quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

LAURA

Arte de Eduardo Nasi
 
Eu e meu marido saímos cedo de casa. Ele acorda antes de mim. Nem o vejo: pressiona seus lábios em minha cabeça e parte para o curtume.
 
Às vezes exala de sua boca o aroma de café com leite. Eu gosto de ser beijada dormindo. A testa é a última porção do rosto que lavo na hora de acordar — preservo sua benção.

Não nos falamos durante o dia. Começo o expediente às 8h na fábrica de costura. O intervalo de almoço é de 45 minutos. Nossa vida é baixar o queixo e se concentrar em panos e couros.

Mário ainda trabalha longe, em outra cidade, chega em nossa residência depois da meia-noite. Preparo comidinha e guardo nas panelas. Nunca janto com ele.

Ele pressiona seus lábios em minha cabeça e dorme. Aprendeu a tirar a roupa sem me acordar. Imagino que seus sapatos são silenciosos; as mangas, esvoaçantes; os casacos, de pluma.

Sua nudez não pesa mais no colchão. Ele treinou desaparecer de mim.

É um homem que cuida de meu sono, já que não pode cuidar de minhas palavras.

Experimentamos a solidão do casamento. Aperto o forro dos bolsos para fingir sua mão na minha mão. Sua mão pesa igual à gaveta da cozinha.

Quando cruzamos um olhar no corredor, é uma janela. Ele não amaldiçoa o cansaço, o salário, a falta de esperança. Agradecemos a saúde para continuar.

Eu me habituei com o raso, é só pôr mais água no feijão.

Somos acostumados. Juntamos nossas economias para pagar a casinha. Há mês que sobra, arrumamos até um armário novo para o quarto, com prateleira para botar cobertas e lençóis.  Pela primeira vez, tiramos as caixas de papelão debaixo da cama.

Meu homem é do mundo. Eu sou do mundo. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado sem ele. Sem trocar impressões ou pedir ajuda ou chorar. Sou quase uma viúva. Ele é quase um viúvo.

Mas jamais reclamo porque tenho meu domingo.

No domingo, nos acordamos no mesmo instante. E eu dou um beijo em sua testa.

Preparamos o mate e sentamos na varanda.

Ele me fala o que fez, o que pretende fazer, o que nunca fará.

O vento sopra em nossas oliveiras e ele pergunta se estou com frio.

Naquele momento, ele é meu homem, somente meu, de mais ninguém.

Quando ele é meu, eu também me pertenço.

São seis horas por semana em que não preciso dividi-lo. Cheiro suas golas, deito em seus ombros e penteio seus cabelos com as unhas.

Parece pouco, mas é toda a minha vida, por isso despertarei o resto dos meus minutos. Duvido que alguém seja mais feliz.
 
 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
 

16 comentários:

ana disse...

Isso é o que acontece quando encontramos a nossa alma gêmea. Por piores que sejam as circunstâncias da vida, tudo está perfeito.

a disse...

lINDO

Valéria disse...

Lindo demais!!!

Heloísa Santos disse...

Chorei.
Lindo e verdadeiro!

Gislâne Louseiro disse...

Nossa! que lindo... muito emocionante ^^

Lécia Salles disse...

Esse lindo texto mostra o verdadeiro amor, simplicidade sem complicação, cumplicidade.

Milene Cristina disse...

Cumplicidade, companheirismo..

Anônimo disse...

Lindo! Eloiza

Clara Lúcia disse...

Que lindo!!!

Odara disse...

Ai, que LINDO! Chorei..

Anônimo disse...

É disso mesmo que tenho medo, da convivencia. Pura covardia. Sou tão dura que não achei nada lindo, couraça mesmo.

Obat herbal darah tinggi disse...

gan steady infonya very good and very interesting,,,,,

Karina Santos disse...

Lindo!!! <3

Anna Paula Barp disse...

lindo texto!!

Daisy Dantas disse...

Simplicidade de tirar o fôlego, narrativa cativante, adorei.
E quase chorei.

Ivan Pirixan disse...

Duca, duca!!! Até me inspirei a voltar a escrever. E para a anônima couraça, um recado: relaxa, tem sempre um jacaré te esperando...