segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A FOLIA DO CIÚME


Não temo o barraco. A gritaria do ciúme. Desde que seja no instante em que ela viu e esbravejou. No momento certo da raiva.
 
Ciúme pontual é saúde. Ciúme atrasado é doença.
 
Ciúme bom é flagrante, é catarse. Sentiu, falou, acabou.
 
Ciúme ruim é dissimulado, reprimido, azedará em segredo.
 
Não me amedronto com o escândalo na frente dos amigos, não receio zombaria entre os colegas.
 
Que a mulher me xingue em público, jogue minhas roupas para fora do armário, arremesse pratos na parede, esculhambe meu expediente.
 
Ciúme é natural no amor, como cachaça em prateleira do boteco.
 
Apagar o ciúme é apagar, da convivência, a embriaguez da paixão, anular o sentimento de pertencimento, é retirar a insegurança que nos torna atentos.
 
Ciúme é curiosidade, é a vontade de saber, de descobrir, de atualizar a relação. Nada de errado.
 
O que morro de medo é do ciúme retardatário, o ciúme premeditado, o ciúme friamente planejado. Quando a esposa silencia para cobrar no futuro.
 
Sempre sai mais caro, sempre tem juros.
 
Fiasco na rua não me assusta, discussão alta de madrugada não me envergonha.
 
O que me incomoda é quando a mulher percebe algo de errado e não me diz e fica colhendo provas.
 
Aquele ciuminho que poderia ser resolvido rapidamente acaba se transformando em mágoa e a mágoa crescendo em desconfiança permanente.
 
Coitados dos casais educados que não resolvem pequenos desentendimentos no ato. Levar problemas para casa significa valorizá-los.
 
Sorte dos barraqueiros: eles dificilmente se separam, não cultivam ressentimentos, explodem na hora e não tocam mais no assunto.
 
O que morro de terror é do ciúme calculado, o ciúme abafado, o ciúme que será rancor e despejo.
 
Tremo com o ciúme que é relatório do Tribunal de Contas, feito para separar e jamais esclarecer. O ciúme que demora a ser formalizado, longe de sua origem e eclosão.
 
O ciúme que o homem já esqueceu, de tempo atrás, mas que ela conservou na adega do inconsciente e um dia vai abrir. O ciúme que é vingança, revanchismo, vontade de terminar.
 
Não me indisponho com o ciúme passional, com a censura instantânea, com as perguntas à queima-roupa (Quem é ela? Já comeu? Tá me traindo?).
 
O que me causa dissabor é a maldita frase “Vamos conversar depois”.
 
E você não tem nem ideia do que ocorreu, não tem noção do que ela localizou e compreendeu errado.
 
"Vamos conversar depois" é uma sentença terrível. Ela não revela o que incomodou, deve ser coisa antiquíssima, e mantém um suspense sádico para atrapalhar a tranquilidade.
 
Ela anseia seu sangue, seus nervos, seus ossos – o desespero masculino no estado bruto. Cobiça que realize a revisão de seus atos, que interrompa tudo para adivinhar o motivo.
 
Você vai procurar alguma mensagem ambígua, algum comentário esquisito no Facebook, alguma pedra de amolação na intimidade.
 
“Vamos conversar depois” é terrorismo, é avisar de um castigo escondendo o desaforo, é antecipar a quarentena ocultando a doença.
 
É reprimenda de mãe. E já tenho uma mãe, não quero outra.
 
 
Minha coluna na Revista IstoÉ Gente
São Paulo, fevereiro de 2013, p. 66, Edição Nº 694

3 comentários:

Milene Cristina disse...

Depois de ler o texto, percebi que sofro dos dois tipos,dependendo da pessoa que eu estou. Reservo ciúmes. E dependendo da intensidade da relação, grito, xingo ou deixo pra conversar depois.

Gislâne Louseiro disse...

Percebi que sou dessas de levar pra casa, ficar colhendo provas..Não sei explodir no ato, mas tambem não esqueço. Fico fria, fraca, sem palavras e sem sorrisos. talvez porque não me acho no direito de brigar ou discutir. Simplesmente porque não tenho certeza se meu ciúme foi bobo ou se eu mesmo criei um monstro na minha memória.
Eu adorei o texto, e vai me ajudar muito. abraços sinceros ! Gislâne Louseiro

Anônimo disse...

Ah,mas barraco na frente dos outros é o cúmulo da falta de bom senso e respeito... Fico calada e só volto ao assunto, se a coisa se repetir ou se ele demonstrar qualquer ciumezinho de mim. Nunca dei barraco e também não fico coletando provas. Aliás, fujo das provas. Já tive inúmeras chances de remexer no celular dele e nunca fiz. Pra que procurar motivos pra mágoas e desconfianças? Podem até me achar ingênua ou otária, mas assim me poupo de muitos aborrecimentos. Vejo muitas ciumentas que são corneadas, descobrem e ainda ficam com o dito cujo. Se eu souber mesmo, não consigo perdoar, então nem procuro saber...