sábado, 24 de dezembro de 2011

O MELHOR ASSADOR DO RIO GRANDE

Como Dom Pedro I, mas às margens do Rio Pelotas, Chico ergue sua obra-prima: a costela em espeto de pau. Foto de Tadeu Vilani.

Honrando o fio do bigode grisalho, Chico Fialho faz coisas que ninguém espera.

Descarna um boi inteiro e estende o animal em varal a céu aberto como obra de arte. O bicho desventrado é um quadro expressionista na moldura do pampa.

Sua manta de charque impressiona todo açougueiro: o lanho preciso, cirúrgico, de quem conhece cada encaixe do osso do rebanho.

Francisco Fialho, 79 anos, natural de Vacaria, tornou-se uma lenda de Lagoa Vermelha, cidade de 28 mil habitantes, a 314 quilômetros de Porto Alegre.

Já assou para 4 mil pessoas, abriu mais de 6 mil cabeças de gado, já foi tricampeão da Festa Nacional do Churrasco, montou uma das mais saborosas linguiças campeiras da região.

– Churrasco ou morte! – grita o paladino, vestido a caráter, em cima do cavalo, imitando Dom Pedro I, com a mudança de cenário do Rio Ipiranga para o Rio Pelotas.

De boina, estojo de 40 facas e botas de couro, Chico é o sonho de casamento da salada de maionese. Dispensa ajuda para reger a fumaça da chaminé.

Nos anos 50, ao lado de Celso Teles, criou o corte alongado da carne, retangular, que abrasa de modo uniforme. Uma invenção tão importante quanto a térmica para o chimarrão.

– É uma oposição ao churrasco tradicional de pedaços, onde a carne fica solta e irregular. Espetamos maminha e alcatra tudo junto – explica Fialho.

Ele fecha o corpo do assado igual a um chef selando o filé. Quatro centímetros de espessura, sem abrir durante o cozimento, para gerar o transbordante suco somente na hora de comer. A incisão na costela é vertical, de cima para baixo, em vez do costume horizontal das churrascarias.

Chico tem rituais quase religiosos. Ele usa exclusivamente lenha e espeto de pau (o de ferro aquece a carne por dentro mais do que deveria), e recusa conservantes (“Quero picanha com idade honesta. Como eu, que não pinto o cabelo”).

Sua mais veemente loucura é conversar com o fogo. Escuta o crepitar tal nuances de uma voz.

– O fogo manda e eu obedeço. Diferencio os estalos, eles me avisam do andamento dos espetos. Vi fogo pedir socorro e churrasqueiro nem acudir.

A temperatura dos tijolos, bem como sua cor, também revela a qualidade da churrascada.

Uma de suas regras é não beber. Considera a embriaguez do assador o principal motivo do sabor emborrachado da refeição.

– Não tomo bira naquele momento, não existe como servir dois senhores ao mesmo tempo.

Chico é sério, compenetrado, profissional, desaparece na boca das brasas. Ele controla a altura do fogo com pá de terra.

– A terra é minha parceira, amansa a labareda e não agride como a água ou o vento – diz.

Sábio em seu ofício, recomenda um decálogo para prevenir tragédias gustativas:

1) Não abane o carvão com papel, é uma demonstração clara de desespero.
2) Evite avental, fogo não gosta de babá.
3) Não tente atalhos, afobar o serviço, atender ao atraso de uma visita. Chama é como mulher. Quanto mais apressa, mais ela se atrapalha para sair.
4) Churrasco é igual a paella. Pontual, não se disfarça madureza.
5) A carne deve começar a assar pelo lado do osso, não pela gordura. A gordura é o grande final artístico, responsável pelo acabamento.
6) Não vire a carne de um lado para o outro, churrasqueira não é pebolim.
7) Não é melhor salgar demais do que não salgar. Os dois jeitos estragam o churrasco.
8) Com pedaço excessivamente grosso, a carne ficará crua.
9) Bem passado e malpassado acontecem ao mesmo tempo quando o churrasco dá certo.
10) O silêncio de quem come é sinal de satisfação. Só o gemido supera a quietude.

O único mandamento que ele admite quebrar é o décimo. Chico ama elogio escandaloso.

– O churrasqueiro é sempre o mais carente da família, e que a bajulação siga de preferência pela semana, até o próximo churrasco.



Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 30, 24 e 25/12/2011
Porto Alegre, Edição N° 16927
Conheça as táticas do assador

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

LER E AMAR

A Revista UMA, edição de dezembro, elaborou um especial de 40 livros para ler e amar durante as férias. Borralheiro (Bertrand Brasil, 256 páginas) está entre eles.


Publicado pela Revista UMA
Edição 127, Dezembro de 2011
Ps. 148-153

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

APCA

Arte de Rodrigo Rosa

A Associação Paulista dos Críticos de Arte premiou meu livro "Filhote de Cruz Credo" (Girafinha), que aborda o bullying na escola, escolhido a melhor obra infanto-juvenil de 2011.

Cinquenta e cinco criticos definiram os destaques do ano em Arquitetura, Artes Visuais, Cinema, Dança, Literatura, Música Popular, Música Erudita, Rádio, Teatro, Teatro Infantil e Televisão. A cerimônia de entrega do troféu acontecerá em 13 de março de 2012, às 20h, no Teatro Sesc Pinheiros, em São Paulo.

LITERATURA

Romance: “Mano, A Noite Está Velha” (Planeta), de Wilson Bueno
Ensaio/Crítica: Coleção “História do Brasil Nação -1808-2010”, organização de Lilia Moritz Schwarcz (Objetiva)
Infanto-Juvenil: “Filhote de Cruz Credo”, de Fabrício Carpinejar (Girafinha)
Poesia: “O Metro Nenhum”, de Francisco Alvim (Companhia das Letras)
Contos: O Livro de Praga, de Sérgio Sant'Anna
Tradução: ”Guerra e Paz”, de Tolstói, por Rubens Figueiredo (Cosac Naify)
Prêmio Especial: Reedição de “História da Literatura Ocidental”, de Otto Maria Carpeaux (Leya/Cultura)

LENÇO DE PANO

Arte de Magritte

Minha infância já foi inteiramente de pano: as fraldas, os cueiros, os guardanapos, tudo se sujava e se lavava. Nada era descartável.

O uniforme escolar incluía um lenço branco, guardado no bolso do abrigo.

Mesmo quando a merendeira se transformou numa mochila de três quilos de cadernos e livros, permanecia transportando o paninho branco para prevenir espirros e coriza (o Kleenex custava caro, e seu uso se restringia a consultórios médicos).

O lenço representava um item obrigatório durante o dia. Formava um sinal de educação assim como repartir os cabelos ao meio com brilhantina e nunca cansar de dizer “por favor”, “com licença” e “obrigado”.

Antes de sair, a mãe me lembrava de levar o lenço mais do que o casaco. O objeto dividia a gaveta com as cuecas e as meias. Sem ele, ficaria nu socialmente.

Dobrei muita gripe em seus quadrados, livrei-me de vários constrangimentos em seus vincos.

Lenço não se emprestava a irmão ou ao colega. Poderia ser oferecido num ato de gentileza e socorro, mas nunca emprestado. Havia nele uma exclusividade de escova de dente. Participava do enxoval de amadurecimento, ao lado da toalha de banho e de rosto. Para não ser extraviado, trazia as iniciais do dono.

O simpático adereço com rendas nas bordas atravessava todas as idades. Atendia, ao mesmo tempo, à higiene das crianças e à aparência dos adultos. Dos fundilhos da calça subia o andar da roupa e se instalava no bolso do paletó como sinônimo de elegância.

Um autêntico cavalheiro não andaria na rua sem o buquê de linho na lapela. Ajudava a secar o suor do rosto, e consistia numa potente arma de sedução: sacado na hora H para conter as lágrimas das mulheres e evitar o borrão da pintura. Bastava ceder o lenço, que a dama suspirava. Em contrapartida, a mulher conservava um lenço de reserva na bolsa para limpar o sangramento masculino da boca, quando o sujeito se engalfinhava com concorrentes por amor a uma musa.

Fui procurar um lenço movido por nostalgia, para dar aos meus filhos. Devassei as lojas e feiras de artesanato e não achei o produto. Tinha que explicar ainda. Explicar nos envelhece.

– Tem lenço?
– Lenço?
– De pano, de nariz, de enxugar a testa?
– Ah, sim, isso é muito antigo, não tem não.

Não se vendem mais lenços em Porto Alegre.

Não verei de novo aquela cena portuária das pessoas se despedindo com as pequenas bandeiras brancas.

Lenço nos ensinava a acenar. Era o professor da despedida. O professor de nossa saudade.

Adeus, lenço!




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 20/12/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16923

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

FLORESCENDO NA PELE




Três leitores escreveram meus versos na pele: Daniela (costas), de Curitiba, Vagner (peito), de Pelotas, e Carol (pé), de Porto Alegre. Todos tatuaram a frase "Não me deixe viver o que posso, que me seja permitido desaprender os limites".

domingo, 18 de dezembro de 2011

SEMIDEUSES CONTRA HOMENS

Rolo Compressor acordou cedo para Santos e Barcelona.

Desculpa, não era futebol de salão, e sim handebol, vôlei, basquete. Os ilusionistas grenás calçaram as mãos com chuteiras. Fica uma só certeza: havia dois esportes diferentes praticados, ao mesmo tempo, hoje no gramado de Yokohama.

sábado, 17 de dezembro de 2011

UMA PEDRA DE US$ 10 MILHÕES

O advogado Fernando Dias foi convidado a escolher um presente da fazenda do amigo e ex-presidente Emílio Médici: escolheu a pedra emoldurada, um afago do presidente Nixon. Fotos de Tadeu Vilani.

Uma pequena pedra de 1,14 gramas e um pouco menos de 1 cm é o maior patrimônio cultural de Bagé, reduto de 112 mil habitantes, a 373 quilômetros da capital gaúcha.

A pedra negra e esponjosa, semelhante a um carvão, acondicionada num protetor de acrílico, é um dos 78 fragmentos da Lua existentes no mundo, o que ficou do legado das 378 amostras das duas únicas expedições americanas, feitas pela Apolo 11 e Apolo 17.

Vale cerca de US$ 10 milhões no mercado negro de colecionadores e aficcionados.

Com paradeiro trocado semanalmente e sob proteção de severa escolta policial, o raro material é um diamante nos sapatos de Lia Maria Herzer Quintana, 50 anos, reitora da Universidade da Região da Campanha e guardiã intelectual do Museu Dom Diogo de Souza. Ela dormia melhor na condição de professora do curso de Arquitetura. Assim que assumiu a Urcamp em dezembro, sofre de insônia cogitando planos criativos para resguardar o tesouro dado pelo presidente Richard Nixon, dos Estados Unidos, em 1973, como ação diplomática para sensibilizar chefes de Estados.

Quem recebeu a pedra e doou para a cidade foi o presidente Emílio Garrastazu Médici. Na época, o valor da peça era simbólico, já que se projetava a intensificação do acesso à Lua e excursões turísticas num futuro próximo. Mas Júlio Verne saiu de moda, os Estados Unidos frearam a corrida espacial e a mera relíquia tornou-se hoje uma diva cósmica.

Exposta no Museu Dom Diogo de Souza de 1973 a 1999, a pedra não despertava interesse. Nunca teve um histórico de atração, vaiada mais do que aplaudida, localizada antes na parede de um dos corredores menos concorridos do casarão colonial da Rua Emílio Guilayn.

– As crianças achavam a bolita sem graça, acabava sendo a grande decepção das escolas – lembra a professora Isabel Leaes, 51 anos.


O objeto permaneceu obscuro durante três décadas, anônimo, encravado numa bandeja de madeira. Com tranquilidade, traças devoravam o veludo verde das costas do retábulo.

A discrição se aproximava do abandono. Houve um roubo no prédio em 1984, e os ladrões nem se interessaram pela sua insólita presença; privilegiaram o saque de artefatos da Guerra do Paraguai.

– A mentalidade mudou e retiramos de exposição em 2000, quando um negociante da Flórida obteve uma pedra igual à nossa ilegalmente de Honduras e tentava revender por US$ 5 milhões – explica a reitora. – Desde lá, ela não voltou à vitrine por questão de segurança.

– Retiramos rapidamente vestígios e a ficha da pedra, para não ser rastreada – desabafa a funcionária Maria Luísa Pegas, 53 anos.

O retorno triunfal aos olhos do público será em março de 2012, no encerramento da comemoração de dois séculos de Bagé. O museu está montando uma exposição especial e mostrará o mapa do vale lunar de Taurus-Litrow, onde a pedrinha foi retirada pelos astronautas Eugene Cernan e Harrison Schmitt, na última missão da Apolo, em 19 de dezembro de 1972.

– A intenção é triplicar a visitação ao museu, atualmente na faixa de 6 mil pessoas ao ano – revela a diretora Carmem Barros, 51 anos.


O advogado Fernando Sérgio Lobato Dias, 65 anos, é o pivô da chegada da rocha – de curioso número 70.017 – ao município. Amigo de Médici, visitava o conterrâneo bajeense em sua fazenda em Dom Pedrito.

– Ele me apresentou sua coleção particular e perguntou se me interessava por algo. Eu me vidrei no talismã e ele fez questão que levasse como cortesia. Entreguei o material ao historiador Tarcísio Taborda, que saberia cuidar do contexto de sua exibição para comunidade – esclarece Fernando.

– Não imaginava que ela atingiria uma cotação astronômica, poderia ter levado uma camiseta de futebol ou qualquer outra coisa. São casualidades inexplicáveis.

Bagé é uma cidade de sorte. Uma cidade virada para a lua.






Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 34, 17/12/2011
Porto Alegre, Edição N° 16920
Conheça o cobiçado fragmento lunar em vídeo

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

CABELO, BARBA E CHAPINHA


Neymar não fez somente barba e cabelo, mas chapinha no 7 do Kashiwa. Ele não posa diante do oponente, age, todo drible é um passe, um passe para si mesmo.

Acompanhe considerações sobre o primeiro jogo santista no Mundial.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

GUIA MICHINELÃO DE HOTEL

Arte de Richard Estes

Sobram críticos dispostos a definir se um hotel merece cinco ou quatro estrelas. Nunca faltaram voluntários ao luxo. Qualquer um quer fazer parte da equipe secreta do Guia Quatro Rodas.

Por outro lado, já não é fácil conhecer um palpiteiro para nos prevenir dos piores cafofos, dos muquifos sem nenhuma constelação, com neon do letreiro falhando e eletrocutando insetos.

Para evitar roubadas, formulei o primeiro Guia Michinelão do país.

Não espere nada da estrutura hoteleira se o recepcionista entrega o controle da TV com a chave do quarto. Não espere nada mesmo se ele entrega também as toalhas de banho. Não espere nada sinceramente se ele entrega junto um rolo de papel higiênico. Isso é acampamento.

Não espere nada do quarto se não consegue efetuar ligação para a recepção. Não espere nada mesmo se não observa um telefone no local. Não espere nada sinceramente se apitar um interfone na parede. Isso é cortiço.

Não espere nada se a porta depende de uma manha para girar a chave. Não espere nada mesmo se as lâmpadas estão queimadas. Não espere nada sinceramente se o frigobar aparece vazio e desligado. Isso é a casa da sogra.

Não espere nada se não há ar-condicionado. Não espere nada mesmo se não há ventilador. Não espere nada sinceramente se não há janela. Isso é presídio.

Não espere nada se a TV não disponibiliza pay per view. Não espere nada mesmo se a TV possui só canais abertos. Não espere nada sinceramente se a TV apenas transmite o circuito interno do prédio. Isso é zeladoria.

Não espere nada do banheiro que tem uma cortina de plástico floreada no box. Não espere nada mesmo se não vê nenhum desnível do piso demarcando as áreas da privada, do chuveiro e da pia. Não espere nada sinceramente se tem um rodo atrás da porta. Isso é serviço militar.

Não espere nada quando entrar no quarto e o lixo transborda de sujeira. Não espere nada mesmo quando deitar e comer mechas loiras do travesseiro. Não espere nada sinceramente se você é careca. Isso é trabalho comunitário.

Não espere nada quando o hotel oferece prostitutas na recepção. Não espere nada mesmo quando o hotel oferece prostitutas no corredor. Não espere nada sinceramente quando chegar ao quarto e encontrar uma prostituta na cama, com o valor do programa incluso na diária. Isso é bordel.

Não espere nada quando não achar cardápio no quarto. Não espere nada mesmo se não achar a lista telefônica. Não espere nada sinceramente se não achar a Bíblia na gaveta.

Todo hotel tem Bíblia. Desculpe informar, mas você está no inferno.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 13/12/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16916

sábado, 10 de dezembro de 2011

FRANKENSTEIN CAMPEIRO

De sua casa, ornamentada com uma escultura de Mano Lima, Chapéu Preto não perde o mundo de vista. Foto Nauro Júnior.

Chapéu Preto teve que desmontar toda sua escultura de cinco metros e 1,2 mil quilos. As pernas estão na varanda, o tronco repousa no terraço, a cabeça e os braços esperam a ressurreição num canto cinza do pátio.

A obra terminou esquartejada e condenada ao esquecimento. Foi censurada na Expointer do ano passado e nenhum administrador de parque ou praça se interessou em adquiri-la. Mesmo de graça.

– 832 dias de trabalho postos fora e 836 fios de cabelos do meu Frankenstein que não serão vistos – contabiliza o artista, que marca cada dia de um trabalho novo com um risco na parede, à maneira de um presidiário.

O motivo do boicote é moralista. A figura masculina surge superdotada, com o membro protuberante à mostra. Os educadores caracterizaram a criação como uma afronta aos bons modos, os políticos reconheceram como atentado violento ao pudor.

– Imagina se estivesse excitada. Seria muito maior.

O homem feito de sucata homenageia Trançudo, sedutor folclórico da região da campanha do início do século 20. A lenda aponta que ele contava com um órgão de 32 cm.

– Não tenho culpa se o aparelho de David de Michelangelo é pequeno – não se conforma Chapéu Preto, pseudônimo de Derli Viera da Silva, 61 anos, um dos principais expoentes da arte primitiva no Brasil.

Derli transformou sua casa num ninho de metal, sonho de qualquer ferragem. Guarda 14 malas de ferramentas e trincheiras de quinquilharias pelos corredores. Sua oficina de fundição funciona a todo vapor de segunda a domingo, uma locomotiva de faíscas e metal derretido.

– Gosto de ser louco, não de ser burro.

Ele trabalha sem parar, mas não é recompensado. Vive na pobreza, com o salário mínimo de aposentado.

– Eu me levanto, nunca me acordei – descreve sua rotina incansável juntando sucata e elaborando ciborgues campeiros das 4h30min às 22h30min.

Um fornido saco de arroz congelado costuma ser a refeição do mês, tanto no almoço quanto na janta. Arranca duas colheradas e põe a comida de volta na geladeira.

– Sou 100% de ferro na alma. Não adoeço, enferrujo.

Apesar de completar cinco décadas de escultura, os pedidos e encomendas são milagrosos. Alguns clientes esquecem de buscar e pagar as mercadorias.

Aceita tarefas ínfimas para salvar o orçamento. Entalha mesas e portas, se for o caso. Faz brinquedos e troféus de futebol em emergências.

– Os maiores artistas morreram na miséria, acho que não posso enriquecer.

Mesmo atolado de preocupações, a esperança de Chapéu Preto é alegre. Um cumprimento do vizinho e ele já reaquece o otimismo. Não há quem não o conheça em Alegrete, cidade de 78 mil habitantes, a 487 km da capital. É um ponto turístico do distrito de Caverá. A fachada residencial chama atenção. Traz uma estátua de cinco metros, que reproduz o gaiteiro Mano Lima. O cenário exótico ainda recebe móbiles, rodas de carreta e placas com declarações de amor à querência.

Loquaz, cantante, nunca tira o chapéu, desde que se apaixonou por Santos Dumont, o pai da aviação, e desejou imitar seu acessório sem abas. Bigodudo, grisalho, olhos triangulares e sobrancelhas graves, usa de propósito um avental de couro e calças rasgadas. Para agir como um mendigo diante da inspiração.

– Não me visto bem, não é algo que me agrada. Aquele que muito se arruma não sabe nem amarrar um arame – diz.

Sua história é mais triste do que se imagina. Atrás da irreverência, esconde feridas fundas, que não cicatrizam com o sol e o tempo. Sua esposa Joana Maria, 51 anos, sofre de depressão e mora no asilo. O mesmo acontece com sua filha Katiusca, 36 anos , internada numa clínica.

– Minha solidão é de Jó. Leia a Bíblia para me entender – desafia.

A infância ainda foi mais dura. Sua mãe Irene morreu de parto, o pai Aristides não suportou a perda, envenenou os três irmãos – Alcides, 2 anos, Alcione, 3 anos e Delmar, 4 anos – com Tatuzinho e se matou em seguida.

– Não morri porque corri para longe. Meu coração corre até hoje dali.

Órfão aos 7 anos, recorreu à arte para se distrair dos pensamentos turvos. Não economiza sua postura crítica. Como um bom filho da República Federativa do Alegrete, provoca a Capital:

– Laçador a pé não existe. Cadê o cavalo do laçador?

Nem o poeta Mario Quintana escapou de sua ironia. Ficou chateado com o ilustre conterrâneo, quando ele comentou que nasceu em Alegrete por acidente.

– A declaração me magoou como a morte de um segundo pai.

Ele foi atrás do Quintana na Feira do Livro de Porto Alegre, em 1981. Encontrou o escritor sentado na Praça da Alfândega, debaixo dos jacarandás, e despejou uma maldição em versos, demonstrando que também era poeta:

– Escrever é coisa fácil/ e confortável demais. /Difícil é esculpir defunto/ sem os restos mortais.

O autor da Rua dos Cataventos não entendeu a ameaça e fugiu de volta para a redação do Correio do Povo.

– Admirar é desafiar – explica a traquinagem.

A aspiração de Chapéu Preto é construir um gaúcho gigantesco com cuia na mão em Torres, às margens do Rio Mampituba, um personagem maior do que o Padre Cícero de Juazeiro do Norte (CE), maior do que a Usina do Gasômetro, que possa ser vista do céu pelos aviões, planadores e, de preferência, pelo anjo Malaquias.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 31, 10/12/2011
Porto Alegre, Edição N° 16913
Conheça o ateliê maluco de Chapéu Preto