domingo, 9 de março de 2014

SONO DE CRIANÇA


Arte de Kitaj

Quando criança, errar é poesia. Quando adulto, errar é malandragem.

Não deveria ter crescido. Porque cresci sem mudar. As pessoas é que mudaram seu olhar sobre meu temperamento. Não sou perdoado por falhas, lapsos, gafes.

Antes era engraçado, hoje sou irresponsável. Antes era distraído, hoje sou preguiçoso. Antes era charmoso, hoje sou idiota.

Você não tem ideia do esforço que faço todo dia para ser adulto.

Tomo café de propósito, e não Nescau, que adoro, para não me entregar.

Nos anos 80, ainda em meus dez anos, recebia a tarefa de comprar coisas que faltavam para o jantar no armazém.

Não anotava o que minha mãe queria. Buscava memorizar, e me atrapalhava.

Não foram poucas as vezes em que ela solicitava pêssego e pegava abacaxi, ela esperava por mostarda e trazia catchup, ela aguardava por salsinha e surgia com alface.

As palavras formam vizinhanças estranhas em minha cabeça.

Num finzinho de tarde, parei novamente na frente do balcão com a missão de levar pão e doces, já que tínhamos visita.

A balconista me encarava enquanto eu resgatava, dos longínquos sons da memória, a encomenda materna. A fila atrás impacientava a atendente, suas sobrancelhas subiam à touca.

Lembrei de cara do pão de 1/2. Mas e o doce? Qual era o doce? Recordava que havia merengue na receita, mas não vinha o nome. Nem existia uma vitrine para apontar:

— É este!

Na ânsia de resolver, falei alto:

— Me dá um bocejo?

A moça, intrigada, rebateu a esquisitice:

— O quê?

— Me dá 300 gramas de bocejo? — especifiquei.

— Bocejo, meu filho? — ela questionou, para logo completar. — Tenho sono, só que não posso bocejar para ti agora, estou trabalhando.

As pessoas na minha cola começaram a rir. Mas rir ajudando, rir acolhendo, rir me amparando.

— Não seria sonho?

— Não, não, não.

— Não seria papo de anjo?

— Não, não, não.

Dez minutos depois, Zé, o dono do lugar, gritou do fundo dos corredores:

— Não seria suspiro? A Dona Maria adora suspiro.

— Sim, sim, sim! Suspiro!

Fiquei conhecido na infância como o piá que desejava comprar bocejo no armazém.

Pedi bocejo, saí suspirando.

Naquele tempo, enganar-se não era crime. Era licença poética. 

  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 09/03/2014 Edição N° 17727

quinta-feira, 6 de março de 2014

A MÁQUINA RECEBE MONJA COEN

Monja Coen é monja zen budista e a primeira monja de descendência não-japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil por um ano.

Em meu programa A Máquina, ela fala sobre a importância da prisão por porte de LSD e da relação de escolha com a filha.

A exibição aconteceu na terça (25/02) na TV Gazeta, às 23h30.

quarta-feira, 5 de março de 2014

O AUGE DO DESESPERO FEMININO

Arte de Peter Blake

Eu sei quando uma mulher está desesperada. Bem desesperada. Altamente desesperada. Quando ela está prestes a se separar, ou romper os laços com o trabalho, quando não aguenta sua rotina, quando expulsa os demônios, quando não responderá mais nada educadamente, quando não pretende conversar, quando atravessou a arrebentação e agora irá gritar e não fique por perto e não busque acalmá-la, que ela passou realmente dos limites e não adianta fazer o que ela pediu ou falar o que ela desejava ouvir, pois é tarde.

Quando ela tomar esta atitude, deu, foi, o vulcão rugiu e cobrirá o dia de tremores.

A mulher está desesperada na hora em que derruba o conteúdo de sua bolsa sobre a mesa, na hora em que despeja sua bolsa, na hora em que vira de cabeça para baixo sua bolsa, na hora em que derruba tudo desprovida de compaixão, desligada do cuidado se alguma coisa quebrará no choque com a realidade.

A bolsa é seu controle, sua memória, sua casa portátil.

O gesto tem uma dramaticidade de ópera, um sentido de ária. Significa o fim dos bons modos, sinaliza a rendição ao caos, nada será como antes.

Na sua mentalidade, expor os segredos da bolsa é desistir da razão ou da forma como enfrentava as adversidades até aquele momento.

A bolsa é a derradeira fronteira da aparência, os limites entre a cidade e o inferno.

Se ela deixou de procurar o que queria encontrar com a eficiência do tato, se ela deixou de procurar o que queria encontrar com a luz do celular, se ela não achou o que queria nem com os olhos das mãos muito menos com os olhos dos olhos, é que o negócio é sério, ela explodiu, perdeu a paciência, dobrou a esquina do desaforo.

A bolsa é seu equilíbrio, guarda o que precisa lá, conserva o que gosta lá, conhece exatamente seus zíperes, seus bolsos, seus esconderijos.

A bolsa é sua alma, seu chacra, seu yinyang, seu espírito.

Quando tem consciência da localização das coisas na bolsa, está tranquila, está centrada, está focada, está confiante.

Jogar fora o que vai dentro expõe que a situação não tem conserto, é uma medida extrema de mudança de personalidade.

Ao despejar a bolsa, ela verá o que foi sua vida no último mês. O que ela tentou esconder de si mesma. E iniciará uma faxina sem precedentes.

Todo cuidado é pouco, você pode desaparecer junto.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 4/3/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17722

domingo, 2 de março de 2014

ÁGUAS PASSADAS NÃO MOVEM CASAMENTOS

Arte de Fatturi

Todo casamento é a soma de experiências únicas e intransferíveis.

O casal são sempre três pessoas: o que ele é, o que ela é, o que um é com o outro.

Ele pode ser algo fora dali, ela pode ser algo fora dali, e os dois podem se mostrar totalmente diferentes do que são quando combinados.

A intimidade não muda as pessoas, a intimidade é o resultado da química entre as duas pessoas.

A intimidade é o entrosamento secreto do casal, o que não é acessado por nenhum fofoqueiro ou paparazzi.

A intimidade é como um filho espiritual, uma personalidade distinta formada a partir da união de dois temperamentos.

Assim o legado de um relacionamento não tem como ser usado - eis a complicação amorosa, o xeque-mate do destino.

Ninguém aprende com os erros de um casamento. O casamento é uma caixa-preta, que só serve para resolver um único e solitário desastre.

Quando alguém diz que agora não vai mais errar e sabe o que falhou na convivência passada está se enganando.

As relações não são estáticas e repetíveis.

Você pode não ter tido paciência com uma mulher e ter o dobro de atenção com quem agora vive e não surtir nenhum efeito. Você pode não mais ser ansioso e apressado em seu romance atual, pois foram os sintomas mais criticados em sua história anterior, e não surtir nenhum efeito. Você pode não trair e ser leal como um escoteiro, suas maiores falhas no histórico afetivo, e não surtir nenhum efeito.

Arcará com consequências inéditas de uma intimidade também inédita. Consertar uma esposa com a seguinte é criar um Frankenstein. Ela não tem nada a ver com o que aconteceu anteriormente.

Nem você é o mesmo, não se deixa levar pela miragem de que não saiu influenciado e alterado por tudo o que viveu. As transformações são silenciosas e sutis dentro dos hábitos, e não pensa igual e da mesma forma. A dor e o luto entraram em seu sangue e já determinam suas decisões futuras. Sua cabeça não é igual como no início de um conflito pregresso, muito menos seu coração.

Os erros de um casamento apenas podem ajudar na reconciliação, é uma errata de um livro já escrito. Jamais poderá corrigir um livro antigo com o próximo, com novos personagens e novos enredos.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 02/03/2014 Edição N° 17720

ESPERTEZA PRAIANA


Quer seduzir outras mulheres? Passe protetor solar em sua esposa com enorme paciência e lenta satisfação.

O maior sedutor não é o malandro, não é o esperto, mas o monogâmico. O fiel. O que tem olhos apenas para sua a patroa.

Veja minha crônica eletrônica no Jornal do Almoço, exibido neste sábado (1/3) na RBSTV

Aqui.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

DEPOIS DOS 40


Depois dos 40 anos, o pensamento feminino muda, desembaraça.

O sexo não é mais performance, exaustão, é fazer o que se gosta e do jeito que gosta. É aproveitar dez minutos com a intensidade de uma noite inteira, é reconhecer o rosto do próprio desejo no primeiro suspiro, é optar pela submissão por puro prazer, sem entrar na neurose da disputa ou do controle.

A mulher de 40 não diminui o ritmo da intimidade. Pode ler um livro com a intensidade de uma transa. Pode assistir um filme com a intensidade de uma transa. Pode conversar com a intensidade de uma transa. Ela não tem um momento para a sensualidade, a sensualidade é todo momento.

Tomar o café da manhã não é apenas um desjejum, tem a sua identidade, o seu ritual, um refinamento da história de seus sabores. Tomar o café da manhã com uma mulher de 40 anos é participar de sua memória, de suas escolhas.

Ela não precisa mais provar nada. Já sofreu separações, e tem consciência de que suporta o sofrimento. Já superou dissidências familiares, e tem consciência de que a oposição é provisória. Já recebeu fora, deu fora, entende que o amor é pontualidade e que não deve decidir pelo outro ou amar pelos dois.

A mulher de 40 anos, cansada das aparências, cometerá excessos perfeitos. É mais louca do que a loucura porque não se recrimina de véspera. É ainda mais sábia do que a sabedoria porque não guarda culpa para o dia seguinte.

A beleza se torna também um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento. A beleza é resultado da elegância das ideias, não somente do corpo e dos traços físicos.

Encontrou a suavidade dentro da serenidade. A suavidade que é segurança apaixonada, confiança curiosa.

O riso não é mais bobo, mas atento e misterioso, demonstrando a glória de estar inteira para acolher a alegria improvisada, longe da idealização, dentro das possibilidades.

Não existe roteiro a ser cumprido, mapa de intenções e requisitos.

Há a leveza de não explicar mais a vida. A leveza de perguntar para se descobrir diferente, em vez de questionar para confirmar expectativas.

Ser tia ou mãe, ser solteira ou casada não cria angústia. Os papéis sociais foram queimados com os rascunhos.

A mulher de 40 é a felicidade de não ter sido. É a felicidade daquilo que deixou para trás, daquilo que negou, daquilo que viu que era dispensável, daquilo que percebeu que não trazia esperança.

Seu charme vai decorrer mais da sensibilidade do que de suas roupas. O que ilumina sua pele é o amor a si, sua educação, sua expressividade ao falar.

A beleza está acrescida de caráter. Do destemor que enfrenta os problemas, da facilidade que sai da crise.

A beleza é vaidosa da linguagem, do bom humor. A beleza é vaidosa da inteligência, da gentileza.

Depois dos 40 anos não há depois, é tudo agora.



Publicado na Revista Isto É Gente
Março de 2014 p. 50
Ano 14 Número 706
Colunista

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A MÁQUINA RECEBE CARLOS MACHADO

O dentista e ator Carlos Machado conta que venceu a timidez e aprendeu a ser cara-de-pau para poder trabalhar na televisão.

Em entrevista ao meu programa A Máquina, ele diz que o maior mico na TV foi ser vestido com um espartilho por Renato Aragão.

A exibição aconteceu na terça (18/2) na, TV Gazeta, às 23h30.

Veja o programa completo:

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

PERDA DA VIRGINDADE

Arte de Sonia Delaunay

Eles se encontravam sozinhos pela primeira vez: adolescentes namorando na sala.

Gisele perderia sua virgindade naquela noite. Escolheu muito a quem se entregar. Foi como definir um espelho de corpo inteiro.

Passaria a madrugada no apartamento de Fabiano. Os pais longe. Os pais dele tinham ido passar o final de semana em Gramado.

Havia suavidade. Havia firmeza. Havia carinho. Havia paciência. Havia tempo para se conhecer, desistir, voltar. Havia espaço para querer e não querer. Para não fazer nada se faltasse vontade. Optou por um homem compreensivo acima de tudo, e com ombros largos para desabar quando chegasse o prazer derradeiro.

Decisão difícil depende da liberdade dos adiamentos. Ela não queria forçar, esperava a inspiração da pele. A pele diria quando seria a hora.

Perder a virgindade não era para ser de qualquer jeito. Era para ser de seu jeito. Como se contasse seu sonho a alguém no exato momento em que sonhava.

Depois do sexo, depois de se doar inteira, de descobrir como se geme junto, de ouvir seu grito e acompanhar sua respiração falhada, Gisele tomou longo banho. Não pretendia se limpar, e sim comemorar o ato com a água. Vinha se sentindo diferente, e buscava se entender. A mulher toma banho para se entender – é onde o pensamento se acalma.

Na saída, feliz e amorosa, ela pediu um favor para Fabiano.

– À vontade , disse Fabiano.

– Mesmo?, ela pretendeu confirmar.

– Mesmo!

– Posso levar o sabonete comigo?

– O quê?

– O sabonete!, ela reiterou.

– Sim. Sim. Sim.

Ela foi até a cozinha, pegou um guardanapo, e enrolou o sabonete redondo. Como se fosse uma maçã. Com cuidados de uma fruta. Colocou na bolsa e partiu.

Fabiano talvez nunca tenha compreendido esse gesto.

Mas mulher tem rituais. Rituais são lembranças de lugares especiais.

Mulher guarda toalha bordada, travesseiro de criança, pulseiras, canetas. ingressos. Coisas que simbolizam etapas de seu crescimento. Assim como viajamos a um país diferente e carregamos uma recordação de outra cultura, para fixar nossa passagem, a mulher guarda relíquias das principais fases de sua vida: da infância, dos pais, dos namoros, dos amigos, do casamento, dos filhos, da velhice.

Toda mulher mantém uma caixinha de sapatos ou uma lata de panetone ou um estojo no fundo de seu armário com sua história. É uma arqueóloga de suas descobertas. Quando bater a tristeza no futuro, ela voltará para aquele cofre afetivo para constatar que não viveu à toa.

E o sabonete estará lá. Seco, perfumado, com o gosto intacto da coragem da primeira noite.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 25/2/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17715

domingo, 23 de fevereiro de 2014

DE URUBU A POMBO-CORREIO

Arte de Giorgio De Chirico

Fofoqueiro não tem cura.

Fofoqueiro não tem conversão.

Fofoqueiro não tem saída.

Se um amigo cria uma fofoca, é perda de tempo tentar convencê-lo de que é errado, que prejudica a confiança, que estraga a convivência, que ele não desfruta do direito de sair revelando indiscriminadamente aquilo que é absolutamente confidencial.

Não desperdice sua lábia. Não gaste seu sotaque.

Ao dar um sermão ao fofoqueiro, é bem capaz dele inventar fofoca do sermão. E ainda propagar aos colegas e familiares que você cometeu uma grande injustiça e quebrou a lealdade.

Todo fofoqueiro se faz de vítima, não assume seu problema e joga a culpa no colo dos outros.

Seu tipinho é facilmente reconhecível. Usa expressões como “nunca”, “jamais”, “imagina”. Jura por Deus e pela sua mãe sem nenhum pudor, sem nenhum receio das consequências. Responde uma pergunta com nova pergunta. Costuma se mostrar surpreso e fingir desconcerto quando questionado: “Eu?”.

Aviso aos persistentes e esperançosos: o fofoqueiro não tem conserto.

É pedir segredo que o fofoqueiro abre o bico. Parece gostar de viver perigosamente. Confia apenas em sua impunidade, desprezas as evidências e pistas.

Mesmo calado, espalhará confidências de algum jeito: por indiretas, código morse, telepatia. Arrumará um jeito de contar. Sua incontinência verbal é criativa. Sofre de incompetência para manter a palavra quieta, debaixo das pedras. Pois acredita no tráfico de informações. Atua como um lobista amador, um falso conselheiro. Cria sua importância por aquilo que ficou sabendo.

Eu desisti da salvação de fofoqueiros. É uma igreja infernal.

O que faço é me aproveitar deles. Eu direciono o fofoqueiro para meus objetivos. Profissionalizo o fofoqueiro. Treino o fofoqueiro. Faço do urubu um pombo-correio.

Como não posso dissuadi-lo a abandonar sua natureza, repasso o que desejo que seja conhecido. Ofereço um alvo. Exponho algo com minha clara intenção que vire fofoca, suplicando por reserva e para que não fale para ninguém. Ele não resiste a um cochicho, a uma conversa no pé do ouvido, e logo dissemina a história.

Em vez de trabalhar de graça para a fama do fofoqueiro, o fofoqueiro passa a trabalhar para mim.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 23/02/2014 Edição N° 17713

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ESTRELA-DO-MAR

Arte de Hannah Höch

Porto Alegre, 40°C. Patrão e patroa acompanhavam a novela das nove na sala, e só reclamavam do calor. Já estavam com aquela tosse alérgica. O ventilador fazia mais barulho do que vento. As janelas abertas apenas carregavam mosquitos. Eles não se concentravam no som das imagens por absoluta apatia. As pálpebras tremiam de cansaço. O véio aproveitou o comercial e pediu licença para sua véia.

– Vou dar um pulo na garagem e já volto.

– Tudo bem, meu véio, não demora, que é tarde.

Quarenta minutos, e nada do véio voltar.

A véia pensou duas vezes antes de levantar da cadeira. A velhice é minimizar os esforços: quando se senta, não se levanta por qualquer coisa.

Mas a preocupação tomou conta, estava virando aflição, terço, coceira de aliança.

O que será que aconteceu? Desceu a pequena escada até a garagem.

Encontrou o véio misteriosamente trancado no carro. Coisa esquisita. Será que foi se matar? Ela se lançou a abrir a porta, com a respiração ofegante.

Então, de olhos fechados, o véio levou um tremendo susto, como que pego em flagrante.

– O que está fazendo aí dentro?

– Não aguentei o calor, e vim descansar com o ar-condicionado.

O véio tinha aquele rosto culpado de cachorro que comeu o osso alheio. Tanto que se encolheu para dar a resposta.

A véia avermelhou as bochechas. Aquela mulher era muito temperamental. Geniosa. Indomável.

Mas em vez de xingá-lo, disse com toda a ternura:

– Mas por que você não me chamou?

Diante do encolhimento de ombros do marido, ela sumiu por instantes e voltou arrastando um edredon e travesseiros.

Entrou ao lado do véio, deitou na cadeira e falou:

– Pode dirigir meus sonhos. Será nossa segunda viagem de lua de mel, nosso segredo.

Passaram a madrugada sob a refrigeração do veículo. Esqueceram a previsão do tempo. Esqueceram o inferno. Esqueceram o terror da insônia. Esqueceram os pijamas empapados de suor. Esqueceram a sede. Esqueceram as lamúrias.

Esticados, cada um em sua poltrona, roncaram com surpreendente tranquilidade.

Não dormiram de conchinha, mas de estrela-do-mar. As pontas dos dedos se tocaram amorosamente ao longo da noite. Não dormiram de conchinha, mas de estrela-do-mar.

PS: Isso é uma peça de ficção para retratar o calor em Porto Alegre. Não vá fazer o mesmo, é perigoso carro ligado em garagem fechada.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 18/2/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17708