sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

TRÁFICO VERBAL

Arte de Yves Tanguy

Quais as expressões mais irritantes que escutamos dos outros? E que podem traficar uma ofensa.

1) "Você está melhor do que antes"
Não significa que gostou. É uma frase malandra. O que eu posso entender? Antes a pessoa estava horrível, agora está apenas ruim.

2) "Você é meu braço direito"
Tomaria cuidado com esse falso elogio. Ainda mais se quem diz é canhoto.

3) "Veja bem"
É arrogante, uma aula forçada. Veja bem é o equivalente a dizer: Seu idiota, você nunca aprende nada.

4) "Eu iria fazer uma surpresa"
E por que não fez? É um atestado de preguiça, de falta de vontade, não quis ter trabalho e manter o suspense.

5) "Ok"
Ok é uma palavra fria no amor, que traduz desapontamento. Funciona apenas no trabalho. Fora dele, é algo como "Cala a boca, não desejo mais falar do assunto".

6) "Você parece mais jovem"
Sim, é uma forma de avisar que a pessoa já é velha, por mais que se esconda na aparência.

7) "Meio-irmão"
Existe meio-pai, meia-mãe? Irmão é ou não é. Triste reduzir pela metade aquele que vive conosco.

8) "Me dá um beijo"
Beijo é interpretação de um momento. Não pode ser feito por liminar, ordem, licença. Beijo não se dá, se rouba. O melhor beijo é o roubado. Tanto que o casamento é a condenação perpétua pelos beijos roubados.

Acompanhe meu comentário na Rádio Gaúcha de sexta (3/2), no Programa Gaúcha Hoje:

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A AMÉRICA É UMA GANGORRA


O Grêmio parou de ganhar Libertadores, o colorado passou a devorar títulos internacionais.

Rolo Compressor tem a resposta para mudança da dupla Gre-Nal.

"Desde Hugo de Léon, barbudo inacreditável, zagueiro no melhor estilo anjo exterminador, o Grêmio fracassou em integrar argentinos e uruguaios em seu time.
Há quase trinta anos, tenta transfusão e não obtém tipo sanguíneo compatível. Experimentou Loco Abreu (URU), Saja (ARG), Schiavi (ARG), Herrera (URU), Máxi Lopes (ARG), Escudero (ARG), Miralles (ARG), nenhum desponta, mostra personalidade, obtém desempenho persuassivo.
A lacuna explica a ausência de títulos continentais pelo tricolor."

Faca na bota!, leia aqui.

PINHAL


Sou patrono da XIV Feira do Livro do Balneário Pinhal, que acontece de 2 a 5 de fevereiro, no Parque Cidadão (Em frente a Prefeitura). Na quinta (2/2) , às 21h, faço a palestra "Amor sem igual, todo abraço é uma escrita". Entrada franca.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

EU JÁ SABIA

Arte de Wilfredo Lam

Teremos sempre gente nos julgando.

Os vizinhos, os parentes, os colegas de trabalho, da academia e do inglês, quem nos tirou no amigo-secreto, quem nos viu no cinema.

Chamados para opinar, vão demonstrar uma intimidade surpreendente.

Não é paranoia, todos só estão esperando que eu faça algo realmente grande para confessar que me conheciam.

E pode ser agradável e pode ser nocivo, não importa, as maçãs podres partilham a cesta com as frutas sadias, o joio e o trigo são irmãos gêmeos, a maldade e a bondade são mais parecidas entre si do que o amor e a amizade.

Diante de uma atitude boa, dirão que já sabiam que eu era sinônimo de retidão.

Diante de um fato ruim, também dirão que já sabiam que eu não prestava.

O sonho da maioria é desfraldar a faixa: “Eu já sabia, Galvão”.

O fofoqueiro deseja ser profeta, pretende dar a notícia em primeira mão seja lá qual for e como for.

Os conhecidos guardam meus antecedentes negativos e positivos numa pastinha na área de trabalho do Windows, prontos para a impressão.

Ao me tornar santo, não será complicado encontrar testemunhas dos meus milagres. Citarão coisas inacreditáveis. Quando pulei o muro de três metros da Escola Imperatriz Leopoldina aos 11 anos e fui suspenso, avisarão que nada me aconteceu porque meu corpo é protegido pelo Nosso Senhor Jesus e que a direção me castigava injustamente e não compreendia meu dom.

Ao me tornar louco, comentarão que o mesmo pulo já dava provas da possessão do demônio, que meu apelido Chuck indicava a liderança negativa na turma, que merecia expulsão da diretora.

De um lado da moeda, a santidade. De outro, a ausência de sanidade. Em ambos, a mesma efígie.

Somos influenciáveis. Há a ânsia em definir o próximo para nos poupar da encrenca de assumir as próprias ambiguidades.

Em caso de me converter num herói salvando criança de atropelamento, a opinião pública tecerá elogios de minha conduta familiar. Lembrará do amor incondicional aos filhos.

Na hipótese de atropelar alguém, o público me enxergará como uma máquina mortífera desde a infância. Desde quando andava de triciclo e amassava formigas. Puxarão os pontos da carteira de habilitação, e o zelador do meu prédio, Carlos, descreverá minhas dificuldades para tirar o carro de ré.

Teremos sempre gente nos condenando. Viver é uma execução sumária.

Certo que, um dia, termino no paredão.

Pelo menos, vou pintando os muros de meu fim. Verdes de esperança.

Mas não faltará amigo supondo que isso é ironia.



 



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 31/1/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 16964

RETRATO FALADO DO MENTIROSO


Arte de Jim Dine

Como sabemos que o homem está mentindo?

- O mentiroso é detalhista, responde aquilo que não foi perguntado, está tentando se convencer da história, perde-se em pormenores e curvas desnecessárias.

- O mentiroso fica romântico fora de hora, generoso de repente.

- O mentiroso baixa os olhos de vergonha e fala para os lados.

- O mentiroso somente desmente uma história quando há uma mentira maior para esconder.

- O mentiroso pede desculpa fácil (não se importa mesmo com aquilo que diz).

- O mentiroso ri de nervoso, ri antes da piada.

- O mentiroso é ambicioso: deseja uma mentira maior do que a anterior. Ele tropeça em seu próprio sucesso.

- O mentiroso nunca é evasivo, sempre tem certezas.

- O mentiroso se julga melhor do que os outros. Pensa que sairá impune, que ninguém é capaz de descobrir suas artimanhas.

- O mentiroso inventa tudo (que é um erro, o certo é contar algo falso a partir de algo verdadeiro).

- O mentiroso, tão preocupado consigo, não conversa. É um monólogo.

- O mentiroso sempre está se favorecendo com a trama, ou é a vítima ou é o azarado. Não há mentira que prejudique seu autor.

- O mentiroso acredita que escutar é acreditar e vai falando sem questionar nada.

- O mentiroso põe a culpa pelos atrasos nos amigos. Mas esquece de avisar os amigos.

E a mulher? O que ela faz?

Quando a mulher mente, conta a verdade. Como se fosse uma brincadeira.

Escute meu comentário na Rádio Gaúcha de terça (31/1), no Programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

SUPERANDO OBSTÁCULOS

Com a ajuda dos pais, crianças podem reverter distúrbios de desenvolvimento ou aprendizagem
Lívia Meimes
livia.meimes@zerohora.com.br


Em sua coluna de 17 de janeiro em Zero Hora, o escritor Fabrício Carpinejar conta como enfrentou sérias rejeições quando pequeno, que não conseguia ler e escrever, que a professora recomendou que desistissem de alfabetizá-lo e que o colocassem numa escola especial. O laudo de um neurologista recomendava tratamento, remédios e isolamento, já que ele não acompanharia colegas da faixa etária.

Apesar dos diagnósticos, Carpinejar relata como, com o amor e a insistência de sua mãe, venceu os obstáculos e se tornou um escritor de sucesso.


A coluna Retardado aos oito anos emocionou muitos pais e avós no Estado. Carpinejar recebeu cerca de cem mensagens de leitores com felicitações pelo texto, às vezes acompanhadas de depoimentos de gente que enfrentou ou está enfrentando as mesmas dificuldades (leia alguns relatos ilustrando a matéria).

Qualquer criança em idade escolar está sujeita a não processar as informações que recebe da maneira esperada, podendo apresentar problemas de leitura, escrita e pronúncia das palavras, ou ao prestar atenção em sala de aula. Isso não significa, porém, que ela precise conviver negativamente com o rótulo de portadora de distúrbios de desenvolvimento ou de aprendizagem.

Especialistas na área da educação atualizados com os parâmetros teóricos mais modernos concordam, contudo, que receber uma informação como essa de forma prematura, e, muitas vezes, de maneira equivocada, pode causar estragos para o resto da vida. Novos paradigmas apontam para a ideia de que ninguém é menos inteligente por tirar nota baixa em matemática, ou por não conseguir decorar a tabela periódica: o próprio conceito de inteligência está em mutação. Por isso, diante de uma situação em que um filho se encontra vulnerável, em vez de entrarem em pânico, perguntando-se o que fizeram de errado ou se ele é diferente dos outros, os pais devem entender que a solução pode passar por eles mesmos.


– A maneira como os pais vão lidar com um diagnóstico desse tipo está ligada à forma como eles representam seus filhos dentro de si, tornando-se decisivo na forma como a criança vai superar os problemas – define o psiquiatra Celso Gutfreind, ressaltando que, quando um pai acredita no filho acima de tudo e tem uma imagem positiva dele, transmite confiança, diminuindo o poder do diagnóstico, da “etiqueta” que colocaram na criança.

Um exemplo é a passagem da pré-escola para a primeira série. Nessa fase, algumas crianças estão mais preparadas do que outras para aprender a ler e a escrever. Ao se constatar dificuldades no aprendizado, deve-se prestar atenção para as mais simples alterações emocionais (como ansiedade e medo). A personalidade do aluno e situações mais complexas, como estar enfrentando problemas em casa – pais se separando, irmão nascendo ou bullying na escola – também devem ser considerados.


– Só porque uma pessoa não se encaixa em um padrão pré-determinado ou alguém é incapaz de compreendê-la não quer dizer que ela seja totalmente incapaz – justifica a psicóloga Lisiane Machado de Oliveira Menegotto, doutora em Psicologia do Desenvolvimento e coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Feevale.

DIAGNÓSTICOS NÃO SÃO SENTENÇAS

Décadas atrás, diagnósticos dados pelo setor pedagógico do colégio tornavam-se sentenças definitivas sobre a capacidade cognitiva do aluno, o que marcava para sempre a vida da criança.

– Isso ainda ocorre hoje, mas há um esforço cada vez maior em cuidar para não se rotular prematuramente uma criança – aponta a psicóloga Lisiane Machado de Oliveira Menegotto.

A psicóloga Andrea Rapoport, doutora em Psicologia do Desenvolvimento, explica que o caminho da educação é apostar em um olhar mais apurado sobre o que cada pessoa faz de melhor. Ela cita como exemplo a Teoria das Inteligências Múltiplas, criada por de Howard Gardner (1985), com uma visão de inteligência que aprecia os processos mentais e o potencial humano a partir do desempenho das pessoas em diferentes campos do saber. A teoria se opõe aos tradicionais testes de QI, que avaliam todos pelos mesmos parâmetros.

– Inteligência é a capacidade que nós temos de solucionar problemas, de criarmos dentro da sociedade. Se o sujeito não é bom em matemática, ele pode ser incrivelmente criativo para contar histórias, por exemplo – afirma Andrea.

COMO AGIR

- Para que escola e família não confundam uma dificuldade de aprendizagem passageira com um distúrbio mais sério de desenvolvimento, observe as atitudes da criança. Muitas vezes, o problema é emocional.

- Consulte profissionais com especialização em clínica infantil, para realizar uma avaliação e tratar da criança. O trabalho deve ser em conjunto com a escola e a família.

- Professores e pais devem cuidar ao máximo para não passar a imagem de que a criança é incapaz, inferior aos outros. Deve-se explicar que, sim, ela tem uma dificuldade, e trocar experiência com ela, ver o que que ela acha disso, mostrar que ela tem outras qualidades e que não é definida pela nota do colégio.

- Aposte no seu filho e confie nele. Afeto e otimismo em relação ao seu futuro farão com que ele ganhe confiança para superar os obstáculos.

Publicado no caderno Meu Filho
Jornal Zero Hora
30/01/2012
Edição N° 16963, Página Central

sábado, 28 de janeiro de 2012

CAINDO NA REAL

A cineasta Liliana Sulzbach registrou o percurso de meninos que tentam a sorte no futebol. O documentário foi exibido pela RBSTV no sábado (28/1/2012), às 12h30. Apareço como um dos entrevistados, defendendo o valor da teimosia. Confira outros episódios da série.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

FUI OBRIGADO A SER HOMEM

No meu caso, não adianta cirurgia plástica, teria que desmanchar a face inteira e começar do zero. Ouça meu comentário na manhã de sexta (27/1) na Rádio Gaúcha, durante o programa "Gaúcha Hoje", apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A MALDIÇÃO DA GAROUPA

Arte de Thomas Gainsborough

Eu ria do meu amigo Manoel. Avarento que só vendo. Sua tática era carregar uma nota de cem reais como desculpa para não pagar nada pela frente.

Não é que ele não tivesse dinheiro, o coitadinho não contava na hora com notas menores.

Diante do estacionamento, ele me dizia: “Paga para mim que não tenho troco”. Na banca de revistas, “paga para mim que não tenho troco”. Depois de uma cerveja, “paga para mim que não tenho troco”.

A garoupa salvava seu zoológico. Eu gastava tudo.

Salafrário! Sua companhia me multava como um Ibama. Sua companhia me convertia num traficante de animais. Meu Pantanal financeiro morria a seu lado, à míngua de água. Dos meus bolsos, ouvia os últimos suspiros da tartaruga-de-pente, da garça, da arara, do mico-leão-dourado e da onça-pintada. Não restava uma pena, uma escama, para reconstituir a história de minha generosidade.

Ele terminava o dia sem gastar um vintém. Lustrava o porquinho comigo, preservava a poupança. E ainda dissimulava a mesquinhez com simpatia filantrópica. Em sua concepção, facilitava a vida dos comerciantes ao não tirar o dinheiro miúdo da caixa registradora. Apelidei Manoel ironicamente de Lei do Troco, aquela do ônibus.

Apesar da minha raiva justificada, havia uma verdade sutil por detrás de sua atitude.

Manoel compreendeu a maldição da nota de cem reais. O fardo da nota de cem reais.

Todas as vezes em que levo a mais alta efígie da República, não posso usar.

É trocar a nota que a grana se vai num minuto. Some. Desaparece. Escorre para o ralo.

É magia negra. Algo inexplicável. Mais demorado gastar uma nota de R$ 20 do que uma de R$ 100. Os filhos farejam quando acabamos de desmembrar a quantia, as dívidas são informadas, as contas nos acham na rua.

Existem gnomos credores dentro da carteira, que devoram o cardume filhote da garoupa, deve ser isso.

Como um valor pode desaparecer momentaneamente? Vejo-me como vítima de um truque de prestidigitação, de um golpe de ilusionismo do Banco Central.

Você evita torrar os cem reais, faz solenidade, economiza a folhinha durante sete dias.

É comprar com ela uma cartela de aspirina que perde o controle da situação. Sobram R$ 98, quase a mesma coisa, quase. Mas o montante evapora em menos de duas horas.

Há uma imunidade parlamentar na cédula azul, que permite que ela resista mais. Quando vira outro bicho, desaparece.

Tanto que Eike Batista se recusa a carregar notas de cem reais. O homem mais rico do Brasil não é bobo de arriscar sua fortuna numa superstição.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 24/1/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 16957

A CHAVE E O CHAVEIRINHO

Arte de Otto Dix

Não há maior solidão do que a da mulher alta.
É uma dificuldade secreta, que ninguém fala.
Mas o homem prefere uma mulher gorda a uma mulher alta.
Prefere uma mulher nanica a uma mulher alta.
Não diz, mas prefere.
É um machismo. O mais vergonhoso: o machismo silencioso.
O machismo de se sentir menor do que a mulher e rejeitá-la antes de qualquer contato.
Como se a altura fosse determinar se ele é macho ou não.
Homem teme mulher alta. Se a mulher tem mais de 1 metro e 80, ele desaparece.
Só quer mulheres menores do que ele. Para dominar.
Vergonha de andar de mãos dadas com mulher maior do que ele.
Vergonha de abraçar uma mulher maior do que ele.
Vergonha de dançar com uma mulher maior do que ele.
Homem pensa que ele é baixo porque ela é alta. E afasta todas as mulheres altas de sua vida, para fingir que não é baixo.
Não há maior sofrimento do que da mulher alta.
Porque ela não é feia e é tratada como se fosse um monstro.
Não há maior tristeza do que da mulher alta.
Sempre chamada de girafa, sempre convocada para ser jogadora de basquete, sempre solicitada para pegar alguma coisa lá da última prateleira. Confundem a mulher alta com uma escada simpática.
Mulher alta sofre o pior bullying amoroso. Precisa de homem de coragem, não de homem egoísta, homem que somente pensa em si e na aparência.
Não importa que seja um pequeno homem, desde que não seja um homem pequeno.

Ouça meu comentário na Rádio Gaúcha na manhã de terça (24/1), no Programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola: