabrício!

Samyta disse...

Quanto mais te leio, mais te sou fã!
Pelo que li hoje, digo que teu sofrimento é digno, te invejo...
Bjs

Maria Tereza disse...

"O suor é a mesma água da lágrima e mata igualmente a sede." o que me encanta é a intensidade! =)

Fernanda Marra disse...

Texto lindo, muito lindo! Sou muuuito sua fã! A vida inteira me falaram dos períodos curtos, seus benefícios... mas só cedi depois de você, fica muito bom mesmo, pra quem lê é uma delícia! Parabéns, cara!

Anônimo disse...

sim, tenho um pouco de inveja de ti. na verdade, acho que por mais que eu continue a vida/rotina, as vezes pareco um pouco fake, mesmo assumindo minha racionalidade as vezes excessiva. talvez seja a natureza de cada um. mas quando eu crescer, quero ficar igual a vc! :) - Elisa

Anônimo disse...

Tenho notado que artistas, criadores, escritores produzem melhor na falta.Pode ser paradoxal isso, mas a arte como expressão da incompletude é imbatível.Que o diga seus últimos textos, este, principalmente.
O ser desejante explora esferas abissais.

quandoeumechamarsaudade disse...

Tudo na vida fazemos escolhas, nós que decidimos se queremos sofrer ou viver uma vida intensa. O texto achei muito tocante.

Simplismente adorei.

Beijo

Estefani

Celia disse...

Fabro, o Xico Sá interrompeu e retirou do blog hoje a série trágica que vinha escrevendo, em capítulos, sobre um amor que se foi...Diz que vai escrever um livro. Engraçado, eu estava acompanhando a dor de vcs dois, o modo diferente de cada um sentir dor...Me identifico com seu "sofrimento intimista", Xico é mais passional, mas ambos são tão sinceros e bonitos, valorizando o amor até as últimas consequências ou..as últimas páginas. Um beijo!!

E, se puder, pinta lá no meu blog pra vc ver como as mulheres...sangram..rs http://sensivelldesafio.zip.net

Jacelena disse...

A morte é uma coisa que se espera da vida mesmo... Mas ainda assim, todos sabendo que a morte é certa, se chocam quando ela chega!
Não deveria ser assim, mas parece que agente não acostuma..
Bjs!

Isadora disse...

A paternidade ou maternidade não nos dá tempo para ficarmos deitados sobre uma cama, nos penitenciando.
Acredito que não seja esconder nada dos pequenos, apenas a vida tem e deve seguir. A casa deve estar arrumada, a dispensa cheia, os deveres de casa feitos....
Como sempre digo, vida que segue.
Ao deitarmos nossa cabeça sobre o tavesseiro, talvez tenhamos tempo para derramar uma lágrima.

Marcelo Ulguim disse...

Bah! Me descreveste nesse texto! O que vale mais? Um sorriso sincero de superação ou uma lágrima de hipocrisia? Cada um com sua resiliência! Em casos de perda de pessoas próximas inclusive, temos que tomar cuidado para não sermos acusados de assassinato, pois as pessoas, de modo geral, realmente acreditam que sem lágrimas, sem depressão, sem desespero, não há sentimento...

Adélia Carvalho disse...

A tempestade faz muito barulho, mas algumas vezes é a chuva fina que deixa mais estragos em nós.

Anônimo disse...

belo texto...belo exemplo...a vida seguee...
e ela é cheia de surpresass....um novo amorr talvez