segunda-feira, 17 de maio de 2010

RELAXA, PAI!

Arte de Paul Klee

Quando alguém fala de meus filhos recebo como uma crítica. Mesmo que seja uma recomendação ou um conselho ou um elogio.

Entendo que a criação que ofereço está sendo discutida. Levo para o lado pessoal.

Eu embruteço, solto os pés de galinha dos olhos, afundo as rugas das sobrancelhas. Cavo um motivo subterrâneo para aquele papo. Não relaxo. Sinto-me ameaçado. Logo estarei na defensiva, arrumando argumentos para revidar no ato, nem escuto direito.

Ora, que pretensão, falar de meus filhos como se conhecessem melhor do que eu. Pode ser a mãe de um colega, o pediatra, o porteiro do prédio. Cultivo a paternagem centralizadora. Mais advogado de defesa do que pai. Obrigo as notícias a passarem pelo meu visto, pelo sinal de OK. Não democratizo as tarefas, muito menos a vocação. Deveria deixar a vida também criar minhas crianças. Educação de qualidade é guarda partilhada com o mundo.

A namorada já percebeu que as conversas girando em torno de Vicente e Mariana resultam em cara amarrada, com rosnado ao final. Tem medo de puxar o assunto, venho criando resistência onde há mais amor.

Ela ironizou que fico mais ofendido com uma insinuação sobre minha paternidade do que com qualquer brincadeira sobre o desempenho sexual.

Acho que não me perdoei pela separação, que aumentou minha exigência e redobrou a necessidade de controlar o incontrolável. Ou talvez não me permita fracassar onde tanto sofri quando pequeno. Pretendo realizar mais do que o disponível, e me culpo por trabalhar e não estar presente em tempo integral. Pretendo me superar, mas se mover sempre com superação é castigar a honestidade do convívio. A prevenção corre o risco de virar controle totalitário.

Pai bem resolvido não existe. Não sou bem resolvido, confesso com todas as têmperas. Sou alarmista.

E já estive do outro lado e não guardei a paciência. Eu decorava as lições para prova na cozinha quando minha mãe lavava a louça. Batia continência, ao lado dela, lendo em volta alta as questões para não me esquecer durante o teste. Ela repetia as perguntas e eu respondia sem consultar o caderno. Grande parte do meu estudo seguiu no formato de aparador. Contente com os acertos, eu pulava e abraçava a mãe. Naquele momento, a água respingava nas folhas. Pois é, a alegria nunca é impune. Isso gerou a maior investigação escolar. Um legítimo bafafá de corredor. Ao entregar os cadernos para a correção, a professora chamou a direção que chamou a minha mãe. Foi uma conversa particular no gabinete do Serviço de Orientação.

- Seu filho está chorando. Aconteceu algo de diferente em casa?
- Chorando?
- Seus cadernos estão borrados, o lápis manchado. Acreditamos que ele chora ao fazer os temas. Você obriga o menino a cumprir as tarefas, coloca de castigo?
- Não, de nenhuma forma.
- Ele receberá a vigilância de nossos orientadores até resolvermos o problema.

Hoje, unicamente, esclareço o desconforto, cruzo as fontes e as cenas. A mãe ganhou a desconfiança à toa, eu parecia vítima de maus tratos e era mais cuidado do que pássaro nascendo.

Situação idêntica experimentei com Vicente, 8 anos. Ele chorou na saída do seu turno. A professora nos confidenciou com um semblante grave, típico da salinha de hospital. Lembrava um diagnóstico, não uma informação provisória. Eu adoeci, articulava de que um colega bateu nele, que suportava constrangimentos intermináveis no recreio. Tentei tirar, a todo custo, a informação preciosa do meu menino. Ele resmungava:
- Não foi nada, pai.

Seguiram dias e dias cerceando a história. A dificuldade de confessar do filho aumentava a minha insistência, julgava o assunto sério demais a ponto de se envergonhar e manter o silêncio.

Após briga, ele explodiu e explicou que a professora apresentou sua foto em um filme comemorativo do aniversário do colégio. Tímido como é, acabou seriamente encabulado.

Minha paternidade tem que relaxar. Sofro em vão pelo medo de sofrer. Falta-me a simplicidade de um pano de prato.

Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 114, Número 198
Maio de 2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

CLAUDIA



Aniversário tem desses paradoxos, a gente não avisa, mas quer ser lembrado.

E se avisa não tem graça receber parabéns. Parece jogada ensaiada. Parece caridade de esmola. Não há maior complacência do que festejar na hora em que se é avisado pelo próprio aniversariante.

Ruim é quando ele se antecipa, preenchendo cheques imaginários:
- Sabe que data é hoje?

É evidente que responderemos qualquer coisa menos o óbvio. O óbvio é o último a ser lembrado.

Todo pensamento esconde uma confissão. Uma de minhas melhores amigas, Claudia Tajes, estava trocando de idade. Não me lembrei porque não anoto e dependo de uma rede de amigos para dobrar a agenda.

A tragédia é que telefonei para ela no dia do seu aniversário para não falar disso. Pedi ainda um favor. Formal. Como se ela fosse uma operadora de telemarketing.

Não ligo sempre, mas inventei de apertar seus números logo na culminância de seu mapa astral. Não duvido que tenha sido na exata hora em que nasceu, quando Saturno belisca Júpiter.

Dói supor que ela atendeu com aquele ar misterioso de aniversariante, nem dizendo muito alô para não estragar a surpresa, controlando a respiração, sufocando as letras. Pois vivia um medo alegre, entendo; no aniversário, não conversamos, soletramos. Qualquer Silva é um nome estrangeiro.

Do outro lado da linha, ela planejava meus pulos, meus gritos de incentivo, meu arcadismo. E fui rápido, desconcertantemente seco, concretista, com pressa para pegar outro número de um conhecido em comum.

Por que não disquei um dia antes? A premonição é uma roleta russa.

Ok, estava em São Paulo, o que me mantém um pouco desligado de Porto Alegre, mas tive sinais que poderia encomendar o presente e me redimir em tempo hábil. Encontrei seu irmão Duda durante uma de minhas aulas. Não processei a informação:

Duda=Claudia=maio=aniversário

Talvez tenha ficado na segunda fase da operação. Vi seu livro "Louca por homens" na vitrine da Livraria da Vila. Não decifrei que era um telegrama para a delicadeza.

Ligar no aniversário desconhecendo o aniversário é encarnar um engano. Tudo é engano quando sabotamos a intimidade. O telefone deveria ser bloqueado para qualquer tema diferente. Não poderíamos receber cobrança, pressão do trabalho, muito menos linhas de crédito de banco.

Demorei tanto para comentar o que interessava que Claudia perdeu a esperança e desabafou que completava 47 anos. Triste, jurou que meu suspense era de propósito.

Veio a ânsia de bater o telefone na cara dela, coitada dela, coitado de mim. A vergonha me põe ofendido e aumenta a violência. Qualquer violência foi uma ternura desajeitada. A vergonha carrega nossa pior agressividade. Temos vontade de matar quem nos flagrou em erro. Só murmurei:
- Já ligo de novo.

Lavei a cara, tirei os três dedos de espuma da testa, e orquestrei a voz:
- Feliz Aniversário!!!!

Fui mais ridículo do que quando não recordava. No segundo telefonema, não tinha mais o que dizer a não ser soprar seus ouvidos. Soprar bem forte.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

QUEPE EM VEZ DE BONÉ


Dunga convocou seus vinte e três soldados. É um general que frustra o futebol-arte.

Rolo Compressor bota o retrato do técnico da seleção no lugar de Getúlio Vargas.

"A lealdade é importante para campeonatos longos, a paixão é fundamental para campeonatos curtos. Falta paixão na seleção. Paixão é momento. É buscar o atleta em sua melhor fase, não tentar recuperar o atleta na Copa."

Venha para a concentração.

DE CABEÇA PARA BAIXO

Arte de Tereza Yamashita


Só lembramos quando vivemos de novo.

A lembrança não dirige, toma carona.

Limpei a gola do abrigo do filho Vicente na saída da escola. Reluzia uma mancha branca perto do zíper. Ingênua espuma da pasta de dente. A escovação apressada para não perder o sino de manhãzinha, natural estar ali, ressequida depois da aula. Um giz de cera dos dentes. Tantas vezes estudei com círculos polares no uniforme. No almoço, minha mãe raspava com sua unha vermelha e dizia: Vamos arrumar esse homenzinho? Vamos?

Homenzinho? Eu gostava de ser homenzinho. Nunca me chamavam de menino, de piá, de guri, mas de homenzinho. Eu me sentia tão homem como homenzinho. Armava caretas para firmar compromisso. Evitava rir, rir apenas me rejuvenescia. Concentrava-me para irradiar uma cara séria, com cenho franzido. Imitava meu tio Otávio que fumava cachimbo.

Nunca estamos na idade que desejamos. E tememos o que os outros vão pensar da gente. E tememos mais o que pensamos dos outros.

No aeroporto, entre uma de tantas viagens, chamou minha atenção um executivo nos arredores do banheiro. Com uma pasta de couro na mão esquerda e uma boneca na mão direita. Deveria esperar a filha de seis ou sete anos. Se sua criança fosse pequena, levaria ao banheiro masculino. Eu experimentei igual crise de paternidade, recordo dos meus momentos com Mariana antes dos quatro anos, queria conduzi-la ao toalete feminino, muito mais limpo, mas a etiqueta não permitia. Ela teve que sobreviver à porqueira do chão e papéis espalhados. Tomara que não guarde trauma.

Absolutamente engravatado, com terno alinhado, o empresário (ou sei lá o que representava) nem ciscava os lados, mirava fixamente a porta, torcendo para que sua menina viesse rápido. O que me intrigou é que ele segurava a boneca displicente, para provar a quem passava que não era dele. Como se alguém fosse sonhar que era dele! Suas orelhas ferviam, brotoejas cercavam sua barba, cabelos brancos procuravam caminhos na raiz.

A boneca o incomodava severamente. Amargava a possibilidade de encontrar algum amigo. Pagava mico em sua imaginação bélica, disparando a contagem regressiva da vergonha, como um bixo do vestibular, como um estagiário em seu primeiro dia no emprego.

Seu constrangimento revelava o absurdo de segurar a boneca de cabeça para baixo, pelas pernas. Fazia ioiô com o bebê de borracha. Um bungee jump dos contos de fadas.

Para avisar que não tinha nada com aquilo. Deixar claro seu distanciamento com a cor rosa e derivados.

Cuidava para não oferecer ternura. Rígido, com pinos no lugar dos ossos. Precisava manter os punhos cerrados, não apertar o vestido, poderia existir um botão capaz de acionar choro, xixi, miado ou cantorias. Boneca moderna é um carro de som.

Longe de qualquer operação afetuosa, mergulhava no transe da continência militar (imagina se solta uma carícia involuntária e acaba denunciando que brincava de boneca quando pequeno?).

Não se sujeitaria a pentear a juba do brinquedo, muito menos ajeitar o leve corpo nos cotovelos. Naquele cruzamento de olhares, um berço de dedos custaria caro. Talvez o cargo, talvez a fama. Porque se desse colo indicaria um pertencimento e forneceria margem para enganos. Não aceitava que fosse confundido. Sua reputação estava em jogo. O que julgava ser sua reputação.

Quando sua filha voltou do banheiro, parou desapontada em sua frente:

— Você está mostrando a calcinha da minha filha para todo mundo, nem parece que é meu pai.

Esconder o vexame sempre foi o maior vexame.



Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 11 de maio de 2010

VIAJANDO (agenda de maio)


15/5 - Salão do Livro de Guarulhos
Guarulhos (SP)
19h30 - CAFÉ LITERÁRIO
Mediação: Jorge Vasconcellos
Local: Parque Transguarulhense

22/5 (sábado) - Bienal do Livro de Minas
Belo Horizonte (MG)
12h30 - ARENA JOVEM
"Os vampiros são os novos príncipes encantados? Que fenômeno é esse?"
Com Gisele Nogueira e Leo Cunha
Local: Expominas

23/5 (domingo) - Virada Paulista
Presidente Prudente (SP)
14h30 - SARAU LITERÁRIO
Local: Centro Cultural Matarazzo
(Rua Quintino Bocaiúva, 749, Vila Marcondes)

26/5 - IV Congresso Internacional das Linguagens
Erechim (RS)

14h - PALESTRA
Local: URI (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões)

28, 29 e 30/5 (sexta, sábado e domingo) - 3º Festival da Mantiqueira
São Francisco Xavier (São José dos Campos, SP)
OFICINA DE CONTO:
sexta das 17h às 19h
sábado das 9h às 11h
domingo das 9h às 11h


Em junho: Campinas/SP (Festival Internacional de Leitura, 3/6), Ribeirão Preto/SP (10ª Feira do Livro, 11/6), Canoas/RS (26ª Feira do Livro, 17/6) e Porto Velho/RO e Rio Branco e Xapuri/AC (25 e 26/6).

segunda-feira, 10 de maio de 2010

FLA-FLU DAS BRASAS

Arte de Iberê Camargo

Marcar futebol é uma negociação tremenda.

Se o jogo é domingo, o marmanjo fica o sábado confirmando os nomes. É uma expectativa de menino. Sofre pavor de trabalhar no final de semana, mas não larga o celular para agendar a turma ao campinho. Não achará tempo para mais nada. O finzinho da tarde dominical será dedicado a se recuperar do cansaço e das lesões ou para lembrar os melhores momentos da partida.

Não existe gostar de futebol e desligar o assunto. É fácil entender a fobia das mulheres com o "joguinho". Não se trata de um esporte com hora marcada, é ser envolvido pelos bastidores de uma campanha eleitoral (Ele vai? Não vai? Por quê?). Não é somente um que planeja e efetua a série de telefonemas, todos se falam entre si para reiterar o convite. A crise aumenta se não é salão e sim sete, mais ainda no momento do futebol de campo.

A histeria masculina repousa nas chuteiras. Caso o homem fosse jogar e voltasse assim que terminasse, pronto, estava resolvido; o pomo da discórdia é que inventa de se concentrar como profissional. Ele é amador no trato com a bola e rigoroso na preparação e nos rituais de véspera.

Tão terrível como planejar uma partida entre amigos é desmarcar um churrasco. O equivalente a suspender velório. Mexe com a hombridade do convidado, com sua desvalia, é arrancar aquilo que foi dado de graça. Gera uma discórdia, uma desconfiança pérfida que abala companheirismos antigos e históricos de infância.

O convidado se colocará como um renegado. Tomado de uma feição bovina, pastará insultos nas próximas semanas. A amizade corre sério risco de virar curral. O anfitrião dependerá de cintura ou de um motivo nobre mesmo para contornar a atitude drástica.

Meu amigo Beto planejou uma ovelha em sua chácara. De repente, não sei qual chave de luz desligou na cabeça do rapaz, gente de cavanhaque é imprevisível, mandou um torpedo cancelando:

"Só agora consegui sentar. Estou com pregas. Faremos outro dia."

Li todo Hegel e Ludwig Wittgenstein para esclarecer o termo técnico. Não digeri o significado de 'pregas', deveria ser um jargão, pois veio de um filósofo.

Não houve dicionário que aplacasse o mistério. Raciocinei por minha conta. Vivia o impasse clássico entre o enigma e o óbvio. Cansado, decidi pelo óbvio. Liguei para os casais convidados alegando que ele estava realmente mal, achava que eram hemorróidas. Espalhei a origem com dó e um pouco de piedade, acrescentando que seria até aconselhável ligar para ver se o patrão melhorou e conseguia deitar.

Visualizava Beto capenga, manco das nádegas, sem condição nenhuma de permanecer vigiando a churrasqueira, com dores infindáveis no quadril. Um homem apenas cancela um churrasco se perdeu a dignidade. Um recuo inédito no duelo de espetos. Inadmissível perante a expectativa da turma: a carne havia sido comprada e recusamos ofertas de comer na casa da sogra.

Churrasco é sagrado, é o Fla-Flu das brasas, o jogo intuitivo do macho contra o fogo, um combate às sombras da caverna.

Anular um churrasco é desertar da revolução farroupilha, ter a licença de assador cassada. Pode arrumar suas coisas e morar no exterior. Seu nome aparecerá na lista de procurados em todos os Centros de Tradição Gaúcha.

Na noite de sábado, Beto me telefona gritando:

- Que história essa de hemorróidas?
- Como assim, Beto? Você está com hemorróidas, não?
- Nãooooooo
(Afastei o fone do ouvido)
- Eu entendi errado, o que é, então, pregas?
- Preguiça! Pregas é uma abreviação de preguiça.
- Abreviar preguiça é muito preguiçoso. Quem manda não escrever a palavra inteira.
- Não vem com balela, trate de esclarecer a todo mundo que me ligou oferecendo conselhos para curar minha bunda.
- Tá louco, melhor ficar com hemorróidas. Aceita, foi uma boa ação, não contarei a verdade para ninguém.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

PACTO

Para o amigo Zé Pedro Goulart

Arte de Marc Chagall


Sou um desvairado. Aposto em casamento.

Mergulho em saideiras intermináveis na mesa de bar e apanho porque sou minoria. Meu chope tem colarinho de padre. É enlouquecedor convencer alguém que usa sua experiência. É como se a experiência fosse um argumento incontestável. Já reneguei muita lembrança que não me acrescentou em nada. Nem toda experiência ensina, que mania a de se vangloriar do passado apocalíptico e jogar na cara: eu vivi dois casamentos, sei do que falo. Faz favor, há coisas que vivo que apenas me tiram as palavras. Se alguém tem propriedade no assunto é Thiago de Mello, que casou trinta vezes, mais ninguém. Nem eu.

Amo casamento com todo peso da árvore feminina da família. Torna qualquer detalhe revelador, chance de traficar ternura na necessidade de comprar gás ou arrumar o portão da garagem. Perguntar que horas ela volta é uma preocupação comovente, de quem deseja ficar mais tempo junto. O que são os problemas perto da alegria de poder contá-los para sua mulher? O amor é simples, tão simples que fingimos sabedoria ao dificultá-lo.

Mas os céticos estão em vantagem. Eu é que sou o conservador. Defender uma relação fechada é hoje impronunciável, uma burrice. Acabo calado por vaias e ‘deixa disso’. Pareço um moralista, uma carmelita, um torcedor do América de MG.

Não aguento o pessimismo pré-datado. A gente entrega a indisposição nos medos mais óbvios.

"Se você me trair, promete me contar?"

A questão já coloca a infidelidade como certa. Contar ou não confessar passa a ser o dilema. Não se confia mais na fidelidade, mas somente na franqueza. Vamos adaptando os princípios. O mesmo é resmungar que o homem não é monogâmico, não adianta tentar. É aceitar que ele não tem escolha, de que se trata de um condicionamento biológico, uma maldição darwiniana.

Nem mais encontro vestidos de noiva em vitrine. Até os manequins estão solteiros. Casamento é posto como cativeiro, como subtração de direitos e multiplicação dos deveres. É uma felicidade passageira, de doente terminal. O matrimônio deveria abandonar o contrato. O contrato existe para terminar, resguardar o final e sair ileso. É proteção desde o princípio. Ao embarcar, já estamos reagindo às escolhas do naufrágio.

Casamento mudaria com a adoção do pacto. Isso: pacto! Por que unicamente o mal faz pacto? Um pacto do bem. Sei que há pacto com diabo, mas nunca vi pacto da virtude.

É usar o conhecimento siciliano. No pacto da máfia, realmente funciona a sentença "até que a morte nos separe". É o único lugar que a frase tem sentido. É sangue com sangue, mindinho com mindinho. Não se oferece o indicador de propósito, para valorizar as pequenas causas. A aliança tem que ser o próprio dedo. Não há como tirar o dedo no motel.

O pacto são dois num só apelo, diferente do contrato que é cada um por si. O pacto é palavra, o contrato é letra. A palavra é lembrança, a letra é cobrança. O pacto é confiança, o contrato é obrigação. No contrato, se pode sair a qualquer hora. No pacto, a saída é sempre pela honra.

TANTA TERNURA



Últimos dias para inscrição em minha oficina de crônicas no Espaço Cultural B_arco, em São Paulo. As aulas acontecem na segunda (10/5), terça (11/5), quinta (13/5) e sexta (14/5), das 19h30 às 22h30.

RUA DR. VIRGÍLIO DE CARVALHO PINTO, 426
SÃO PAULO - SP - (11) 3081-6986
E-mail: contato@obarco.com.br

quarta-feira, 5 de maio de 2010

SMS

Arte de Tereza Yamashita

O medo é supersticioso, não eu.

Tenho que vestir a mesma camisa surrada para assistir jogo do Inter. Quando estou em dúvida amorosa fecho um envelope vazio e mando pelo correio ao meu endereço. Só atendo o telefone no quarto toque. Coisas dessa laia.

Vivo abastecendo sinais, testando o sexto sentido. Sou um talentoso taquígrafo de suspeitas. Ansioso demais para aguardar estrelas cadentes ou velas de aniversário. Sopro pedidos a toda hora.

As viagens sucessivas me tornaram altamente atento aos detalhes, sempre à beira da morte ou de um milagre.

Embarquei para Poços de Caldas, com escala em Campinas. Sentei no fundo da aeronave e notei que esqueci a revista que comprei na tabacaria. Dei dinheiro de graça, idiota. Já entendi como uma advertência, que bobagem sair de casa. Tudo é uma mensagem das intenções do destino comigo. Abaixei os ombros e tentei adormecer, poderia ser também a manifestação do divino para acalmar o corpo e me poupar do estresse.

Quando encontrava a zona erógena das pálpebras, o avião começou a tremer. Ouvi que nos aproximávamos de uma zona de turbulência. Ou seja, mais importante do que qualquer zona erógena. Levantei a bandeja e puxei conversa com meu vizinho. Puxo papo apenas prestes a cair. Eu me sentia em desvalia, tal criança apresentando trabalho numa Feira de Ciências.

A asa farfalhava, isopor de aeromodelo. Logo iria quebrar. O vento corria a 220 km/h. As turbinas se soltariam em tocha olímpica, acrescentando crepúsculo ao céu paulista.

O quarentão que me acompanhava parecia simpático, falante, cheirando a loção pós-barba. Um pouco avarento, sem dúvida, já que escondeu dois pacotes de batatas chips no bolso do casaco. Cismei em questionar sua profissão. Levei um susto: pastor da Igreja do Sétimo Dia. Nunca havia me acomodado junto de um pastor. Era o selo do Juízo Final. Um pressentimento fúnebre. Ele estava ali para encomendar minha alma, recomendar os pecados para a triagem das cinzas.

Ainda suspirou diante da janela:
— Seja o que Deus quiser.

Apanhei suas palavras como uma extrema-unção. Não inspirava pose de cabra que lutaria pela sua permanência até o último baque. Entregou de cara o jogo ao juiz.

Ele me perguntou se tinha fé, falei que sim, senão não torceria para o Internacional. Meu riso não comoveu suas covinhas, tinha simpatia pelo time do Olímpico. Esclareceu que eu não deveria levar futebol a sério. Repliquei que se fosse gremista, não levaria mesmo. Ele fez um estrondoso sinal com o dedo na frente da boca:
— Shhhh!, não é momento de brincadeira.

E chamou a aeromoça pelo painel luminoso.

A atendente veio com aquele rebolado típico de desastre, batendo com suas coxas nas poltronas.
— O que deseja?
— Um lenço de papel, por obséquio?

Era a primeira vez que ouvia alguém usando obséquio. Claro agouro de que iria morrer. Uma premonição muito maior do que dividir o braço de couro com um pastor. Por obséquio, a gente escuta uma vez na vida e outra na morte. Significava um torpedo de Deus. São poucos os instantes em que o poderoso está online.

Fiz o levantamento das linhas tortas: a revista extraviada, o pastor e o obséquio; não havia escapatória, estava liquidado, dormi para sedar o efeito do fogo.

Ao acordar no aeroporto de Viracopos, eu me vi ludibriado. Como que sobrevivi? Não é justo traduzir profecias do aramaico e não receber a mínima atenção.





Crônica publicada no site Vida Breve

sábado, 1 de maio de 2010

O BURACO É MAIS EMBAIXO

Arte de Henri Rousseau

Intrigante como os eufemismos defendem os afortunados. Até entender o significado não é mais notícia. Ladrão rico é cleptomaníaco. Infiel rico é maníaco por sexo.

Engraçado como as penas são diferentes. Seguindo o exemplo do ator Michael Douglas, o golfista Tiger Woods teve que se internar para se curar das amantes.

Qualquer mané é obrigado a sair de casa, com as orelhas baixas, ciente de que nenhuma amante vai recebê-lo depois do escândalo. Perderá a casa, terá que se esforçar para rever os filhos e não poderá resmungar um simples pertence durante um bom tempo. Não recebe perdão, identificado como um safado. Um tarado de marca maior que se aproveitou da fragilidade, das discussões e desonrou a relação.

Tiger não. A cerca só não é elétrica para seus pulos. O campeão, coitado, não desfrutava de condições para se conter. Era um viciado incapaz de censuras, dependia urgentemente de tratamento. As escapadas rotineiras do casamento são reconhecidas como uma loucura, um estado temporário de perda de consciência. Não tem responsabilidade, nem deve ser cobrado pela autoria. Similar a receber um feitiço, uma hipnose satânica.

Enquanto uns são lançados às ruas, outros desfrutam de clínicas de reabilitação.

Se o infiel comum ousa se explicar no churrasco familiar, que é a coletiva dos anônimos, será escorraçado como um vira-lata. Sem levar nenhum osso da sua própria costela. Não pode errar, nem tem permissão para dizer que errou. É o caddie eterno do Tiger. Sua missão é segurar os tacos e caminhar, resignado e de boca calada, os quatro quilômetros do campinho.

O sexólatra foge do estigma. Como criticar alguém que adora sexo? O distúrbio sugere uma virtude, insinua um dom.

Busque conversar com quem tem um rendimento menor do que quatro salários mínimos.
- O que você fez?
- Traí minha mulher.
- Que vergonha!

Ou com quem tem um rendimento acima de seis salários mínimos.
- O que você fez?
- Sou maníaco por sexo.
- Mesmo?

Muda completamente a ótica. Despersonaliza a atitude. No caso de Tiger, não se tem noção do número de mulheres envolvidas. É uma multidão sem história, um harém aleatório. Talvez sejam 18 buracos, por uma questão de capricho técnico e fidelidade ao jogo.

O pequeno traidor é o condenado a atravessar pequenos lagos, poços de areia e arbustos do purgatório. Já a bola faz o percurso no lugar de Tiger Woods. Hole in one!

A fama é questão de prática ou de rendimento.