terça-feira, 19 de março de 2013

NÃO TIRE SEUS LINDOS SAPATOS

Arte de Richard Hamilton

É uma agressão exigir que a mulher tire os sapatos para entrar em sua casa.

Você pode ser oriental, budista, maníaco por limpeza, não peça.

Sei que é higiênico, livra a residência de sujeira e contaminações, e também é um modo de erradicar as energias negativas do vaivém da rua, e ainda de poupar o piso de madeira dos arranhões.

Mas não peça. É um crime estético obrigar a mulher a tirar o sapato.

Ela somente deve renunciar esse direito ao baixar a hospital. Em nenhum outro lugar. E no hospital, tanto faz o que calça, irá se desvencilhar da vaidade de qualquer jeito com a deprimente camisola aberta nas costas e aqueles detestáveis chinelos descartáveis.

Afora as emergências, é um vexame se despedir subitamente dos sapatos.

Em festa ou encontro com amigos, ela se verá altamente constrangida. Não se trata de vergonha dos pés ou do joanete, não é um recalque e problema psicológico, não é receio de chulé.

Ao tirar os calçados, ela desmancha sua roupa. Acaba com seu traje. Liquida com sua produção. Ela definiu a combinação inteira das peças a partir deles: a cor, o tecido, o humor. Toda mulher é uma cinderela adormecida, não pise em seus calos.

Obrigá-la a permanecer descalça é o equivalente a ordenar que ela fique nua. O sapato é tão íntimo quanto a lingerie. Escolhido com esmero para repercutir as virtudes do corpo.

Forçar sua dispensa é um estupro social. Sem o cobiçado par, a visitante não encontrará sentido e posição relaxante. O temperamento murcha, o tom sobre tom perde o brilho. Mais drástico que receber chuvarada, mais agressivo que estragar um zíper.

Se ela está com vestido negro curto e abdica das botas altas, trocará o clima de totalmente selvagem pelo desamparo de alma penada.

Para a mulher, até o sofrimento precisa ser ensaiado. Odeia ser pega desprevenida, desprovida de plano alternativo.

O acessório determina o estilo, nunca será um detalhe insignificante. Influencia, inclusive, seu penteado. Põe altura e equilibra o conjunto. Dois centímetros a menos podem destruir um figurino. Deixar de lado o salto no momento de reencontrar o ex é chamar a morte, é anular alguma chance de superioridade.

O homem dificilmente entenderá. Sem sapato, a meia-calça vai desfiar, não tem como andar. Ou, pior, a meia-calça com um furinho estratégico nos dedos acabará sendo revelada.

O sapato não faz parte do vestuário, está muito além disso, representa um fígado para a ala feminina, de transplante difícil e delicado.

Não ouse humilhá-la com normas e restrições.

A mulher ama mesmo um capacho.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 19/03/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17376

3 comentários:

Dalva M. Ferreira disse...

Fabrício, só você mesmo. Mestre das palavras e da alma feminina. Tenho medo de você!

Diana Costa disse...

Olá Fabricio, acabei te conhecer virtualmente. Pesquisando "coisas" sobre Ana Carolina encontrei um video de lançamento dum livro seu. Adorei.
Vou começar a acompanhar.
Fiquei chocada com a capacidade que tens em vestir a pele de outra pessoa, sentir, expor, dizer aquilo que nem essa "pele" era capaz de exprimir. Pelo menos, não de uma forma tão concreta e directa.
Há mesmo pessoas que não são capazes de analisar o porquê do desconforto de tirar uns sapatos.
Eu posso dizer que adoro!!
Se vivesse no Brasil, sempre no quentinho, andava sempre com os pés nus.
Portugal é frio demais para isso (só no verão).
Um beijo e parabéns.
Diana Costa

josélocko disse...

Ola fabrício
me chamo José Luiz e tenho 15 para 16 anos e sou muito fã das suas cronicas
adorei essa dos sapatos
muito boa
parabéns