segunda-feira, 12 de julho de 2010

SONHO MATERNO

Arte de Klimt


O sonho de toda mãe mais velha é segurar a mão de seu filho adulto na rua.

Que seu rebento partilhe um pouco de sua pele durante cem metros.

Casado, separado, divorciado, tanto faz o estado civil, se está com cavanhaque ou penacho, se é emo ou cowboy, ela tenta reaver os preciosos momentos da infância em que o buscava na escola e não havia vergonha para entrelaçar as palmas em público.

A adolescência criou uma barreira invisível e intransponível que não permite se aproximar do filho com naturalidade. Não é fácil puxar seus cotovelos para perto. Abraço acontece em data comemorativa, e mão é somente em caso de doença.

Desde que ele arrumou mulheres e passou a voltar tarde, ele não dá mais a mão fora de casa. É um tabu, um medo de ser contagiado pela emoção, um atentado ao pudor.

Seu menino crescido pede distância nas caminhadas. No máximo, oferece a argola dos braços, como se fosse uma muleta amparando a lentidão dos passos.

O mais alto desejo é receber os dedos do filho como um anel de brilhante, que os vizinhos reconheçam os cuidados de uma vida dedicada à maternidade, que ela sirva de exemplo às próximas gerações, provoque ciúme nas escadarias das igrejas. É uma recompensa social, é retirar finalmente o Fundo de Garantia doméstico.

E não vale em faixa de segurança, onde a mãe se sentirá inválida; a aspiração depende do espaço largo das calçadas e da curiosidade indiscreta dos passantes.

Toda mãe madura tem esse sonho, que é o pesadelo do filho.

Já observei a mãe Maria Elisa de 70 anos me enganchar com suas unhas pintadas de rosa antigo. São décadas insistindo, teimando, chega a irritar sua obsessão, que mania!, ela sabe que não gosto. Aproveita alguma distração, um riso à toa e espicha o braço. Talvez cogite que é o momento, que finalmente me abrirei de novo ao convívio. Eu recuso, fecho metade do punho, digo que esqueci o celular em casa e preciso voltar. Simulo desinteresse e que não prestei atenção. Entre eu e ela, fingimos que nunca existiu a atitude, apesar de sempre existir.

Andar de mãos dadas com ela é aceitar a pecha de filhinho da mamãe, é acolher o estigma eternamente. Não serei levado a sério. O que minha namorada vai pensar?

Não posso arriscar, é o equivalente a trocar a gravata pelo babador. Perderei a reputação no banco e o respeito das lotéricas. Alguns dirão que sofro de Complexo de Édipo, outros a chamarão de sem-vergonha abusando de jovenzinhos.

Acho que conseguiria adiar a crise diplomática para mais alguns anos, mas o maldito irmão Miguel quebrou o protocolo. Traiu a família, o acordo silencioso, o inventário dos gestos.

Além de levá-la ao cinema, percorreu o shopping inteiro apertando sua mão, inclusive na frente das lojas do Grêmio e do Inter. Eu me tornei insensível, extraviei sua herança, com nenhuma chance de retomar a posição de dileto. Vou procurar o perdão beijando meu pai no calçadão da Rua da Praia.

Publicado no jornal Zero Hora
Editoria Geral, p.2, 12/07/2010 Edição N° 16394

20 comentários:

Gueixa disse...

Muito bom!!!!
Clap Clap Clap para Miguel!!!!!
E beije logo seu pai antes que ele o faça!

Apoena Míope disse...

Miguel, cuida-te, que, de ciúme, Carpinejar se liquidificou como manteiga no calor do cuidado que tiveste no shopping!

Brincadeiras (de mau gosto?) à parte, gostei demais da postagem!

Pedro Ivo disse...

me emocionei ao ler;
obrigado!

Tati Pastorello disse...

Sofria e sofria enquanto lia, projetando meu futuro, as unhas com cores modernas, chamadas de antigas daqui há poucos anos... Eis que chega um anjo Miguel para dizer que há salvação, que não estamos perdidas. Que aqueles dedos gordinhos, melados de bala e chocolate ainda buscarão os meus, ainda que minha mão já não seja mais bela, use eu os cremes fabulosos que usar. E neste dia vou me lembrar das noites insones, das fraldas trocadas, da comida gelada com suco quente, das cólicas e do riso banguela (só lembrar, sem nada dizer) e dentro de mim vou sorrir!
Beijos.

Fabrício disse...

Minha mãe era igual e sinto falta daquele tempo em que fui "vítima" desses gestos autênticos de mãe afetuosa.

Parabéns aos seu irmão e "corra pro abraço" na Andradas lotada.

Liene disse...

Tenho pensado muito nessas coisas ultimamente. Sim! Esse se colocar no lugar do outro. Nossos protetores que um dia se orgulharam de nos mostrar para as visitas, para os passantes nas ruas e praças e encheram a boca e o peito de orgulho para dizerem " é meu filho!" hoje se tornaram vítimas dos nossos próprios medos.
Isso poderá acontecer conosco e clamaremos por essa mão, e talvez nem seja "em caso de doença" quando precisaremos dela e poderás ser negada como sendo um encosto insuportável.
Estranha essa sensação... mas muito real.
E ainda há tempo... ainda há escolhas!

Bom vir até aqui...

Beijos!


pedir essas mãos e não será por doença

Clarice disse...

De tudo isso lembrei de quando meu filho parou de aceitar beijo na bochecha "porque tu tá sempre de baton, mãe!".

Vi você no Jô, no resumo da semana. Cara, como um romântico de pedra pode ser tão doido!
Abraços, vizinho.

claudia disse...

Hum! Nada fácil de ler, visto que já estive no papel da filhinha que virou mulher e passou a tratar só dos assuntos práticos na busca insana de dizer ao mundo: "Eu cresci, amadureci, sou mulher"...buff!!! balela, bobagem.
Hoje, no papel de mãe de pré-adolescente, estou do outro lado. Do lado que pede a mão, do lado que não quer que ela vá, não ainda, é cedo.
Acho que para as mães, é sempre cedo para os filhos crescerem, é cedo para que façam suas próprias escolhas, é precoce deixar de fazer parte de todos, dos mínimos detalhes de sua existência.
Acho que já disse por aqui, mas repito que ser mãe é viver o dilema de querer ver seu filho crescendo, conquistando liberdade e autonomia, é sentir orgulho, um orgulho imenso de seu desenvolvimento, ao mesmo tempo em que tudo isso vai, pouco a pouco, distanciando ele de você.
Dá a mãozinha prá mamãe florzinha. Já estou com saudades de você só minha!

Abraços,
Cláudia

Crônicas do Cotidiano disse...

Saudades da infância... Tempos inocentes e reais!
Já beijo meus pais em sentimento...

Anônimo disse...

se todo homem pudesse sequer imaginar a falta que uma mulher sente de um carinho, de atenção,de um elogio ou de um simples entrelaçamemnto de mãos jamais deixaria de fazê-los. É o alimento..o ar...o tudo. E é tão extraordinariamente fácil.

Ramiro Conceição disse...

Caro Fabro,
cheguei neste instante ao poema!... que está no outro post. Por favor, permita-me fluir no rio da Poesia...


INSÔNIA
by Ramiro Conceição

Não dormir – é sonhar!
Porque o olhar aberto
é um bonito moço
além da eternidade
dum rosto – morto!

Dalva Maria Ferreira disse...

Que bonito! Que demais! Parabéns por tudo - especialmente por ler pensamentos.

ƸӁƷBeautiful Butterfly WomanƸӁƷ disse...

AMEI SUA ENTREVISTA NO JÔ.PARABÉNS!!!BEIJSO MEU POETA MARAVILHOSOOOO!!!

Maraguary disse...

Que lindo... emocionante de verdade. Talvez pela verdade descaradamente explícita... Não consigo abraçar mamãe, salvo em datas especiais. Não fico feliz por agir assim, mas continuo... Perdi papai no ano passado e hoje tento contar quantas vezes tive suas mãos entrelaçadas nas minhas... E foram tão poucas, que pena... Hoje meu filho, aos 20 anos, não fala comigo há 6 meses e prometeu ódio eterno; sou mãe, mas também filha, sei que esse "eterno" não será tão "eterno" assim, mas fica a saudade de um simples alô, que dirá de suas mãos entrelaçadas nas minhas...Obrigada pelo presente de iniciar meu dia assim, com o coração tocado pela emoção!

Anônimo disse...

Muito doce...às vezes pra implicar meus filhos adoslescentes que praticamente nos tratam como se fÔssemos apenas seus motoristas particulares, eu grito quando já vão longe entrando na escola comprimentando os amigos: Tchau mamãe também te ama!!!!
Eles olham pro carro envergonhados e penso viu quem manda não dizer nem um thau mãe, tenha um bom dia!rs

Dani Bender disse...

Olá Fabricio, verdadeiras palavras!!
Hj meu filho no auge dos seus 13 anos já escapa do abraço em público, buscá-lo na escola está ficando cada vez mais dificil e por ai vai...mas não desisto!! e não posso aceitar a idéia da distância(mesmo estando perto)sempre que posso o beijo, aperto e digo o quanto o amo demais!

Ada disse...

Fabricio, adorei o texto! Eu me sinto lisongeada quando saio com meu filho de 17 anos e ele faz questão de segurar minha mão. Passeamos na praia, no shopping, nas ruas e na frente dos amigos dele ainda ganho um super abraço e um beijo demorado no rosto. Algumas pessoas olham e devem pensar que somos um casal moderno, rsrs..Dei a ele dois livros teus, talvez tenhamos que dar "braços" aos nossos filhos para que eles nos "amparem" mais tarde. Poesia educada.
Beijos

Luciana disse...

Fui dormir as 3 da matina vendo o reprise do Sem Censura... claro q compensou né... a Leda mto melhor q o Jô... já vc, ótimo como sempre!!!! bjos

Ivi Medau disse...

Como é prazeroso ser sua fã! Lindo texto (mais um...rs)

Beijos!

Anônimo disse...

ola sou adriano brum rodrigues venho acompanhando sua literatura a algum tempo voce escreve bem . gosto do seu estilo literario de escrever . um fato curioso e que o conheci atraves de uma procura sobre seu irmao na web o miguel que e juiz da comarca daqui de sao sepe tive uma audiencia com ele a algum tempo e ele mi falo uma frase curiosa. que me despertou curiosidade em saber quem ele era e qual a sua historia . ele faz um otimo trabalho por aqui e um bom juiz . mas enfrenta um grande problema a constituicao que por ter penas leves acaba por propiciar um trabalho quase em vao do judiciario . nao pude deixar de perceber que seus textos poderiam ser usado em escolas e em datas comemorativas como a semana da mulher elas se sentiriam lizonjeadas com um texto desses e nao era pra menos ne . tchau