domingo, 3 de fevereiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

VALE A PENA VER DE NOVO
Arte de Paul Delvaux

“Querido Fabrício! Amor tem reprise? Vale a pena ver de novo? Estou apaixonada pelo ex. Depois de três anos longe e muitos relacionamentos de ambos, nos reencontramos há dois meses numa festa. O beijo foi da primeira vez, uma loucura! Porque não tivemos recaídas antes, jamais tínhamos ficado. Agora a paixão veio com tudo, acrescidas das neuras que fizeram o término da união. O que fazer? Beijo Catherine”

Querida Catherine,
 
Há uma morte separando vocês. Uma morte emocional. Por isso você o chamou de fantasma. Para uma relação funcionar pela segunda vez, é necessário absorver o que falhou na primeira vez.
 
Uma possível reaproximação reeditará as brigas e os ressentimentos. É voltar a ficar junto que os vícios da relação retornam com o dobro de força. O ciúme de antes crescerá em possessividade. A preguiça de antes resultará em marasmo. A distância agrava os defeitos, como se ambos houvessem traído o romance neste intervalo todo. Não menospreze as represálias dos órfãos amorosos.
 
Temos uma profunda dificuldade para perdoar divórcios e abandonos. Não procuramos o amor, mas a perfeição.
 
Não entendemos que um deslize não abole aquilo que foi bom no passado. Não é porque a pessoa errou num momento que errou sempre. Não é porque mentiu de repente que mentirá sempre.
 
Somos justiceiros mais do que compreensivos. A gente não perdoa para se mostrar superior. Você acha que o credor quer que o endividado pague sua pendência? Não, ele deseja humilhá-lo. Deseja torturá-lo. É seu canal de catarse.
 
O único modo de dar certo seu amor pelo ex é destruir a intimidade anterior, quebrar os modelos, os moldes. Jamais dizer “eu te conheço”. Não conhece mais, não. Depois de uma separação, todos se transformam. Uns ficam mais amargos, outros mais humildes. Os dois passaram por namoros, adquiriram hábitos diferentes, amadureceram a sexualidade, cicatrizaram lembranças.
 
Deve começar a relação do zero. O que é quase impossível, a situação pede uma paciência de desconhecidos. Do zero mesmo. Sem cobrança. Sem fiadores. Retomar pelas perguntas mais triviais: o que ele assiste, vê, lê, faz. Não reprisar filmes e rever fotografias dos tempos felizes. Não repetir viagens e lugares prediletos. Não reutilizar os apelidos mimosos e os beiços.
 
Esquece que você sabe o que ele gosta. Não compara, não cruza informações. O pior que pode acontecer é testá-lo: para ver se ele mudou ou continua igual. Estará daí analisando, jamais experimentando.
 
Existe um grande risco de trai-lo com ele de três anos atrás. Raciocine que é um novo beijo, um novo livro. E com novos autores também.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 03/02/2013 Edição N° 17332
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

7 comentários:

Thayane disse...

Lindo! Aliás, seus textos sempre são!

ana disse...

Isso é um previlégio para poucos. Poder reeditar um amor, rever as atitudes e comecar uma nova relacao. Recuperar
o que ainda tem chance de florescer. Quantos nao gostariam de viver tudo novamente com mais consciencia e maturidade ?

Razão Intrínseca disse...

Carpinejar e sua arte de decifrar a mente humana e seus desejos.

Milene Cristina disse...

Já passei por isso, é um esforço em dobro pra dar certo, e tem horas que vem coisas da relação antiga tirando o encanto do reencontro, mais se há amor, há sempre uma chance de dar certo.

Thiely Mariano disse...

Passei por isso recentemente, com o meu primeiro namorado de 20 anos atrás, nos reencontramos, foi legal, divertido... mas lembrei os motivos que nos levaram a separação... e eu tinha visto que ele não tinha mudado...
e não deu certo...
gostaria de saber Carpinejar, sua opinião sobre homens que depois dos 35 nunca casaram, que levam uma vida como eternos solteiros, fazendo coisas que os jovens fazem... eu penso que existe algo errado ai!
adoro seus textos...

cara pemesanan jelly gamat disse...

news that you provide is very helpful and I am glad

Rosemira Guerreiro disse...

Oi, Fabrício Carpinejar, já se tornou imprescindível começar o meu dia lendo o que você escreveu, ou disse, nos variados programas. Se não chega o tão esperado e-mail, corro lá no blogspot. É, para mim, tão imprescindível quanto a xícara de café as 8h30 de cada manhã. Tanto quanto, também, a corrida x caminhada no final da tarde. Ou, então, como chegar no aconchego do nosso cantinho, para o merecido descanso.

Obrigada por me ensinar, tantas coisas que os nossos sentimentos ditam e que, nem analisamos, porque não temos essa acuidade, e, nem mesmo, sabemos como fazê-lo, desconhecemos mesmo que exista alguma análise para eles, até que te lemos e você começa a desenhar a nossa alma e nos pegamos ali, assustamos, pensando em como você nos conhece bem, sem nunca nos ter visto.

Você destrincha tudo, como o açougueiro (aquele mesmo da tal Boutique da Carne, aí em Porto Alegre), destrincha a carne, com tanta precisão que chega a ser cirúrgica, como se tivesse estudado na melhor faculdade de medicina do País. Você é mesmo um conhecedor a alma humana. Até mesmo me assusta com esse jeito de jogar-me na cara, que o que penso ser o meu melhor sentimento, na verdade nada mais é do que uma soberba, uma maldita superioridade, quando, na verdade, pensamos estar sendo humildes.

Obrigada, Fabrício, por fazer parte do meu dia a dia. Obrigada mundo virtual que nos proporciona esse contato, pois, de outra forma, quisás jamais chegaríamos perto de tanta beleza poética, de tantas palavras fecundas.

Bjs 1000!
Rosemira Guerreiro