segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

ARCA DA ALIANÇA

Arte de Francis Picabia

Desvendei o motivo que faz um casal envelhecer junto. É um sinal prosaico e mínimo. Não se comenta de propósito, para evitar a escatologia e o emprego ostensivo. Fica-se como algo subentendido.

Não conheço amigo que vença o boicote; admitir sua existência é jogar contra o próprio relacionamento.

Representa um segredo de convivência a dois. Maior do que o sexo.

Aliás, pais e mães das gerações passadas foram condenados por não esclarecer o sexo aos filhos, mas alguém consegue explicar sem parecer ridículo? Dou graças a Deus que meu pai não teve nenhuma conversa séria comigo, que não colocou uma camisinha numa fruta, acho que nunca mais comeria banana em minha vida.

Tal mistério também não permite didática. É um dos raros códigos que se mantém em sigilo. Para que os aproveitadores não abusem de seu significado. Para que os porcos não se sintam orgulhosos.

Difícil traduzir em palavras, como toda onomatopeia.

O impulso inicial é ofender e logo gritar no meio da noite: “Fora daqui!”

Ainda há os que bancam os compreensivos, acordam e avisam que não enxergam maldade na atitude – terminam por inspirar o exemplo e cortam o casamento pela raiz.

Ainda há os que exaltam a diversão do gesto – não duram muito.

Ainda há aqueles que não superam o nojo e escolhem dormir em cômodos separados com a desculpa de que são modernos e não abrem mão do banheiro próprio.

Nem Mussolini, nem Madre Teresa de Calcutá, o certo é adotar a não-violência de Mahatma Gandhi.

Um casal permanecerá unido pelo resto da trajetória no momento em que um perdoar o outro pelo pum na cama. É perdoar, não tolerar. É simular que não se ouviu ou não sofreu com o cheiro. A distração é estratégica, inibe o avanço dos maus modos.

Apenas quem ama se controla. É capaz do mais alto sacrifício respiratório. No instante do estalo, finge-se de estátua. Não pensa em nada e espera que o ar do quarto se renove naturalmente.

É evidente que nossa companhia já estará envergonhada. Não precisamos notificar ou lembrar na manhã seguinte. Desde a escola não existe culpado pela flatulência.

Suportar o ronco do marido ou da esposa ajuda a chegar às bodas de cristal (15 anos). Mas silenciar diante do incômodo ruído é garantir as bodas de prata, de pérola, de coral, de rubi, de platina, de ouro, toda a riqueza interior, é tomar de assalto a joalheria inteira de aniversários.





Publicado no jornal Zero Hora
Segundo Caderno, coluna quinzenal, p. 3, 21/02/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16618

24 comentários:

Amapola disse...

EUREKA!!!

Bom dia, querido poeta Carpinejar.

Adorei o texto. Viver junto de quem se ama, dividindo os mais íntimos momentos não deve ser fácil.

Sobre as situações constrangedoras, concordo que o melhor é o silêncio.
Certas coisas, quanto mais são abordadas, mais colaboram para tirar a magia do amor, e da paixão.

Sinto-me honrada por estar lendo você, dessa forma mais direta... Mais intimista.

Assisto as suas entrevistas e amo o seu talento, regado de humor.

Um grande abraço.

Maria Auxiliadora (Amapola)

Anônimo disse...

Bom Dia Carpinejar.

Como de costume, leio sempre tuas postagens, e amo-as. Hoje falaste um pouco do que eu conversei ontem a noite com meu namorado (6 meses juntos) mas não parece, 'sabe quando sente que se conhecem de outras vidas'.
Suporto o ronco dele, e ainda insisto em dizer quando estou com saudade, que eu sinto falta. Rs
Acredito então, que temos e preservamos a nossa cumplicidade. Gostei disso!
Um beijo e muita poesia.

Jefferson Reis disse...

E é por isso que meus relacionamentos amorosos são todos falhos. Não consigo ser assim e odeio essa coisa de soltar "pum" perto de mim. Acho que o "pum" me condenou a solidão. Agora entendo o motivo.

A Monteiro. disse...

Ótimo, também concordo. O amor exige esforço, custoso. Mas também nos dá muita satisfação, olhar para trás e ver tudo que passaram juntos deve ser maravilhoso. Porém, o meu sonho é namorar até ficar velhinha. hahaha

Anônimo disse...

E cagar milho no banheiro conjunto, significa o quê?

Carpinejar disse...

Significa que pode comer melhor.
abraço
Fabro

Anônimo disse...

Ótimo texto,sempre, viver a dois nos traz outra pessoa com hábitos para nossa vida, participar disso, é amar ...

Nair Morbeck Sobrinha disse...

Seu blog é maravilhoso!Passarei bons momentos por aqui com certeza!

Um Shalom no vínculo daquele que nos chama para amar

http://nairmorbeck.blogspot.com/

tiberiofigueiredo disse...

Enquanto li seu texto, compreendi ainda mais os motivos que me fazem acreditar que o meu relacionamento será realmente duradoudo.
Essa questão da tolerância realmente faz sentido. Acredito que seja uma das coisas que sustentam uma relação. (Confiança também é uma dessas coisas)

Enfim, adoro seu blog e sempre visito-o quando tenho tempo livre (comentários não são tão frequentes...)

Tania Lopes disse...

Vou tentar da próxima vez.

erick disse...

Tenho 54 anos de casado. Somados aos 5 de namoro temos toda uma existência. Conviver é uma ciência e confesso que estou ficando bom nisso. Aqui vai uma diga para quem está começando: Quando um dos dois estiver de cabeça quente, adiem a discussão para quando as coisas estiverem mais calmas. Conosco funciona. Parabéns pelo lindo texto.

Jaci*Marcela disse...

Adorei!!!
Principalmente a última parte dos aniversários...
Creio que o que relataste seja real.
Uma vida a dois, um convívio a dois, muitas vezes
é sim um silenciar, nao sendo um sinonimo no caso, de confortar...

Mais uma vez aprendo com seu texto,
e vejo relatos iguais ao que vivo/penso, nao é
à toa que chamo Fabricio (minha vida) Carpinejar!

Bjosss
By: Ana Jaci AmoRim

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Santo Deus - protestei.

Espero que não esteja falando por experiência própria.

GRIFO NOSSO: "Apenas quem ama se controla. É capaz do mais alto sacrifício respiratório."

Aqui presumo que esteja falando do ponto de vista da vítima. Tente tapar os ouvidos, as narinas e pensar que é tudo culpa da biologia.

Se assumir o papel de inalador de plantão, confraternizando um PUM entre os lençóis for garantia de sobrevivência da relação, vamos combinar o seguinte com os flatulentes em ação:

VOLUNTÁRIO NÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



Muita coisa implícita neste texto, e penso que o que tentamos abafar não é o escândalo, mas a imperfeição.


Te abraço com louvor.

Anônimo disse...

Foi como uma paulada. Constato, triste, que foi por isso que estamos nos separando. Não suportei/ tolerei/celebrei nem ronco, nem pum.

Claudia Pandora disse...

Lembrei de uma amiga cujo tio, alemão de velha cepa, ficou solteiro e dizia que embaixo das cobertas dele só ele soltaria puns ! Terminou com a vida em uma corda enrolada no pescoço, sozinho, sem saber como é bom ter a companhia de um pum de noite !

Kelli Pedroso disse...

Ainda bem que isso nunca aconteceu comigo. Imagino que deve ser extremamente constrangedor.

Anna Amorim disse...

Interessante. Teu texto fala de algo banal e aborda algo de uma dimensão profunda, a capacidade de tolerância e de sustentar uma relação real em que as idealizações não a sustentam. Triste pensar que para alguns é incompreensível, mas assim o é, já que um dos motivos das relações não se sustentarem é justamente a que a maioria das pessoas não se relacionam com o outro, mas com um simulacro que cai por terra na convivência.

Também adorei o humor do texto.

Beijos,

João Araújo disse...

ola´cronistra,
apreveitei o tema e fiz uma décima a moda nordestina

ja fizemos tantas bodas
platina,ouro, diamante...
somos bons amanates,
fazemos boas fodas.
o cotidiano não poda
nosso usufruto comum
(em vez de dois somos um)
e la em nossa, na, alcova
um ou outro não reprova
o infeliz fedor do pum

elisabete porto disse...

Ótimo!! Adoro qndo expõe nos seus textos oq tdos vivenciam mas quase ninguém admite. Vivemos numa sociedade ainda hipócrita q ainda fingem viver na utopia, mesmo no seu dia-dia particular.

bjcas!!

Caroline disse...

Alguém já te disse que você é incrível? Você tem uma capacidade enorme de ver as coisas de um jeito muito particular.

Esplendor da criação disse...

Olá Fabricío, conheci o teu blog através blog da Iara poesias. Já li algumas coisas suas, mas agora vou ler bem mais. Gosto de seus escritos, tbm sou gaúcha, precisamos conhecer melhor os nossos, artistas , escritores, poetas. O mundo virtual nos dá estas ferramentas, então vamos aproveitar ñ é mesmo? Estou seguind vc pelo meu blog esplendor da poesia.Bjs.

Beth disse...

Bem humorada a abordagem, e cheia de verdades...meus sogros estão fazendo 60 anos de casados, meus pais 5l e eu quase 20. A tolerância é , de fato, o grande segredo.
Parabéns !!!

Margareth disse...

Realmente Fabrício, quem ama se controla, desculpa, perdoa, escuta, silencia,... , tolera, suporta. Faz tudo ou quase tudo, até o que não se imaginária um dia fazer. O ronco nada mais é que a respiração do sono e o flato é a piada da resignação, sem licença para graça. Vivo para amar, amo para viver. Amar é bom, difícil é conviver. Meu olhar se recusa a desviar dos dois únicos motivos que unem as pessoas: o amor e/ou a necessidade, oferecendo liberdades de escolhas, desejos e interesses, para perdurar a vaidosa caminhada da convivência. No benefício das dúvidas, o consenso é o que prevalece para torná-la vitalícia. Lembrando que, amar é saber dividir e compartilhar tudo, é zelar por todos os momentos e cantinhos que os cercam, para agradar e ser agradado, tanto na realidade como na fantasia dos sonhos e desejos, liberando assim, descargas de felicidades e paixões.
Margareth.

Gabriela disse...

ótimo! desculpo os peidos e ainda acho engraçado...
Carpinejar, como sua leitora, mais uma vez digo que vc é incrível! Bjs