sábado, 5 de fevereiro de 2011

LUGAR DE GENTE SÉRIA. E PONTO.

Fotos de Tadeu Vilani


Não pergunte muito. Não vista roupas coloridas e extravagantes. Não coloque o som alto no carro. Não tente pedir informações na rua.

Os pedestres vão virar o rosto e fugir. Quem é da cidade é da cidade, e ponto final. Os que chegam são suspeitos.

– Identifico os rostos estrangeiros na hora – avisa Ricardo Luís Schuh, comandante da Brigada Militar.

Sério é um município acanhado, um esconderijo da BR-386. São 38 quilômetros de chão batido após Forquetinha. Estrada minúscula, serpeada, vertiginosa.

– Nosso esporte é remar poeira – diz Valmor Antoniolli, 47 anos. –Não tem camping, não tem rio, não tem fábricas. Ficamos esquecidos aqui por Deus e pelo Diabo.

Sinais de celulares vacilam. Não há letreiros de hotéis e pousadas. A gasolina custa R$ 2,90 o litro. Nos bares, ainda persiste o caderno de fiado, com as compras acumuladas para acerto no final do mês. Homens andam com lenço no bolso da calça para limpar o suor. Mulheres penteiam o cabelo nas janelas. Ônibus de linha não tem pressa para sair, e o motorista conhece certinho o endereço de seus passageiros, e suporta atrasos sem reclamar. Não é o morador que precisa esperar na parada, é o motorista que espera o morador. Taxistas desapareceram. Os salões de beleza acontecem nos fundos das casas. Lojas são minimercados. O cemitério toma a quadra mais cobiçada do Centro – ironicamente, os mortos desfrutam da melhor paisagem daquela porção árida do Vale do Taquari.

Ninguém fica à vontade para rir na cidade de Sério. Não por ser um contrasenso, mas já prevendo a piada do visitante com o nome.

– Seriense não nasce chorando, nasce fazendo beiço para o destino – brinca Marisa Candido, comentando a falta de asfalto no acesso principal.

O estranho batismo reforçou uma fobia de turistas. As pessoas são desconfiadas, com um pé atrás.

– Não é antipatia, é timidez – esclarece Liane Farfatto, 38 anos, técnica em Enfermagem.


A tranquilidade torna-se a recompensa pelo isolamento. Ao meio-dia, Valmor nem fecha a loja aberta para almoçar com a família atrás do balcão. No costado do bar, reúne-se com sua mulher, Susana, 42 anos, seus filhos Wiliam, 15 anos, e Yuri, sete anos, e os sogros Victorino Danieli, 74, e Lídia Danieli, 73. Todo dia é a mesma coisa. William é o último a comer, Yuri é o primeiro a sair da mesa para esticar os braços diante do ventilador e monopolizar o vento, e Valmor provoca a sogra para um arranca-rabo.

– Só a convido para lavar a louça – cutuca.

– Ele me ama com culpa – responde Lídia.

A refeição costuma não ser interrompida por nenhum freguês.

– Aqui o cliente, além de ter sempre razão, tem imaginação – diz Susana.

As aventuras são por dentro dos pensamentos. O sonho das jovens é namorar sério e entrar de véu e grinalda na Igreja São José.

– Vale viver para esperar – diz Tatiana da Silva, 25 anos, que trabalha como babá em Lajeado, e noivou com Cedemir há pouco tempo.

Não descarta a possibilidade de passar a lua-de-mel na própria cidade.

– Quer maior privacidade? – desafia.









Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
ps. 34, 05/02/2011
Porto Alegre, Edição N° 16602
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18 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Acredito que a cidade de Sério não difere de outras tantas do interior do país, e seu nome é muito mais que um mero trocadilho - muito melhor que viver numa cidade com nome de coronel escravocrata ou político.

Dalva Maria Ferreira disse...

Que graça!

R.B.Côvo disse...

Sério? Nem diga! Rs Um abraço.

Steffi de Castro disse...

Nossa, que nome perfeito para esta cidade! Refúgio para quem quer fugir da loucura da cidade...

Fabrício, quero um livro seu! Mas mamãe tá sem money :D

Sil Villas-Boas disse...

Uma delicia o seu texto. Te seguindo hoje.
Bjusss
Sil

Suziley disse...

Fala sério, não conhecia essa cidade do RS!! Vivendo e aprendendo...hehe!! Parabéns pelo texto!! Bom final de semana :)

Sizií disse...

Que cronica massa.. Parecido com os escritos de Rubem Braga... Muito bom.

Abraços

Diana disse...

Olá. Sou portuguesa e conheci o seu trabalho neste mar imenso que é a Internet. Queria agradecer muito a sua existência e parabenizar a sua arte. Entrar no seu twitter é terapia para mim que, como milhares de outras pessoas por este mundo fora, estão envolvidas num relacionamento que parece não funcionar. Você consegue descrever com as suas palavras muitos estados de espírito meus que sou incapaz de verbalizar, por hipocrisia, por medo, por paixão.
Muito obrigada. Continuarei a seguir o seu trabalho deste lado do oceano ;)

Luis Eustáquio Soares disse...

afinal somos todos estrangeiros, aqui e em qualquer lugar e o diabo mesmo é quando não somos, quando somos segmentados, por exemplo,
pra ser sério, ou pra ser hilário, ou ou ou, aí sim a cidade nada mais é do que a obscenidade dos suores indiferentes, seriamente.
saudações,
de la mancha

Margareth disse...

Nossa Fabrício, que cidade é essa? Tão seria e nada simpática. Se não fosse pela venda que confia fiado para amanhã e a igreja de são José que alimenta esperança, depois do namoro, em realizar casamentos de véu e grinalda com direito a juras no altar e tudo, diria que essa cidade fica em algum ambiente perdido no luar. Onde os moradores nos vêem viver enquanto espera o fim dos seus fins. Será que essa cidade de Sério rende homenagem a algum homem influente de nome Sério que vivia isolado e não queria papo com a vida?
Margareth.

Cacá - José Cláudio disse...

Falando sério, eu fui criado numa cidade assim e tenho saudade de umas coisas. O calor humano, por exemplo; a tolerância, a falta de pressa, a tranquilidade de poder deixar portas e janelas abertas...Muita coisa que se perdeu na loucura da cidade grande. Abraços. Paz e bem.

Alexandre disse...

Oi Carpinejar, adorei a crônica.
sou teu leitor e seguidor no Twitter e queria te convidar pra fazer uma listinha dos seus filmes prediletos pra gente publicar no WebWritersBrasil. Topas?

Uma dúzia de filmes que eu adoro:
http://t.co/OLNF9Ax (minha lista)
http://t.co/YEfgqLy (listas da galera)
http://webwritersbrasil.wordpress.com/ (home)

Valeu,
Ale Gennari
alegennari50@gmail.com

Camila Morsch disse...

Oi Carpinejar,
Uma pena que a crônica também não versou sobre as alegrias que Sério proporciona aos seus visitantes, em um trocadilho invertido. Que pena que não aproveitou a oportunidade para chamar nossa atenção para a beleza do simples.
Eu e meu companheiro visitamos Sério inúmeras vezes, descemos cachoeiras, comemos polenta mexida por horas em cima do fogão a lenha, conversamos em português, italiano e até arriscamos palavras em alemão. Sempre conseguimos arrancar sorrisos dos Serienses.
Conversamos com pessoas que não são sofisticadas ou cosmopolitas, mas que sabem viver em comunidade, dividindo de pães e tomates às alegrias da realidade de suas vidas, como celebrar um casamento na Igreja São José. E por tantas vezes, ficamos encantados com o pôr-do-sol no descer da estrada da serra do Botucaraí; estrada que ainda tem cheiro de mata nativa.
É em nome dessas experiências que lhe escrevo.
Na minha opinião, o relato publicado em jornal de grande circulação nao representa a verdadeira beleza da paisagem, nem da alma de tantos Serienses. Uma crônica como essa pode ter grande valor literário, mas como retrato jornalístico que será lido e validado por milhares de pessoas representa uma visão injusta da cidade e, principalmente, de tantas das 2,500 pessoas que lá moram e que lá escreveram suas histórias.
De qualquer maneira, obrigada pela matéria e pela sua perspectiva.
Camila Morsch.

Ceres disse...

Essa cidade me lembrou Macondo. Impossível d'eu viver em cidade assim, teria o desespero de viver com falta de vida.

Muito bom o jeito de notícia da crônica, para o jeito que vivem os metropolitanos, cidade absurdamente "pacata" assim é matéria de capa.

Abraço

Mister Neurotic disse...

Eu não gostaria de viver em um lugar assim. Com certeza seria queimado em alguma fogueira, condenado por esquisitismo.

Nara Hennemann disse...

Realmente você foi muito infeliz nas colocações.
Nasci e cresci nesta cidade. Tenho o maior orgulho de ser seriense e fazer parte da histótia desta cidade. Mesmo por ser de difícil acesso, o município esconde belezas que você não foi capaz de ver.
Ah! E qual o problema de casar de véu e grinalda? É só nesta cidade que as pessoas desejam isto?
Fiquei muito triste ao ler o seu texto. Saí de Sério a 5 anos para morar numa cidade grande, mas meus familiares continuam morando lá. Sempre que possível retorno para visitá-los e me encho de alegria por poder estar lá.
Porque menosprezar tanto os seus habitantes? Se você entrevistasse mais moradores, que tem amor a cidade, veria como é bom viver lá. Ou talvez não visse, pois pelo seu ponto de vista, a cidade tem que ser de pedra e agitada, e não verde e tranquila.
Numa próxima oportunidade seria importante você retornar a cidade e olhar com outros olhos o que Sério tem para mostrar.
Aguardo outro texto seu sobre a cidade de Sério.
Nara Hennemann

Anônimo disse...

Concordo plenamente com a Nara e a Camila.
Infelizes suas colocações sobre uma cidade que não conhecestes a essência de sua existência.

Não moro na cidade, mas conheço algumas pessoas citadas na reportagem.... triste é como foram abordadas....

Lucas disse...

Tive que ler esse texto,já que uma amiga que mora na cidade falou dele e disse que todo o pessoal de lá ficou indignado. Vejo que com razão, a abordagem é simplória sem ser poética, reducionista sem ser sutil... Uma pena, conheço Sério, e digo que é um lugar peculiar que não coube na limitação do autor