quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

OBRIGADO, SOGRA

Arte de Cínthya Verri


Infidelidade, falso testemunho, difamação, seja lá o que você aprontou, conte com o auxílio da sogra.

A ala masculina reclama dela, mas não deveria; é a fiadora dos namoros, sustenta casamentos, firma afetos, soluciona dilemas com seu exemplo vivo.

Em especial, quando mora longe. Quando reside no interior. Nos grotões. Nos baldios do mundo.

Não é uma ironia. Não é que a distância ajuda.

A mãe de sua namorada é a única que pode salvá-lo numa separação. É a Suprema Corte do Amor.

Não vai defendê-lo, esqueça. Não vai aconselhá-la a retomar os laços, esqueça também. Toda mãe deseja que sua filha acabe como uma tia solteirona. Essa história de arrumar um bom partido, um genro educado é canção de ninar. Mãe anseia, por dentro, que sua filha permaneça sozinha para manter a influência. Resgata o romance de modo involuntário. Realmente sem querer, mas funciona certo como unguento.

É até recomendável que sua mulher procure a sogra em vez da amiga. Se ela dormir na residência da segunda, as probabilidades de reatar são mínimas. A amizade não tem dó, a confidente sentenciará que você não a merece, é isso que todas dizem sobre os machos ao final da catarse.

Deixe-a seguir ao colo materno para curar as mágoas e as dores. É melhor do que um spa, mais seguro do que um convento, mais isolado do que uma masmorra. A visita gera o efeito contrário.

Minha colega de italiano, Francieli, discutiu feio com Roberto, estão casados há cinco anos. Homem adora lugar-comum e repetir clichês no relacionamento, chegou de madrugada do que era para ser um jogo de futebol e não passou no bafômetro do beijo. Respondeu, na maior cara-de-pau, que não bebeu.

Francieli pensou: se ele é incapaz de inventar uma mentira não merece uma segunda chance. Arrumou a mala e partiu para sua mãe, em Caxias do Sul. Dois dias de silêncio e greve com o marido, não atendendo telefone, não respondendo torpedo. A situação parecia séria, irreversível, carregada de orgulho e ressentimento.

Na segunda-feira, de repente, Francieli retorna para casa extremamente feliz. Outra cara, outra simpatia, disponível para ouvir a versão do que aconteceu naquela noite.

Perguntei o motivo da mudança.

— Eu não aguentei mais ficar na mãe. Não tive um minuto de sossego. Vi o quanto minha adolescência foi infernal. Ou me cobrava que deveria aprender a guardar as coisas ou que não prestava atenção ou que minha roupa estava com pelo de gato.

Francieli visita a mãe para falar mal de Roberto e volta para falar mal da mãe.

Uns dias com ela é sempre garantia de reconciliação.



Crônica publicada no site Vida Breve

20 comentários:

Priscila Lopes disse...

Fiel à realidade, exceto pra mim a história da mãe e a tia solteirona; minha mãe tem pavor que eu envelheça sozinha, de modo que qualquer inútil gentil, após os 50 serviria; até lá, não.

sempre há implicações em desabafar malinamente com a amiga e voltar para a relação jurada de morte.

abraço, adoro teu trabalho demais.

Tania Aires disse...

Sensacional!!!!

Anônimo disse...

Cara, agora, além do ouro que sempre acha, encontrou uma singela esmeralda de crônica. Do caralho!

Lilian disse...

Vixi, não é que é verdade mesmo??!

R.B.Côvo disse...

Bem observado! Um abraço.

Aury disse...

Sabia que você tem mesmo razão?
Sua fã, sempre!
Abraço,

Clarice disse...

Como sogra efetivada de surpresa, tenho um lema: filho, se separar, vai morar sozinho e nora tem mãe. Então não sirvo de terapia. Nada de palpites nem cobranças. Ironias me encontram surda e concorrência não consta de meu dicionário. Eu gosto assim; eles aceitam assim e vamos ver no que vai dar.
Abraços.

Ceres disse...

se minha mulher viajasse brigada comigo, passasse dois dias sem me responder e voltasse extremamente feliz, que minha sogra salvou meu casamento seria a última coisa que eu pensaria.

mas, tendo o Roberto acreditado, quem sou eu pra dizer?

abraço

Camila Moreti disse...

Sou casada há quase dois anos, mas nunca fui dormir na minha mãe. E essa versão é bem verdadeira no meu caso. Todas as vezes que vou reclamar de brigas com meu marido pra minha mãe, volto para os braços do meu amado :)

Thalita disse...

Nossa... você descreveu a minha mãe! Será que você andou conversando com ela ou todas as mães são iguais? Não tem um namorado que seja bom o bastante, quem será? Nem mesmo o que ela escolher será.

gabriela disse...

É tudo verdade! uhauhahuaha

Fernanda Machado disse...

Amo visitar a casa da minha mãe, amo o colinho e os conselhos dela... mas prefiro muito mais voltar para minha casa!

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Não diga bobagens...Minha mãe me oferece até para o dono da banca de cachorro quente da esquina. E o velhinho safado deve ter perto de setenta e três invernos ranzinzas. É do tipo que se contentaria apenas em beliscar minha bunda.

Preferi me dedicar a literatura, essa outra rainha das putas, mesmo sabendo que até por ela serei abandonada algum dia. A verdade é que nunca permiti que ninguém me conhecesse por tempo suficiente para que me enterrasse por todo sempre num cemitério de mamadeiras e caçarolas. Bem, dizem por aí que o destino costuma cruzar conosco na curva de uma esquina.

Carpinejar:

Um dia serei levada ao altar. Nem que seja como madrinha.


Nem de longe concordo com o que disse, mas, vindo de você meu rei, leria até a bula de um remédio se um dia escrevesse uma.


Pipa.

Sizií disse...

Muito boa essa.. hahua.. minha mãe se acabou de rir... rs
abraços

Cacá - José Cláudio disse...

Já estou na terceira sogra e me dei bem com todas até hoje. Mas acho que é pura sorte. Desse modo, adoto o conselho: não morar muito perto para que não possa vê-la todos os dias nem muito longe para que quando ela vier, venha de malas prontas. Abraços. Paz e bem.

Eliane Ratier disse...

Que alívio!

Camilinha Wander disse...

muito bom!!!!!!!!!!!!! totalmente verdade!!!!!!!

Maria Tereza disse...

ai, ai... como sempre tens razão! mas dessa vez eu não posso mais voltar e falar mal da mãe. tenho de ficar. rsrsrs... =)

Fernando Grilo disse...

Muito bom os teus escritos, coisa boa de se ler.

aproveito e deixo aqui o meu blog de escritos também.

http://lexicosandcharutos.blogspot.com/

um abraço

Fernando Grilo

Margareth disse...

Gosto, futebol, religião e sogra não se discutem, cada um defende seus interesses. Cresci escutando que sogra é a segunda mãe. Se a mãe for boa tanto quanto a sogra, temos lucros, o dito é positivo, caso não, surgem os conflitos. Antes do parentesco o cuidado deve ser dobrado. Conviver sempre observando e avaliando os pros e os contras para evitar futuros arrependimentos, pois geralmente os filhos são reflexos dos pais. É Fabrício, sogra é um assunto muito delicado, por mais que queira se livra dos filhos com ou sem casamento, não deixa de ser outra vez uma ruptura umbilical, uma separação, não deixa de ser uma perca, não deixa de ser uma queixa. Sogra é como marido ruim, às vezes, ruim com ele/ela pior sem ele/ela. Quando não houver saída, o jeito é aturar e carregar a sua cruz.
Margareth.