Você pode ser uma abelha ou uma mosca no relacionamento.
A abelha busca o pólen, prepara longamente o mel do seu esforço, articula as asas em nome da colmeia, chega a esquecer de si pela alvoroço da família, tem a euforia de passear acompanhada, não protesta pela casa e alma cheias. Mesmo quando a vida não ajuda, trabalha a esperança. Não entrou num romance para esperar algo, mas para fazer. Não reclama à toa, partilha os seus dilemas procurando uma solução. A dúvida a inspira a perseguir novos jardins e explorar outras paisagens.
Por sua vez, a mosca namora ou casa já pensando no divórcio, já receosa do fracasso, já aguardando a confirmação de seus medos. Sempre tem razão, sempre replica expectativas desagradáveis. Quer provar que o seu par não presta, ainda que tenha que se privar da própria felicidade.
Ela sobrevoa sobras mortas e fica catando implicâncias superadas. Adota o ciúme para desqualificar, emprega a competição para constranger. Não avalia a sua alegria por aquilo que pode oferecer, mas por aquilo que pode receber. Não vai adiante nas adversidades, para no ar, fixa-se no passado. Revela o pior de sua companhia, desmerecendo os elogios e omitindo os avanços. O
olhar é songamonga, jamais se contentando com pequenas (e sublimes) demonstrações de apreço. Não cria o seu espaço, aproveita-se da personalidade alheia. Suga apenas a realidade de suas projeções, pois nenhuma mosca é capaz de morder ou mastigar os problemas. Acha que o outro não precisa de nada, não valoriza a intimidade, jura que as discussões serão resolvidas automaticamente sem contrapartida de atitude.
A mosca finge que está tudo bem quando está mal, finge que está mal quando está tudo bem, não enfrenta a verdade, conversa fatiado realizando muitas coisas paralelamente, isenta-se pela pressa dizendo que não é a melhor hora para mudar (nunca é a melhor hora), não coloca a sua companhia como prioridade, deixa o telefone tocar quando vê o nome, não retorna a ligação de imediato, conserva uma atenção dispersiva, arruma pretextos para não se mexer, não pede desculpa porque não acredita no parceiro, subestima qualquer reivindicação por ternura (considera tudo um drama), não agradece a vigília do respeito, não retorna gentilezas, não se prontifica a favores, descuida das preocupações fora do seu universo, quando fala fala somente de si, não se interessa com o que pode ser feito a dois, não percebe cenas românticas e roupas sensuais, arma-se de uma pendência no trabalho ou um assunto mais importante a resolver para manter a confortável inércia.
A mosca é egoísta, a abelha é solidária. A mosca é do contra, a abelha é a favor. A mosca é conformada, a abelha é curiosa. A mosca provoca enterros, a abelha apressa renascimentos. A mosca revira o lixo das contradições, a abelha organiza o caos e separa o útil do fútil. A mosca incomoda, a abelha incentiva. A mosca não defende ninguém, a abelha possui a ferroada para proteger quem ama. A mosca abandona, a abelha carrega.
Ambas voam. Mas só a abelha sobe alto no amor.
Publicado em Donna ZH em 22/10/2017
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
NÃO ERA SOMENTE UM DESODORANTE VENCIDO
Bullying não é brincadeira. Bullying não é mimimi.
A chacina de Goiânia é um alerta político. Um adolescente de 14 anos, vítima frequente das ofensas de sua turma, roubou a pistola dos pais policiais militares e matou dois colegas e feriu outros quatro dentro do Colégio Goyases na manhã dessa sexta (20/10). Era uma vingança pelas humilhações suportadas em silêncio ao longo do ano letivo. Ele vinha sendo hostilizado de fedorento e chegou a receber até um desodorante como inesperado, pungente e irônico presente.
Não tem como justificar o crime, nem perdoá-lo. Mas é o momento de refletir sobre o quanto subestimamos a violência escolar. O bullying hoje está muito mais agressivo do que duas décadas atrás, pois envolve também perseguição e segregação digital. Os desaforos não terminam na escola, seguem pelo dia adentro na web. O sinal do fim da aula não interrompe o medo.
A tortura psicológica não encontra pausa, com troças infinitas pelos contatos no WhatsApp. O estudante esculhambado não vê para onde fugir, pois a sua página no Facebook também é invadida por comentários ofensivos e insinuações violentas.
Quem diz que bullying sempre existiu e que a preocupação com apelidos é uma frescura não acompanha a trolagem nas redes sociais.
Bullying é saúde mental, é saúde pública. Ao cuidar dele, preventivamente, em campanhas nas escolas, estaremos economizando lá adiante com internações e medicação nos hospitais.
Bullying não é exagero, não é drama, não é piada inofensiva, não é implicância natural.
Quantos adolescentes, sem saída para a angústia, em vez de revidar os ataques, cometem suicídio? E nunca ficamos sabendo. São engolidos pela solidão, levando consigo os segredos malditos e perversos da convivência.
O adolescente é uma bomba-relógio porque sente a vida com o dobro de intensidade dos adultos. Ele ama e odeia ao mesmo tempo, está permanentemente à flor da pele, caminhando do tudo para o nada, do nada para o tudo. Alterna extremos de alegria e de raiva em pouquíssimos minutos.
O corpo está mudando, a voz está mudando, ele não reconhece mais a si e depende da aprovação externa de seus amigos para assumir a identidade. Se não é aceito nos grupos sociais, se não é aprovado, ele se convencerá de que é um monstro, entenderá que crescer é uma metamorfose do mal.
Ele também não tem nenhuma reserva emocional: perdeu a proteção e a segurança da infância. Não caminha mais de mãos dadas com os pais, não recebe colo, não cura as discussões com abraços, não se desculpa com beijo. Não acontecerá o contato da pele para reaver os vínculos. É somente cobrado sem os prêmios do afeto e do conforto de quando era pequeno. No fundo, encontra-se sozinho pela primeira vez no mundo. Pretende se mostrar independente, porém é carente e sedento de reconhecimento.
O adolescente é órfão de suas perguntas e aflições. Tranca o quarto e chaveia o coração.
Ele merece um cuidado especial. Não se abrirá com facilidade. Não comunicará o seu sofrimento. O costume é engolir o pedido de socorro. Talvez tente emplacar uma conversa séria uma única vez, mas, se fracassar, não voltará a tocar no assunto. Mergulhará de novo para a educação fingida e respostas monossilábicas.
O adolescente não dá segunda chance para a confissão. Ou os pais e educadores permanecem atentos aos sinais ou ele irá explodir secretamente contra si ou contra todos.
A recuperação exige a confiança rarefeita do desabafo. Porque a dor, quando guardada, aumenta. Já a dor, quando partilhada, diminui - quem consegue falar descobre que a sua dor não é exclusiva e que muitos sofrem parecido.
Bullying destrói personalidades fortes, desmancha temperamentos firmes. Sua maior maldade é transformar a ferida em alegria, as privações em palhaçadas. As risadas machucam. Apanha-se de risadas. Pessoas se divertem às custas do constrangimento de alguém. De sinônimo do bem, a gargalhada é convertida em veneno.
O que nos resta a fazer é mudar o nosso entendimento de coragem. Coragem não é sofrer sozinho, é pedir ajuda.
Publicado em 21/10/2017
A chacina de Goiânia é um alerta político. Um adolescente de 14 anos, vítima frequente das ofensas de sua turma, roubou a pistola dos pais policiais militares e matou dois colegas e feriu outros quatro dentro do Colégio Goyases na manhã dessa sexta (20/10). Era uma vingança pelas humilhações suportadas em silêncio ao longo do ano letivo. Ele vinha sendo hostilizado de fedorento e chegou a receber até um desodorante como inesperado, pungente e irônico presente.
Não tem como justificar o crime, nem perdoá-lo. Mas é o momento de refletir sobre o quanto subestimamos a violência escolar. O bullying hoje está muito mais agressivo do que duas décadas atrás, pois envolve também perseguição e segregação digital. Os desaforos não terminam na escola, seguem pelo dia adentro na web. O sinal do fim da aula não interrompe o medo.
A tortura psicológica não encontra pausa, com troças infinitas pelos contatos no WhatsApp. O estudante esculhambado não vê para onde fugir, pois a sua página no Facebook também é invadida por comentários ofensivos e insinuações violentas.
Quem diz que bullying sempre existiu e que a preocupação com apelidos é uma frescura não acompanha a trolagem nas redes sociais.
Bullying é saúde mental, é saúde pública. Ao cuidar dele, preventivamente, em campanhas nas escolas, estaremos economizando lá adiante com internações e medicação nos hospitais.
Bullying não é exagero, não é drama, não é piada inofensiva, não é implicância natural.
Quantos adolescentes, sem saída para a angústia, em vez de revidar os ataques, cometem suicídio? E nunca ficamos sabendo. São engolidos pela solidão, levando consigo os segredos malditos e perversos da convivência.
O adolescente é uma bomba-relógio porque sente a vida com o dobro de intensidade dos adultos. Ele ama e odeia ao mesmo tempo, está permanentemente à flor da pele, caminhando do tudo para o nada, do nada para o tudo. Alterna extremos de alegria e de raiva em pouquíssimos minutos.
O corpo está mudando, a voz está mudando, ele não reconhece mais a si e depende da aprovação externa de seus amigos para assumir a identidade. Se não é aceito nos grupos sociais, se não é aprovado, ele se convencerá de que é um monstro, entenderá que crescer é uma metamorfose do mal.
Ele também não tem nenhuma reserva emocional: perdeu a proteção e a segurança da infância. Não caminha mais de mãos dadas com os pais, não recebe colo, não cura as discussões com abraços, não se desculpa com beijo. Não acontecerá o contato da pele para reaver os vínculos. É somente cobrado sem os prêmios do afeto e do conforto de quando era pequeno. No fundo, encontra-se sozinho pela primeira vez no mundo. Pretende se mostrar independente, porém é carente e sedento de reconhecimento.
O adolescente é órfão de suas perguntas e aflições. Tranca o quarto e chaveia o coração.
Ele merece um cuidado especial. Não se abrirá com facilidade. Não comunicará o seu sofrimento. O costume é engolir o pedido de socorro. Talvez tente emplacar uma conversa séria uma única vez, mas, se fracassar, não voltará a tocar no assunto. Mergulhará de novo para a educação fingida e respostas monossilábicas.
O adolescente não dá segunda chance para a confissão. Ou os pais e educadores permanecem atentos aos sinais ou ele irá explodir secretamente contra si ou contra todos.
A recuperação exige a confiança rarefeita do desabafo. Porque a dor, quando guardada, aumenta. Já a dor, quando partilhada, diminui - quem consegue falar descobre que a sua dor não é exclusiva e que muitos sofrem parecido.
Bullying destrói personalidades fortes, desmancha temperamentos firmes. Sua maior maldade é transformar a ferida em alegria, as privações em palhaçadas. As risadas machucam. Apanha-se de risadas. Pessoas se divertem às custas do constrangimento de alguém. De sinônimo do bem, a gargalhada é convertida em veneno.
O que nos resta a fazer é mudar o nosso entendimento de coragem. Coragem não é sofrer sozinho, é pedir ajuda.
Publicado em 21/10/2017
NÃO CASE SE A RELAÇÃO É SÓ FELIZ: TEM ALGO ERRADO
Se o namoro não teve nenhuma discussão, não enfrentou nenhuma separação, não aguentou nenhuma fossa, não enfrentou nenhuma adversidade profissional ou de doença, se tudo é maravilhoso e alegre, calmo e tranquilo, sem sobressalto, jamais case.
Namoro perfeito desencadeia separações trágicas e irreversíveis. As imperfeições são preventivas, desenvolvem uma noção de verdade para não cobrar em demasia e respeitar os limites do outro.
Você não casará somente com as qualidades de seu par, portanto, precisa também se preparar o quanto antes aos sentimentos ruins, tais raiva e angústia, para no futuro não estranhar e se manter junto.
Uma relação muito correta não é a certa. Há grandes chances de se separar logo na primeira crise. Quem se encontra apenas em lua de mel depois não aguenta o trabalho árduo debaixo do sol.
É fundamental experimentar desgostos dentro da convivência para aprender a desarmar defeitos e diferenças.
Encanto que se perde de supetão é traumático. A impressão é de profundo engano: que se relacionou com um impostor e não sabia com quem lidava.
Aconselhável uma briga no decorrer dos laços para se habituar ao lado sombrio da força do amor e encontrar formas de iluminá-lo.
Um casal excessivamente feliz não contará com resistência e anticorpos para assumir as tristezas. Quedará no início das dissidências. A decepção será maior porque não foi antecedida de pequenas frustrações. Tampouco o par se fortalecerá trabalhando a intimidade e a empatia na superação dos contratempos. Estará fora da realidade, numa idealização difícil de regressar a sós.
Publicado em UOL em 20/10/2017
Namoro perfeito desencadeia separações trágicas e irreversíveis. As imperfeições são preventivas, desenvolvem uma noção de verdade para não cobrar em demasia e respeitar os limites do outro.
Você não casará somente com as qualidades de seu par, portanto, precisa também se preparar o quanto antes aos sentimentos ruins, tais raiva e angústia, para no futuro não estranhar e se manter junto.
Uma relação muito correta não é a certa. Há grandes chances de se separar logo na primeira crise. Quem se encontra apenas em lua de mel depois não aguenta o trabalho árduo debaixo do sol.
É fundamental experimentar desgostos dentro da convivência para aprender a desarmar defeitos e diferenças.
Encanto que se perde de supetão é traumático. A impressão é de profundo engano: que se relacionou com um impostor e não sabia com quem lidava.
Aconselhável uma briga no decorrer dos laços para se habituar ao lado sombrio da força do amor e encontrar formas de iluminá-lo.
Um casal excessivamente feliz não contará com resistência e anticorpos para assumir as tristezas. Quedará no início das dissidências. A decepção será maior porque não foi antecedida de pequenas frustrações. Tampouco o par se fortalecerá trabalhando a intimidade e a empatia na superação dos contratempos. Estará fora da realidade, numa idealização difícil de regressar a sós.
Publicado em UOL em 20/10/2017
SEGREDO É PARA SER CONTADO A UMA SÓ PESSOA
Segredo é destinado a uma pessoa, ninguém mais. É uma confissão exclusiva, um desabafo personalizado. Não inclui grupos de discussão.
O que provoca a fofoca é o segredo contado para vários amigos. Daí deixa de ser segredo para ser uma notícia reservada.
Não há como controlar os círculos da voz na multidão, não há como conter as informações depois - pois todo amigo tem uma namorada que tem uma rede de conhecidos.
A privacidade deve ser protegida já elegendo apenas uma fonte de intimidade.
Procure estabelecer um definitivo paradeiro para a história. Evitará julgamentos emocionais, impressões apressadas e distorções. Telefonar para diferentes confidentes enfraquecerá a importância do relato e aumentará as chances de ruído. Até porque um terminará sabendo que o outro sabe. E não cabem duas exceções. Duas exceções formam o boato.
Segredo será vazado quando ocorre o desejo de agradar o círculo inteiro de amizades. A unanimidade não combina com a exposição das fragilidades. O equívoco é perseguir a aprovação no lugar da compreensão. Abrir um defeito ou uma falha é coisa séria e requer sigilo para a reparação. Mais fácil manter algo guardado em uma relação de confiança do que em muitas de duvidoso e complicado consenso.
Mesmo que desfrute de grandes parcerias do peito, é necessário escolher uma para cada segredo, sob o risco de transformar o silêncio do túmulo em choradeira de berçário.
O que é dito ao pé de um único ouvido é mantido de pé pelo resto da vida.
Publicado em O Globo em 19/10/2017
O que provoca a fofoca é o segredo contado para vários amigos. Daí deixa de ser segredo para ser uma notícia reservada.
Não há como controlar os círculos da voz na multidão, não há como conter as informações depois - pois todo amigo tem uma namorada que tem uma rede de conhecidos.
A privacidade deve ser protegida já elegendo apenas uma fonte de intimidade.
Procure estabelecer um definitivo paradeiro para a história. Evitará julgamentos emocionais, impressões apressadas e distorções. Telefonar para diferentes confidentes enfraquecerá a importância do relato e aumentará as chances de ruído. Até porque um terminará sabendo que o outro sabe. E não cabem duas exceções. Duas exceções formam o boato.
Segredo será vazado quando ocorre o desejo de agradar o círculo inteiro de amizades. A unanimidade não combina com a exposição das fragilidades. O equívoco é perseguir a aprovação no lugar da compreensão. Abrir um defeito ou uma falha é coisa séria e requer sigilo para a reparação. Mais fácil manter algo guardado em uma relação de confiança do que em muitas de duvidoso e complicado consenso.
Mesmo que desfrute de grandes parcerias do peito, é necessário escolher uma para cada segredo, sob o risco de transformar o silêncio do túmulo em choradeira de berçário.
O que é dito ao pé de um único ouvido é mantido de pé pelo resto da vida.
Publicado em O Globo em 19/10/2017
JAULAS INVISÍVEIS
Fiz o passeio do encontro das águas em Manaus, cidade que amo pela simplicidade e empatia das pessoas. Na verdade, era uma reincidência. Repeti a proeza amazônica do verde e da correnteza. O céu de lá tem temperamento próprio e se curva aos barcos, as estrelas tremulam rentes aos navios e as nuvens giram, rápidas panteras, de um lado para o outro do horizonte.
O que me incomoda são os bichos presos, reféns do comércio de selfies. Prefiro um animal solto para somente enxergar a um próximo desprovido de sua autenticidade. Meus olhos têm mãos e se bastam com a distância. O que adianta o tato sem coração?
Enternecedor é descobrir um golfinho livre e independente surgindo inesperadamente das profundezas, ainda que visto de longe. Melancólico é ter um golfinho acessível aos dedos mas condenado ao cativeiro de uma piscina.
A natureza não deveria servir para enganar. Na minha viagem para o baixo e o alto do Rio Negro, encontrei o boto emparedado, sem ter como fugir, torturado pela fome, procurando receber em vão o peixe nas mãos do instrutor. Achei também o bicho-preguiça no colo de índios. Demorei para perceber que estava vivo tamanha a sua infelicidade e castigo do pelo. Lembrava um serzinho empalhado, pedindo socorro e súplica com as pupilas de brinquedo. Unicamente poderia segurá-lo se pagasse vinte reais. Nunca cogitei que abraços fossem vendidos. Vi, logo adiante, micos e toda interação custava notas na carteira.
Era um turismo da tristeza. Peixes enormes fisgados para o Instagram, sem nenhuma espera e paciência. Envolvia-me com experiências falsas e imediatistas para apenas consumar o checkin de um lugar.
Fui me encolhendo, como se fosse um teatro para se dizer que se conheceu a Amazônia, não uma vida de verdade ecológica para modificar a maneira de encarar o mundo.
Guardo desconfianças com zoológicos e suas jaulas visíveis, onde dar comida é visto como intimidade. Mas nada me constrange tanto do que jaulas invisíveis e bichos retirados da naturalidade de seus instintos e do habitat de suas famílias.
Publicado em Vida Breve em 18/10/2017
O que me incomoda são os bichos presos, reféns do comércio de selfies. Prefiro um animal solto para somente enxergar a um próximo desprovido de sua autenticidade. Meus olhos têm mãos e se bastam com a distância. O que adianta o tato sem coração?
Enternecedor é descobrir um golfinho livre e independente surgindo inesperadamente das profundezas, ainda que visto de longe. Melancólico é ter um golfinho acessível aos dedos mas condenado ao cativeiro de uma piscina.
A natureza não deveria servir para enganar. Na minha viagem para o baixo e o alto do Rio Negro, encontrei o boto emparedado, sem ter como fugir, torturado pela fome, procurando receber em vão o peixe nas mãos do instrutor. Achei também o bicho-preguiça no colo de índios. Demorei para perceber que estava vivo tamanha a sua infelicidade e castigo do pelo. Lembrava um serzinho empalhado, pedindo socorro e súplica com as pupilas de brinquedo. Unicamente poderia segurá-lo se pagasse vinte reais. Nunca cogitei que abraços fossem vendidos. Vi, logo adiante, micos e toda interação custava notas na carteira.
Era um turismo da tristeza. Peixes enormes fisgados para o Instagram, sem nenhuma espera e paciência. Envolvia-me com experiências falsas e imediatistas para apenas consumar o checkin de um lugar.
Fui me encolhendo, como se fosse um teatro para se dizer que se conheceu a Amazônia, não uma vida de verdade ecológica para modificar a maneira de encarar o mundo.
Guardo desconfianças com zoológicos e suas jaulas visíveis, onde dar comida é visto como intimidade. Mas nada me constrange tanto do que jaulas invisíveis e bichos retirados da naturalidade de seus instintos e do habitat de suas famílias.
Publicado em Vida Breve em 18/10/2017
A MORTE DE QUEM A GENTE NÃO GOSTA
Toda morte de um familiar e amigo dói. Toda morte envolve o pesar, como um novelo colorido que acaba antes de se concluir o pulôver.
Vestimos a tristeza e o luto com pena de nossos dias sem aquele riso e aquela voz que enchia os nossos ouvidos de promessas. Quando o outro falece, enfrentamos os nossos limites, as nossas verdades sem esperança alguma. A verdade é tão pequena e feia quando não há mais tempo para fazer diferente.
Mas a morte que mais dói é a que não dói, é a morte constrangida de alguém com quem brigamos. Alguém com quem a gente não se dava bem. Lamenta-se a vergonha da inimizade. Até ir ao enterro ou ao velório surge como uma hipocrisia. Seremos apontados pelos outros como impostores na festa do céu. Faltará coerência para brindarmos o último cálice das pálpebras.
É uma morte que não podemos chorar porque não existiu a intimidade do perdão.
É uma morte desfalcada de uma conversa derradeira, capaz de limpar as ofensas e a boca.
É uma morte com rascunho sujo da caneta e da raiva.
É uma morte órfã, de pai e mãe desconhecidos, longe da transcendência, avulsa, com os pecados mesquinhos e mundanos.
É uma morte aborrecida, desinformada. Corre-se atrás do passado e não se tem como alterar as lembranças (o pedido de desculpas jamais aconteceu para costurar os rasgos da memória).
É uma morte que somente nos piora, pois não melhoramos, dentro do possível, a relação com quem foi embora.
É uma morte em que não podemos elogiar o morto, recomendá-lo com as nossas lágrimas e olhares profundos. É uma morte que nos tolhe de falar e de sentir e de estar presente.
É uma morte que boicota a emoção, a sinceridade, o discernimento.
É uma morte que suspende a vingança, a retaliação, a represália, e tampouco serve como trégua para refletir e repensar as ações.
É uma morte que nos prova o quanto odiar é tempo perdido e que nos priva da ressurreição da segunda chance.
É uma morte silenciosa, mas com nenhuma paz, com nenhuma recompensa das tentativas da consciência.
É uma morte que não termina, que não interrompe os ressentimentos, não oferece um fim restaurador às incompreensões.
É uma morte de obituário de jornal, que se lê assustado, de cabeça e coração baixos, com um espaço contado da respiração.
É uma morte melancólica, em que se tem que rezar mais para si, pela ausência de misericórdia durante a nossa vida, do que pelo ente perdido.
É um nome que vai para a lápide bloqueado em nosso Facebook, suspenso em nossas correspondências e telefone, vazio de conexões recentes.
Quando um desafeto morre, somos nós que morremos dentro do orgulho.
Publicado em Jornal Zero Hora em 17/10/2017
Vestimos a tristeza e o luto com pena de nossos dias sem aquele riso e aquela voz que enchia os nossos ouvidos de promessas. Quando o outro falece, enfrentamos os nossos limites, as nossas verdades sem esperança alguma. A verdade é tão pequena e feia quando não há mais tempo para fazer diferente.
Mas a morte que mais dói é a que não dói, é a morte constrangida de alguém com quem brigamos. Alguém com quem a gente não se dava bem. Lamenta-se a vergonha da inimizade. Até ir ao enterro ou ao velório surge como uma hipocrisia. Seremos apontados pelos outros como impostores na festa do céu. Faltará coerência para brindarmos o último cálice das pálpebras.
É uma morte que não podemos chorar porque não existiu a intimidade do perdão.
É uma morte desfalcada de uma conversa derradeira, capaz de limpar as ofensas e a boca.
É uma morte com rascunho sujo da caneta e da raiva.
É uma morte órfã, de pai e mãe desconhecidos, longe da transcendência, avulsa, com os pecados mesquinhos e mundanos.
É uma morte aborrecida, desinformada. Corre-se atrás do passado e não se tem como alterar as lembranças (o pedido de desculpas jamais aconteceu para costurar os rasgos da memória).
É uma morte que somente nos piora, pois não melhoramos, dentro do possível, a relação com quem foi embora.
É uma morte em que não podemos elogiar o morto, recomendá-lo com as nossas lágrimas e olhares profundos. É uma morte que nos tolhe de falar e de sentir e de estar presente.
É uma morte que boicota a emoção, a sinceridade, o discernimento.
É uma morte que suspende a vingança, a retaliação, a represália, e tampouco serve como trégua para refletir e repensar as ações.
É uma morte que nos prova o quanto odiar é tempo perdido e que nos priva da ressurreição da segunda chance.
É uma morte silenciosa, mas com nenhuma paz, com nenhuma recompensa das tentativas da consciência.
É uma morte que não termina, que não interrompe os ressentimentos, não oferece um fim restaurador às incompreensões.
É uma morte de obituário de jornal, que se lê assustado, de cabeça e coração baixos, com um espaço contado da respiração.
É uma morte melancólica, em que se tem que rezar mais para si, pela ausência de misericórdia durante a nossa vida, do que pelo ente perdido.
É um nome que vai para a lápide bloqueado em nosso Facebook, suspenso em nossas correspondências e telefone, vazio de conexões recentes.
Quando um desafeto morre, somos nós que morremos dentro do orgulho.
Publicado em Jornal Zero Hora em 17/10/2017
SHIMEJI OU SHITAKE?
Quando abrimos o cardápio de um novo restaurante japonês, eu e minha esposa não lembramos se gostamos de shimeji ou shitake. Como que esquecemos de novo? Paramos com o dedo entre as duas porções de cogumelos. Qual será mesmo a de nossa preferência? Shimeji ou shitake na manteiga?
Sofremos de um lapso mútuo, de um Alzheimer amoroso. E vacilamos o pêndulo da mão diante dos números dos pratos.
- Não acredito que não me lembro, diz Beatriz.
- Não acredito que também não me lembro, respondo.
Já comemos dezenas de vezes. É, inclusive, um de nossos menus prediletos, ao lado do carpaccio de salmão, do guioza e do sashimi.
Porém, há um bloqueio inexplicável de nossa parte. Não guardamos os dados. Somos um Google offline naquela hora.
Coisa estranha. Raciocinando em perspectiva, não é um fato isolado. Existem lembranças que não se fixam por algum motivo inaudito. Registros impossíveis de se decorar. Pode ser um telefone discado com frequência que não entra na cabeça de jeito nenhum. Pode ser o nome de uma cidade recorrente que escapa das sinapses.
Surpreendente é o esquecimento mútuo, o esquecimento sincrônico, eu e ela repetindo a dúvida pela enésima oportunidade.
Chamamos sempre o garçom para esclarecer o dilema.
- Qual dos dois é o menor?, questionamos.
- O shimeji, o garçom explica.
- Queremos o shimeji!, exclamamos em uníssono.
Batemos palmas, gritamos gol, festejamos com beijos. O atendente deve se espantar com o nosso contentamento, exagerado para uma informação trivial.
É que o alívio dá realmente um barato próximo da droga - assim como espirrar é bom, por mais desagradável e barulhento que seja.
Desobrigar o cérebro a mais uma tarefa traz leveza e picos de endorfina.
Rimos sem parar dali por diante, nunca duvidando de que o nosso amor é o grande. A gente nunca erra esse pedido.
Publicado em Donna ZH em 15/10/2017
Sofremos de um lapso mútuo, de um Alzheimer amoroso. E vacilamos o pêndulo da mão diante dos números dos pratos.
- Não acredito que não me lembro, diz Beatriz.
- Não acredito que também não me lembro, respondo.
Já comemos dezenas de vezes. É, inclusive, um de nossos menus prediletos, ao lado do carpaccio de salmão, do guioza e do sashimi.
Porém, há um bloqueio inexplicável de nossa parte. Não guardamos os dados. Somos um Google offline naquela hora.
Coisa estranha. Raciocinando em perspectiva, não é um fato isolado. Existem lembranças que não se fixam por algum motivo inaudito. Registros impossíveis de se decorar. Pode ser um telefone discado com frequência que não entra na cabeça de jeito nenhum. Pode ser o nome de uma cidade recorrente que escapa das sinapses.
Surpreendente é o esquecimento mútuo, o esquecimento sincrônico, eu e ela repetindo a dúvida pela enésima oportunidade.
Chamamos sempre o garçom para esclarecer o dilema.
- Qual dos dois é o menor?, questionamos.
- O shimeji, o garçom explica.
- Queremos o shimeji!, exclamamos em uníssono.
Batemos palmas, gritamos gol, festejamos com beijos. O atendente deve se espantar com o nosso contentamento, exagerado para uma informação trivial.
É que o alívio dá realmente um barato próximo da droga - assim como espirrar é bom, por mais desagradável e barulhento que seja.
Desobrigar o cérebro a mais uma tarefa traz leveza e picos de endorfina.
Rimos sem parar dali por diante, nunca duvidando de que o nosso amor é o grande. A gente nunca erra esse pedido.
Publicado em Donna ZH em 15/10/2017
EMPRÉSTIMO ESTRAGA A AMIZADE
Dinheiro estraga a amizade, corrompe a amizade, prejudica a amizade. Nunca a relação de paz e cumplicidade será como antes se um amigo pede dinheiro emprestado. Pois a devolução interdita a confiança. Um telefonema ou um encontro arcará depois com a sombra monetária - esse corvo incansável - pairando sobre as cabeças.
Mesmo com a lealdade de décadas, mesmo que seja um acordo entre pessoas generosas, mesmo que ambos estabeleçam datas certinhas de reposição, não há como inibir os danos emocionais.
O dinheiro retira a pureza do convívio, amaldiçoa a espontaneidade das atitudes, macula o pensamento com segundas intenções. A naturalidade soará, em seguida, como oportunismo. As fronteiras entre a gratuidade e o interesse sumirão com o tempo.
Quem cede não pode cobrar, quem recebe fica tenso para devolver e os prazos nunca se confirmam. O adiamento produz fofocas de uma parte e desculpas de outra.
Não constranja o seu amigo solicitando um empréstimo. Ele não terá como negar. E se negar, devido ao orçamento apertado, realmente se achará a mais avarenta das criaturas. A cumplicidade vai recuar para o terreno minado das insinuações.
Todos têm gastos controlados com esposa ou marido ou pais ou filhos, qualquer saída de caixa acabará implicando mais gente e trará mais julgamento. Quem dá se enxergará obrigado a se explicar aos próximos o motivo da filantropia, porque tirou da receita e beneficiou alguém em detrimento dos demais. Os familiares pensarão que a situação anda cômoda, que vem sobrando recursos e passarão a exigir o dobro. O paraíso costuma ser vizinho do inferno das especulações.
Aquele que pede dinheiro é insaciável, tampouco se contenta com uma única ajuda, não se basta com a exceção, consolidará o confidente como uma saída fácil e conhecida para fugir dos juros dos bancos e dos cartões de crédito.
Amigo não é banco, amigo não é seguradora, amigo não é doleiro, amigo não é cambista, amigo é a simplicidade descompromissada.
O amigo deve ajudar apenas permanecendo junto, retirando conselhos e risadas dos bolsos. É arriscado assumir o papel de provedor e de pai das crises - o personagem não descolará do rosto.
Amizade não pode sair da mentalidade da infância, da época sem salário e sem cobranças, em que o máximo que se emprestava era balas, chiclete, bolachinha recheada, o canudinho do refrigerante e a felicidade dos braços nos ombros.
Publicado em UOL em 13/10/2017
Mesmo com a lealdade de décadas, mesmo que seja um acordo entre pessoas generosas, mesmo que ambos estabeleçam datas certinhas de reposição, não há como inibir os danos emocionais.
O dinheiro retira a pureza do convívio, amaldiçoa a espontaneidade das atitudes, macula o pensamento com segundas intenções. A naturalidade soará, em seguida, como oportunismo. As fronteiras entre a gratuidade e o interesse sumirão com o tempo.
Quem cede não pode cobrar, quem recebe fica tenso para devolver e os prazos nunca se confirmam. O adiamento produz fofocas de uma parte e desculpas de outra.
Não constranja o seu amigo solicitando um empréstimo. Ele não terá como negar. E se negar, devido ao orçamento apertado, realmente se achará a mais avarenta das criaturas. A cumplicidade vai recuar para o terreno minado das insinuações.
Todos têm gastos controlados com esposa ou marido ou pais ou filhos, qualquer saída de caixa acabará implicando mais gente e trará mais julgamento. Quem dá se enxergará obrigado a se explicar aos próximos o motivo da filantropia, porque tirou da receita e beneficiou alguém em detrimento dos demais. Os familiares pensarão que a situação anda cômoda, que vem sobrando recursos e passarão a exigir o dobro. O paraíso costuma ser vizinho do inferno das especulações.
Aquele que pede dinheiro é insaciável, tampouco se contenta com uma única ajuda, não se basta com a exceção, consolidará o confidente como uma saída fácil e conhecida para fugir dos juros dos bancos e dos cartões de crédito.
Amigo não é banco, amigo não é seguradora, amigo não é doleiro, amigo não é cambista, amigo é a simplicidade descompromissada.
O amigo deve ajudar apenas permanecendo junto, retirando conselhos e risadas dos bolsos. É arriscado assumir o papel de provedor e de pai das crises - o personagem não descolará do rosto.
Amizade não pode sair da mentalidade da infância, da época sem salário e sem cobranças, em que o máximo que se emprestava era balas, chiclete, bolachinha recheada, o canudinho do refrigerante e a felicidade dos braços nos ombros.
Publicado em UOL em 13/10/2017
DIGA-ME O QUE TEM NA GELADEIRA
A geladeira é a saúde dos laços, a paz da intimidade.
Ela acusa se o casal anda feliz e cuida um do outro.
Como não há mais necessidade de descongelá-la para fazer a limpeza, pede a revisão semanal do que há dentro.
Desesperador quando ela passa a cheirar mal e nenhum dos dois descobre o que está estragado.
Quem diz que a lealdade não está vencida?
Perderam a noção do que é consumido. E também do que a família deseja ou come. Pois a fome e o amor estão intimamente ligados.
A alegria está em abrir a geladeira a todo momento para verificar possibilidades de convivência e interação. Espiar a geladeira com frequência é renovar os pensamentos e a vontade de estar junto, é preparar surpresas e se preocupar com o próximo passo da boca - o beijo demorado vem na carona de uma garfada deliciosa.
A geladeira é o espelho escondido, é a câmera oculta do povoamento do espaço e das gentilezas.
Casal que não se vê e não conversa não tem mais o controle dos mantimentos guardados. Compra e não usa. Adquire e não vê. Não explora a solidariedade do café da manhã e a solidão do fim da noite. Assim como comete o desperdício dos alimentos, vai dispensando a troca de olhares e as brincadeiras na cozinha.
Quer algo mais triste do que um pote de margarina abandonado? Um pote de margarina ao fundo dos hábitos, com a sua gramatura creme endurecida pelo desuso, onde nem mais a faca perfura a sua superfície?
Os andares das geladeiras representam o edifício de nossos gestos. Um congelador abarrotado e a parte baixa da refrigeração vazia mostram o quanto adiamos os planos e projetos. Denota que a relação também vive um purgatório, de estremecida esperança. Não existe a preocupação em aproveitar o dia, e sim a mania de postergá-lo para mais adiante, a um futuro incerto no gelo. Sinaliza almoços e jantares que nunca acontecerão, presos eternamente na lista de mercado.
Quem não para um momento no lar desconhece a validade dos sonhos e produtos. Não usa o que foi comprado, não joga fora o que não presta.
A geladeira revela a higiene mental do par amoroso. É uma porta secreta, uma porta dos fundos das emoções, com acesso direto ao coração das pessoas.
Publicado em O Globo em 12/10/2017
Ela acusa se o casal anda feliz e cuida um do outro.
Como não há mais necessidade de descongelá-la para fazer a limpeza, pede a revisão semanal do que há dentro.
Desesperador quando ela passa a cheirar mal e nenhum dos dois descobre o que está estragado.
Quem diz que a lealdade não está vencida?
Perderam a noção do que é consumido. E também do que a família deseja ou come. Pois a fome e o amor estão intimamente ligados.
A alegria está em abrir a geladeira a todo momento para verificar possibilidades de convivência e interação. Espiar a geladeira com frequência é renovar os pensamentos e a vontade de estar junto, é preparar surpresas e se preocupar com o próximo passo da boca - o beijo demorado vem na carona de uma garfada deliciosa.
A geladeira é o espelho escondido, é a câmera oculta do povoamento do espaço e das gentilezas.
Casal que não se vê e não conversa não tem mais o controle dos mantimentos guardados. Compra e não usa. Adquire e não vê. Não explora a solidariedade do café da manhã e a solidão do fim da noite. Assim como comete o desperdício dos alimentos, vai dispensando a troca de olhares e as brincadeiras na cozinha.
Quer algo mais triste do que um pote de margarina abandonado? Um pote de margarina ao fundo dos hábitos, com a sua gramatura creme endurecida pelo desuso, onde nem mais a faca perfura a sua superfície?
Os andares das geladeiras representam o edifício de nossos gestos. Um congelador abarrotado e a parte baixa da refrigeração vazia mostram o quanto adiamos os planos e projetos. Denota que a relação também vive um purgatório, de estremecida esperança. Não existe a preocupação em aproveitar o dia, e sim a mania de postergá-lo para mais adiante, a um futuro incerto no gelo. Sinaliza almoços e jantares que nunca acontecerão, presos eternamente na lista de mercado.
Quem não para um momento no lar desconhece a validade dos sonhos e produtos. Não usa o que foi comprado, não joga fora o que não presta.
A geladeira revela a higiene mental do par amoroso. É uma porta secreta, uma porta dos fundos das emoções, com acesso direto ao coração das pessoas.
Publicado em O Globo em 12/10/2017
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
O SANGUE CHAMA OS VAMPIROS
Educação tem que ser rápida. É pensar um pouco que perdemos a chance. É titubear que as boas intenções nunca serão concretas. É hesitar que a gentileza será somente um pensamento vão e inexistente.
Educação não tem rascunho, cópia, arquivo de segurança, repescagem. Ou é ou nunca fui. Exige atitudes determinadas. Ou o sangue bombeia o sopro benfazejo ou o vento troca repentinamente a imagem de nossas pálpebras.
Amarguei a lacuna em São Paulo. Uma senhora descia do táxi na rua Augusta. Eu estava caminhando e parei a trinta metros da cena. Vi que ela fechou a porta com dificuldade, sem força. Errou na primeira tentativa. Nesse momento, cogitei ampará-la, oferecer o braço e seguir com ela até à entrada de seu edifício. Só que me apareceu um receio imprevisto, um pudor incalculável, não quis ser invasivo, não desejei expor a sua fragilidade, todas as desculpas que vêm com a covardia, e estaquei, não me mexi para assistir ao desenlace como mais um anônimo provisório no fluxo da semana.
Não é que ela tropeçou na falha da calçada e se desequilibrou ruidosamente.
Não me deu tempo de correr – preso na distância da incerteza – e segurar o seu corpo desengonçado, em declínio com o peso da bolsa.
Os sapatos beges escapuliram dos seus calcanhares e ela bateu a cabeça no meio-fio.
Quando confortei o seu tronco com a parede do meu, procurando ligar para a Emergência com uma mão e conter o ferimento da testa com a outra, dei-me conta o quanto vacilei. Em vez de um favor pontual lhe prestava tardio socorro. O atraso do gesto transformou a timidez em tragédia. A vó acenava a cabeça dissuadindo cuidados:
– Não precisa, não precisa, me levanto sozinha.
Com oitenta e dois anos e de nome curto Lia, ela se assustou com o cortejo imediato de uma pequena multidão.
Antes ninguém se dispôs a ajudar, agora dezenas de curiosos se mostravam solícitos, inclusive eu. O sangue chama os vampiros.
Foram dois minutos de desinteresse da minha parte que quase custaram a vida de Lia. E ainda há a crença de que a falta de educação não mata.
Publicado em Vida Breve em 11/10/2017
Educação não tem rascunho, cópia, arquivo de segurança, repescagem. Ou é ou nunca fui. Exige atitudes determinadas. Ou o sangue bombeia o sopro benfazejo ou o vento troca repentinamente a imagem de nossas pálpebras.
Amarguei a lacuna em São Paulo. Uma senhora descia do táxi na rua Augusta. Eu estava caminhando e parei a trinta metros da cena. Vi que ela fechou a porta com dificuldade, sem força. Errou na primeira tentativa. Nesse momento, cogitei ampará-la, oferecer o braço e seguir com ela até à entrada de seu edifício. Só que me apareceu um receio imprevisto, um pudor incalculável, não quis ser invasivo, não desejei expor a sua fragilidade, todas as desculpas que vêm com a covardia, e estaquei, não me mexi para assistir ao desenlace como mais um anônimo provisório no fluxo da semana.
Não é que ela tropeçou na falha da calçada e se desequilibrou ruidosamente.
Não me deu tempo de correr – preso na distância da incerteza – e segurar o seu corpo desengonçado, em declínio com o peso da bolsa.
Os sapatos beges escapuliram dos seus calcanhares e ela bateu a cabeça no meio-fio.
Quando confortei o seu tronco com a parede do meu, procurando ligar para a Emergência com uma mão e conter o ferimento da testa com a outra, dei-me conta o quanto vacilei. Em vez de um favor pontual lhe prestava tardio socorro. O atraso do gesto transformou a timidez em tragédia. A vó acenava a cabeça dissuadindo cuidados:
– Não precisa, não precisa, me levanto sozinha.
Com oitenta e dois anos e de nome curto Lia, ela se assustou com o cortejo imediato de uma pequena multidão.
Antes ninguém se dispôs a ajudar, agora dezenas de curiosos se mostravam solícitos, inclusive eu. O sangue chama os vampiros.
Foram dois minutos de desinteresse da minha parte que quase custaram a vida de Lia. E ainda há a crença de que a falta de educação não mata.
Publicado em Vida Breve em 11/10/2017
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