quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O GRANDE VEXAME QUE É DESAMAR

Foto: Getty Images/iStockphoto

Não existe maior constrangimento do que deixar de amar. Dificilmente haverá uma vergonha maior. Nem a traição, muito menos a deslealdade gera colossal timidez. Pois, com a traição e a deslealdade, você ainda acredita que pode se redimir e pedir perdão com trabalho forçado. Já a falta de amor não tem conserto. Acabou em si qualquer dúvida, qualquer vontade de discutir e melhorar. Está seco para segurar o fogo, como um tapete de cera no altar de promessas.
O amor desapareceu e, com ele, o brilho do olhar, a curiosidade da boca e a atenção do corpo. É um morto caseiro, não um morto público. Um morto somente para uma pessoa, para as demais ainda vive.
Ficará absolutamente sem graça para explicar para a parte interessada o que aconteceu. Não há um motivo específico. Deixou de amar simplesmente. Como dar a notícia para quem talvez ainda o ame? Dizer meus pêsames? Abraçar e desejar boa sorte?
Pela primeira vez, enxerga a sua companhia como uma ex. Terá que lidar, ao mesmo tempo, com a novidade, com a estranheza íntima e acalmar os ânimos.
Não é simples. Quem deixa de amar carrega a dramaticidade de um impostor nas palavras. Porque foram feitas promessas de longevidade que não surtem mais efeito. Não mentiu enquanto amava, mas agora que não ama o passado de juras e felizes para sempre será visto como uma mentira. Uma grande e deslavada mentira.
O desejo sumiu, a intenção de permanecer sumiu, não dói fazer a mala, não é mais nenhuma chantagem ou agressão, não provoca uma cena para apressar a reconciliação e vencer a discussão por nocaute, não desfruta sequer da vontade de chorar e de gritar, nada que possa ser dito mudará a natureza do fim, é apenas um desprendimento total. Quer sair dali correndo, entretanto ninguém corre num cemitério, sob o risco de pisar nos falecidos, derrubar as flores e vasos entre as lápides. Precisa caminhar devagar, rezar e enfrentar o vazio.
Estará sozinho frente a alguém desesperado, atormentado, incrédulo, quase sentindo pena. Compaixão de si pela tarefa de comunicar o que não entende.

Publicado em UOL em 18/08/17

O MEL DO AMOR

Foto: Gilberto Perin

O amor começa puro, sem mentiras, sem segredos, sem vergonha. É uma confiança absoluta, uma lealdade invejável. Como o mel lá de casa. Como o mel em todas as casas.
É só ter preguiça e comer o mel no pote, colocando a colher com a saliva de volta no conteúdo que o mel azeda. Quimicamente muda o gosto dos favos. Dali por diante, as confissões são favas contadas.
Quando deixa o pote aberto, a relação escancarada, a umidade pode alterar o mel pois terá água para uma bactéria do ódio se desenvolver.
É só narrar tudo o que acontece para os outros que o mel dos laços estraga.
O risco não é descrever apenas tudo o que acontece na vida a dois. É descrever também tudo o que não acontece, e cobrar desejos com juros e correção.
O romance fica exposto, sujeito a julgamentos e mentiras. Você perde o controle das lembranças a partir de conselhos e intromissões de familiares e de amigos.
Permite o contágio da inveja e do ciúme do mundo externo. Os dias adoecem de suspeitas. Há a descrição de pensamentos como se fossem fatos, e o exagero vai minando a verdade. Ao narrar o que se vive cada ouvinte aumentará um ponto. O que era poesia vira conto de terror e o que era conto de terror vira romance de suspense. Quem é distraído receberá a fama de indiferente, quem é estressado receberá a fama de egoísta.
A difamação sempre começa do casal para fora, não vem de fora para dentro. No momento em que se lambe a colher e se confunde o medo com a realidade e o coração sai pela boca.
Temos que selecionar o que vale ou não vale dizer do namoro ou do casamento. E guardar o que não é certeza e dividir o que é convicção. Jamais jogar fora o esforço secreto das abelhas por bobagens. Jamais inverter o trabalho dos insetos e converter o açúcar em pólen.
O mel do amor morre com a fofoca.

Publicado em O Globo em 17/08/17

DIVIDINDO OS MEDOS

Arte: Eduardo Nasi

A paixão cresce ao dividir os medos.

Os apaixonados dividem a ansiedade, dividem a falta de fome, dividem as madrugadas, dividem a excitação, dividem as distrações, dividem o formigamento, mas principalmente o medo.

Estava no voo ao lado de um casal que começava a ficar junto. Eu percebia o frescor da relação porque um estava tentando desesperadamente ser mais simpático do que o outro. Implicavam e se elogiavam, provocavam a raiva e se amansavam. Não havia trégua na guerrinha de sinais. Um tapa nos ombros e um beijo em seguida. Um empurrão e um abraço. Uma careta e um beicinho. Experimentavam uma alternância assustadora para os demais passageiros, menos para eles, entretidos em se conhecerem e testarem os limites das próprias fronteiras.

O mais fascinante é que brincavam com o medo de voar. Ambos confessavam o pânico com felicidade. Não suavam frio, não arcavam com os sintomas de imobilidade nervosa e taquicardia, não engoliam o fôlego. Demonstravam um contentamento improvável. Tudo era pretexto para dar as mãos e suspirar simultaneamente, segurando o encosto da poltrona da frente, tal barra de um carrinho numa montanha-russa.

Divertiam-se com as turbulências, com as quedas bruscas de altitude, com o aviso fúnebre para afivelar os cintos.

Reconheciam os sustos como se fossem ilusões de um parque, não consequências reais de uma aeronave.

Quando ele comentou que não se importava de morrer, pois morreria com ela, não aguentei, tive que enjaular os meus ouvidos nos fones para conquistar um pouco de paz.

Publicado em Vida Breve em 16/08/17

AS VELAS DA MINHA CORAGEM

Sou amigo de meus medos. Sei que o medo é apenas o começo da valentia.
Puxo conversa com os meus medos. Vejo o que tem dentro deles, o que eles pensam, não deixo irem embora sem uma xícara de café. Medo não é ruim, é um alerta do que é importante para nós.

Sofri muito medo na vida: de não ser aceito, de não ser amado, de simplesmente não ser. Mas fiz terapia com os meus medos, porque eles são portas para resolver e acalmar rejeições antigas.

Não tive facilidades, mesmo sendo branco, de família com recursos, heterossexual. O medo não tem cor, não tem gênero, não tem forma. O medo é democrático e se estende a todos.

Sofria por ser diferente. Diferente significa esquisito. Fala presa, feio e com o raciocínio fora da ordem normal da rotina.

Na escola, era visto como um desvio. Um erro que precisava ser eliminado. Um monstro de circo para se rir e pagar ingresso.

Afinal, a turma não sabia o que fazer comigo. Eu não me mostrava parecido com ninguém. Sofria zoeira, gozação, humilhações. E voltava para casa de mãos dadas com os meus medos.

Sofria corredor polonês, os colegas baixavam a minha calça de abrigo na frente das meninas, ameaçavam me jogar pela janela do refeitório, me esperavam na saída para me bater em grupo.

Toda vez que eu apanhava por não obedecer aos padrões, apanhava por apanhar, apanhava não entendendo de onde vinha tamanha violência e ódio por mim, já que não tinha feito nada a não ser nascer e querer estudar, simplesmente não chorava porque contava com a escolta do irmão Rodrigo, o mais velho dos guris, o pai suplente quando o pai se separou da mãe.

Eu chegava em casa machucado. Ele me recebia em silêncio cicatrizante, me botava na cadeira alta da cozinha e se ajoelhava diante de mim em máxima humildade. Tirava as minhas botas ortopédicas, as meias, limpava as feridas com água oxigenada e passava mercúrio nos meus joelhos esfolados. Pintava a linha pontilhada dos meus machucados, como um desenho preenchido pela caixinha Faber Castell 48 cores.

Em seguida, soprava as feridas para não arder.
Lembro que ele me dizia:

— Estou soprando as velas de aniversário de sua coragem!

Ele não me defendia unicamente das agressões, ele me defendia dos meus próprios medos.

Publicado em Jornal Zero Hora em 15/08/17

NÃO HÁ MAIOR COVARDIA DO QUE ENCORAJAR ALGUÉM SEM AMAR

Foto: iStock

O amor do outro pode ser perigosa vaidade.
Não há nada mais sádico do que encorajar a paixão de alguém quando você não sente o mesmo. Deseja apenas ver até onde vai. Brinca com a seriedade das intenções alheias. Percebe as cantadas e não corta na raiz, pois pretende embelezar o quarto com as rosas. Faz com que a pessoa entenda errada a mensagem intencionalmente. Não quer, não ama, não é o seu tipo, porém curte o prazer da bajulação. Gaba-se da perseguição apaixonada, das mensagens exageradas.
Poderia avisar que não está a fim e liberar a alma antes que seja tarde, antes de um envolvimento comprometedor. Só que exercita a megalomania, não renuncia a distração, aproveita-se da carência e da disponibilidade da companhia. Transforma o pretendente num estagiário de seus caprichos, um office-boy de suas ilusões, pedindo favores inúteis, sem lógica e sem emoção.
Não aceita apenas o flerte, os agrados e as juras, mas dá corda. Perversamente agradece o elogio fingindo não deduzir o interesse por detrás.
Gosta dos paparicos, é um passatempo ajudar na construção de uma idealização e depois destruí-la com um sopro.
Desperta, impulsiona, sustenta a relação platônica com frases ambíguas, mesmo longe de qualquer frenesi.
Enquanto testemunha o circo de presentes e mimos, zomba do candidato com os amigos e amigas pelas costas. Faz com que seja um príncipe na privacidade e um bobo da corte publicamente. Age com duas caras: uma visível para manter a sedução (involuntária) e uma oculta (consciente) para troçar das investidas.
Você coloca uma venda na vítima para ela cair no precipício. É muita maldade a ausência de sinceridade desde o início, com o claro objetivo de gerar enganos e frustrações.
Quem faz isso está prostituindo o amor, quem faz isso está se vingando de decepções antigas, quem faz isso possui um corredor vazio de museu na aorta.
O final previsível acentua o desastre. Quando ele ou ela se declarar, falar o "eu te amo" com os olhos ajoelhados, quando não restar mais chances de fingir, usará a frieza mais mórbida e dirá que é um engano, que houve o entendimento errado da aproximação e que gostaria que continuassem amigos.
Causar a dor de modo desnecessário é papel de covardes.

Publicado em UOL em 14/08/17

CENTOPEIA DE ESPÍRITO

Nunca vi nenhuma mulher selecionar os seus sapatos para a campanha de agasalho (até porque elas acreditam que sapato não é agasalho). São generosas, e oferecem roupas novas, recentes, que não servem mais. Realizam limpas no armário mensalmente, separam o que não agrada com bonança. Nunca deixam nada parado, sem utilidade para o próximo. Mas sapato, não. Sapato é imortal para a mulher. Sapato pode estragar, adoecer, só que não morre. Sapato pode perder a sola, o bico, arrebentar as tiras, porém recebe a condecoração da permanência. Ou ele é levado para um sapateiro de confiança ou fica em coma numa sacolinha com sachê.Mulher ama sapatos, de homens apenas gosta e nem todo dia.

Quando o sapato não corresponde às expectativas, ela repassa a uma amiga torcendo para a felicidade dos dois. É o máximo de caridade que alcança nesse quesito. Jogar fora, nunca. Tampouco das caixas consegue se desfazer. Não elimina coisa alguma: conserva o ventre dos sapatos, a placenta dos sapatos, o cordão umbilical dos sapatos.

Já observei botas, tênis e calçados masculinos na rua, no lixo e no meio-fio, gestos impensáveis para o universo feminino. Mulher é uma centopeia de espírito. Não compra quando precisa. Compra para criar necessidades. Jamais conta quantos pares possui _ é um número aberto e infinito. Apesar das mil e uma noites, ela sabe de cor os que usou e onde fez a sua estreia. Por maior que seja a coleção, acha que ainda tem pouco. Não considera o estoque suficiente. Vive uma repescagem nas lojas, caçando tipos favoritos de edições passadas. Tanto que a mulher não lamenta amores perdidos, e sim chora por não ter adquirido um par a mais daquele salto predileto.

Sapato é o xamã para as mulheres. Cura demissões, tristezas e depressões. Em casos graves, a solução é a superdose: arrebatar vários em um único dia.
Se o homem deseja terminar um relacionamento, existe uma receita ideal que poupa saliva e dispensa enfrentamentos exaustivos. Basta arremessar scarpins de sua esposa na parede. Ou despejar a gaveta de sandálias pela janela. Ou arrebentar os fechos das botas. Ou preparar macarrão com as rasteirinhas.
Não sofrerá discutindo. A porta baterá para sempre e ela, certamente, não colocará também você na campanha de agasalho.

Publicado em Jornal Zero Hora em 13/08/17

O FIM RECOMEÇO

Foto: Gilberto Perin

O fim e o início são próximos. Não estão distanciados nem por um passo.
O que já testemunhei de amigo convicto da separação e logo depois marcava casamento. E a noiva era a futura ex. O que já testemunhei de parceiro que diz que a relação acabou num dia e noutro dia parte em viagem apaixonada de férias. Ou que cantou o término do romance para engravidar na sequência.
Discussão de relacionamento é paranormal. Fantasmas ressuscitam, garfos entortam, aparecem vozes na cabeça, casais levitam. Não há como definir os desdobramentos espíritas e acertar o resultado. Sempre surge um gol nos descontos da partida mudando o vencedor.
A pessoa pode ensaiar o discurso de despedida no espelho, e puxar um diferente do bolso na hora H.
As decisões sozinhas não persistem frente a frente. Um sexo selvagem é capaz de arrancar as certezas. Uma declaração apaixonada é capaz de roubar as ofensas. Um pedido de desculpa é capaz de enfraquecer o ódio.
A véspera da ruptura é enlouquecedora. Quando está prestes a se separar, o que costuma ocorrer é o contrário: uma forçada e inesperada renovação dos votos, uma surpreendente prorrogação dos laços. Você se sente culpado e se compromete ainda mais. Terá que telefonar para todos os amigos explicando o recálculo abrupto de rota. Ninguém entenderá, como sempre, o amor é um mistério até para quem ama.

Publicado em O Globo em 10/08/17

SUJOS E MALVADOS

Arte: Eduardo Nasi

Mulher toma banho mais vezes que o homem. Não neurotiza o gesto, simples e prático como pentear os cabelos ou se olhar no espelho.
Já o homem complica. Quando casa, volta à infância e retoma a sua mania de economizar a pele. Cabula o máximo possível, como se estivesse na estação da Antártida. Adia, finge que não é com ele, partidário da água como urgência para sair ou honrar algum compromisso profissional. Não difere do tempo de pequeno, quando escondia os pés sujos da mãe para dormir em paz, sem o pedágio do chuveiro.
A mulher é limpinha, obcecada em se lavar mesmo quando não é necessário. O homem compra briga mesmo quando é necessário.
Dificilmente a mulher virá para o sexo antes de um toque de higiene. Sempre dá uma conferida no banheiro. Renova o perfume. Ajeita a sensualidade da roupa. Coloca um jato de água nas partes pudendas. Prepara-se para a dança dos corpos nos lençóis. Preocupa-se realmente com o seu estado.
Em contraste, o homem passa reto. Vai direto para a travas. Crê que não depende de nada, de nenhuma flor na lapela do peito, porque defende o cheiro  natural. Defender o cheiro natural é defender somente a sua preguiça ancestral. A mulher que se vire. O desleixo sempre foi machismo.
A questão é que nem sofre pois jamais se habituou a se cuidar para o outro, ou agradar ao outro. Confia que quem gosta dele tem que aceitar do jeito que ele é. Mesmo que seja estilo mecânico depois do serviço. Entende a graxa como a sua graça.
Comete o engano de desprezar o detalhe. Está com o desodorante vencido, suado e cavernoso e não vê nenhum mal nisso. Acha que é um gato e um banho de língua resolve. Mas não com a sua língua, claro. Não há Halls no mundo que disfarce o odor de xixi.

Publicado em Vida Breve em 09/08/17

PESSOAS RETRÔ

Pagamos caro por objetos retrô. Não economizamos para ter uma geladeira Steigleder branca igualzinha à que existia na casa da avó. Ou um aparelho três em um idêntico ao que reinava na estante da sala. Somos colecionadores de nossos hábitos.

E aceitamos até os defeitos de volta. Queremos uma geladeira barulhenta como a de outrora, onde secávamos as meias nas grades de trás durante o inverno. E queremos um vinil que traga ruídos de cigarras e que pare mesmo em algumas canções.

Nossa vontade é pelo retorno da afetividade das coisas, somos capazes de girar o mundo à cata de relíquias, somos capazes de imersão digital em sites de busca, somos capazes de lances absurdos e irreais no pregão da infância. Não nos assustamos com os valores abusivos e agimos com ansiedade pelos negócios fechados a martelo das bolsas.

Parece bonito o apego, mas não é. Porque não damos valor nenhum para as pessoas retrô de nossas vidas.

Nossa avó, mais do que a geladeira, está ali disponível com a sua prodigiosa tapeçaria da memória e não a acolhemos em nossa casa. Nossos pais, mais do que o três em um, estão ali disponíveis com as suas histórias dentro de trilhas favoritas e sequer contamos com a paciência de ouvi-los.

Procuramos reaver um tempo sem os seus personagens principais. Acabamos nos interessando por um tempo vazio, absolutamente decorativo. E desprezamos o tempo real, vivo e biológico que corre em nossas veias e em nossos nomes.

As pessoas retrô são postas de lado, abandonadas. Logo elas, loucas por atenção. Reclamamos de suas falhas, naturais para a idade, para justificar um confortável distanciamento.

Por que se preocupar com a pele do passado se podemos garantir o luxo da alma, a reconstituição exata e emocional do que vivemos com quem nos criou?

Não há livro antigo que reproduza a sabedoria de minha mãe. Em vez de comprar uma edição rara em sebo, basta convidá-la a almoçar, que já desfruto de uma biblioteca inteira de primeiras edições.

É o sobrenatural da simplicidade me ensinando a ser feliz. Uma encadernação em movimento soltando as suas folhas e frases marcantes.

Ela me contou, por exemplo, que está grávida aos 78 anos. É um milagre mesmo. Disse para mim que "onde toca, engravida". Eu acredito. Pois ela toca em uma orquídea e fica grávida da mais sincera gargalhada. Ela toca em um parapeito de uma janela e fica grávida de uma rua. Ela toca em uma roupa no varal e fica grávida do sol. Ela toca em um castiçal e fica grávida das estrelas.

Não há como permanecer longe e indiferente a tantos novos irmãos surgindo a todo instante.

Publicado em Jornal Zero Hora em 08/08/17

ONDE COLOCAR AS UNHAS?

Foto: Reprodução Donna

Nunca vi minha mulher cortando as unhas em casa. Se ela faz, é de modo discreto e imperceptível. Seu costume é arrumar no salão.

O meu problema é que deixo as unhas crescerem até furar as meias. E depois não é mais um corte, e sim um abate.

Deveríamos receber um saquinho plástico, tipo o existente em avião para desconforto, com uma cordinha e a recomendação desenhada dos possíveis acidentes.

E não há lugar para cortar em paz, sem ser chamado à atenção. Como são lâminas já, cascos já, é enfiar a tesourinha e a unha salta para nunca mais localizá-la. Deve ir para debaixo de algum móvel, assim como copo quando se despedaça.

Após dois meses, são unhas voadoras, unhas morcegos. Criam asas.

Daí me lembro por que demoro para apará-las, é sempre o mesmo impasse. Retardo ao máximo e apenas tomo uma atitude quando a minha mulher não aguenta mais e reclama dos arranhões com a carícia dos meus pés na cama.

Não raciocino que o adiamento acentua a força do arremesso. Quanto o maior tempo sem ajeitar, maior a compressão do OVNI.

Não tem muito o que fazer: o cortador é uma alavanca para longe. Não há como reunir a sujeira, o montinho, e botar no lixo. Aliás, lixo é o lugar. Uma vez coloquei na privada e uma amostra grátis restou na tampa para nojo da minha adorável companhia.


Onde cortar é um drama masculino. Tentei podar no quarto e foi uma calamidade. Motivo de divórcio a esposa achar um resquício dos meus pés nos lençóis. Tentei na sala e temo que um dia as ossadas sejam localizadas no tapete felpudo e termine condenado pelo crime de porquice. Na cozinha, nem pensar. No banheiro, com os azulejos brancos, é uma odisseia identificar as foragidas. Mais fácil encontrar uma tarraxa de um brinco do que uma unha. Mais fácil encontrar uma tarraxa transparente de um brinco do que uma unha.

Atinjo a curiosa conclusão de que as unhas mijam de pé. Nunca acertam o vaso. É outra disfunção do nosso universo viril.

Publicado em Donna em 07/08/17