segunda-feira, 28 de setembro de 2015

FALSA ESPERANÇA

Arte de René Magritte 

Existe a questão metafísica se a mulher deve ou não transar no primeiro encontro ou se ela deve fazer tudo na primeira noite ou se guardar para as próximas saídas.

Ao homem, não resta alternativa. Ele não tem nada para economizar, nada para esconder, nada a deixar para depois, nenhuma arma secreta, nenhuma carta na manga, nenhum segredo de alcova, coisíssima alguma para prolongar o mistério e dilatar o suspense.

Ele sempre será exatamente o que foi na estreia.

Oferecerá serviço completo de cara. Há uma honestidade inadiável de sua parte.

Não tem direito ao pudor. Não tem condições de planejar estratégias e se preservar para mais adiante.

Não há níveis em seu joguinho.

O sexo não melhora com o tempo. A transa masculina não se aperfeiçoa com a intimidade.

Não mantenha esperança alguma da mudança do quadro. Se o sexo foi ruim de saída, continuará ruim no decorrer da relação.

Homem é regularidade. Homem é constância. Homem é um livro com a história escancarada na capa.

Ouça meu comentário na Rádio Itapema na tarde dessa segunda (28/9), às 13h, apresentação de Denise Cruz: 

domingo, 27 de setembro de 2015

A ALEGRIA VESTE A TRISTEZA


Tenho uma predileção por uma frase de Federico Fellini: para a sombra existir, o sol deve estar a pique na cabeça.

Sem a luz, o escuro não se forma. Sem o escuro, a luz não tem sentido.

O mesmo acontece com a alegria.

Dentro da alegria mais genuína, mais intensa, mora a sombra da tristeza. A tristeza só existe em função da alegria. É o medo de perder a felicidade que faz com que você se esforce para mantê-la.

Não há alegria inteira, nem tristeza pura, uma depende da outra. Podemos transpirar euforia, mas sobreviverá uma pontinha de melancolia lá no fundo de nosso riso. Porque mantemos a consciência de que a alegria, por mais duradoura que seja, vai passar. Que ela logo se transformará em nostalgia, e que não estaremos mais plenos como daquele jeito de novo – e isso não é ruim e nem é bom, é inevitável da experiência. A tristeza dentro da alegria nos permite pensar e entender o quanto aquele momento é importante e que precisamos aproveitá-lo enquanto dura.

A alegria é esta vontade de ser para sempre que termina. A tristeza vem nos consolar a aceitar que o fim de uma lembrança não significa o fim de nossa vida.

De igual forma, dentro da tristeza mais severa, da depressão mais aguda, é possível notar a presença de uma alegria discreta, retraída, tímida. Tudo pode soar péssimo, mas um abraço, um quindim, um filme, o telefonema insistente de um amigo é capaz de nos devolver a vontade de dar a volta por cima. A simplicidade é terapêutica, a banalidade nos cura dos grandes males da solidão. Haverá sempre o sol por detrás das nuvens escuras dos pensamentos suicidas. Na sombra mais espessa de nosso temperamento, coexistem os raios solares minúsculos do contentamento, das dádivas da rotina e dos pequenos prazeres. Estaremos desolados com o tempo fechado e chuvoso do rosto, não enxergando nenhuma saída, mas a alegria se conservará perto e nos mostrará que a tristeza também passará, que é uma fase e um ciclo para absorver separações, desentendimentos e traumas. A lágrima brilhará como uma vidraça limpa e iluminada.

Se a tristeza é saudade dentro da alegria, a alegria é esperança dentro da tristeza. Nenhum sentimento é definitivo e completo.

A luz veste a sombra, a sombra veste a luz. A alegria costura a tristeza, a tristeza costura a alegria. Alfaiates que se revezam no longo pano dos dias.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.72
Porto Alegre (RS),  27/09/2015 Edição N°18307

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O CANSAÇO MASCULINO É AFRODISÍACO

Arte de Otto Mueller

Não se arrisque a dizer que está cansado para a sua mulher de noite. Ela pode estar também demolida que testará o nosso fôlego. Inventará de fazer tudo de repente: sair para festa, assistir dez episódios de um seriado, conversar sobre a infância, encontrar amigos do casal, jantar degustação com cinco pratos em sequência, romancear até de madrugada.

Não sei o que acontece: mas o cansaço do homem dá um baita tesão na mulher. Ela fica extremamente excitada, alegre, feliz, disposta.

O efeito da palavra é como um energético.

Mulher enlouquece quando vê que seu homem está cansado.

Não entendo se ela pensa que estamos mentindo ou aprontando. Ou quer aproveitar que não ofereceremos resistência para abusar com vontade. Ou cisma em descobrir se ainda a amamos e deseja uma grande prova de nossa paixão. Ou todas as alternativas.

Certo é que não dormirá cedo. Cheia de ternura teimosa, ela vai criar um Porto Alegre em Cena em casa, um Festival de Cinema de Gramado em casa, uma programação infinita, uma gincana de eventos.

Mas não existe igualdade na regra. Não busque fazer o mesmo quando a mulher diz que está cansada porque realmente estará cansada. Apenas ofereça uma massagem nos pés. Ela não aceitará nenhuma provocação.

Ouça meu comentário na manhã desta sexta-feira (25/09), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O CAMINHO DA SANTIDADE

Arte de Eduardo Nasi

Não escute com os dois ouvidos o que uma mãe diz.

Eu realizava esta operação perigosa quando criança

Não obtive os melhores resultados.

A mãe sempre contava histórias dos santos antes de dormir.

A que eu mais me intrigava era a conversão de Francisco de Assis: quando ele entregou suas roupas ao pai Pietro Bernardone em praça pública, absolutamente nu, afirmando que não devia mais nada para ele e se oferecendo em absoluto a Deus e assumindo uma nova identidade (no ato, mudou o nome de Giovanni para Francisco).

Aquilo me marcou tanto que procurei imitá-lo.

Num domingo de Gre-Nal, com a família reunida na frente da televisão, aguardando a possibilidade do clássico ser transmitido ao vivo pelo canal 12, instantes antes da decisão do Campeonato Gaúcho de 1979, tirei os os meus trajes e me dirigi para a sala onde estava a família reunida (incluindo primos e tios).

Pelado, somente de botas (na minha visão, dependia das botas ortopédicas para chegar ao paraíso), entreguei a camiseta, a calça, a cueca e as meias ao pai. A sala parou para me ouvir. Foi um minuto de tenso silêncio, homenageando a minha morte social.

- Toma, sou filho de Deus!

O pai não compreendeu absolutamente coisa alguma. O que significava seu filho de seis anos em pelo na frente de todos repassando suas roupas?

- Estão sujas?, ele ensaiou diminuir o drama.

- Não, pai, suja está a minha alma. Toma, entrego os meus pertences e o meu sobrenome.

- O quê? Tá maluco. O jogo vai começar? Bota um agasalho, guri!

- Não me interesso por futebol, só em ajudar as pessoas.

- Está possuído pelo demônio! É o que faltava ter que chamar um exorcista…

Ele me pegou pelo braço e me trancou no quarto para refletir sobre o meu descomportamento. Ficaria de castigo até pedir desculpa. Eu juro que não absorvi a confusão dos acontecimentos. O que deu errado? Como que ele avisava que estava possuído pelo demônio se estava me santificando naquele instante?

Fracassei como cover de Francisco de Assis.

Ninguém jamais aceitou a minha atitude na família, ainda acham que sou um exibicionista desde pequeno, não entenderam o fundo de minha angústia, o tamanho de minha renúncia, de que eu seguia o caminho irreversível da santidade.








Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 23/09/2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

COMO UMA NOTA DE TRÊS REAIS



Elogio, quando sempre, vira bajulação. Ternura, quando excedida, vira cinismo. Concordância, quando constante, vira sarcasmo. Aceitação, quando submissa, é indiferença.

Amizade é medida (já o amor é perder a medida).

Percebo quem é falso pela ânsia de agradar a qualquer custo. É um torturador pelo afago. Alegria se transforma em histeria; a espontaneidade, em afetação.

Não é um contato natural, mas uma negociação: a impressão é de que o outro, que não para de me reverenciar, está vendendo algo que não sei, algo que não estou vendo. É muita simpatia para nada. É muita camaradagem gratuita. É esnobar com uma nota de R$ 3.

Mantenho um pé atrás com quem é abusivamente açucarado. Evito quem é dado ao léu, antes mesmo de estabelecer intimidade. Gritinhos no “oi” apressam o meu adeus. Diminutivos esgotam a minha paciência.

Quem se aproxima querido demais falará mal de mim pelas costas. A traição está insinuada na atração artificial.

Não tenho dúvida. Acúmulo de gentileza é véspera de maldade, de oportunismo, próprio daquele que pretende enganar. Desconfio de quem chega com mimimi, só exaltando as minhas virtudes, concordando com os meus comentários. É característica de personalidade maquiavélica, porque me faz relaxar, confessar as dificuldades e abrir a guarda para tirar vantagem.

Não levo a sério quem carrega nos adjetivos, superfatura nas exclamações, endeusa nos cumprimentos. Amigo que se gosta vive se provocando. O que adula é um inimigo disfarçado.

Hipocrisia vem do exagero do perfume. O tipo busca dissimular a carência de banho com borrifadas, procura abafar a maldade e a inveja com o comportamento contrário.

Temo mais a chuva de confetes do que os relâmpagos e dilúvios.

A afetação me põe ressabiado. Não aturo a fala dublada – a impressão é de que falta a opção do áudio original. Parece que a voz vem de um ventríloquo. Parece uma tia chata interpretando as vontades de um bebê.

A pessoa se comunica miando, ganindo, arrastando as vogais. Força empatia, ri sem nenhuma piada, é solene sem necessidade.

Gente falsa é o mesmo que conversar com alguém fingindo o orgasmo em todo momento. Não tem como acreditar que algum dia será para valer.

Autenticidade implica alternância e até um certo mau-humor. Prefiro o ferrão ao mel.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  22/09/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18302

ATRAENTE COMPLEXIDADE

Arte de Gino Severini

É preciso gostar muito de mulher para casar. Mas muito e muito.

Se gosta um pouquinho, nem tenta. Procure outra orientação sexual.

A mulher é complexa e fascinante.

Não é para iniciantes e amadores. Não é para diletantes e aventureiros.

Mulher investiga qualquer passo. Tudo gera reflexão.

Haverá decisões para toda a vida toda a noite. Sem folga.

Se não curte conversar ou opinar, não sobreviverá um semestre dentro de casa.

Ouvir apenas não basta, pois se permanecer calado o tempo inteiro ela achará que está aborrecido. E começará uma nova discussão sobre a natureza de seu silêncio.

Mulher pensa em voz alta, assim que se organiza.

Ela não é estável, ninguém que é intenso é estável. Sempre existirá uma dificuldade para resolver e perturbar o sono.

Ela pode estar brigada com a mãe e ou com alguma amiga ou criticando o pai e será o único assunto durante meses.

Não é fácil. Precisa gostar muito do negócio. Só quem curte encontra paciência.

Quer ver como não é fácil?

Não adianta amar o corpo de sua mulher se ela não está amando o próprio corpo.

Mesmo as mais lindas jamais estarão satisfeitas. Então, não é uma fase, não é um dia ruim, ela complicará com o peso ou a beleza uma vez por mês no mínimo.

Você poderá elogiar, dizer que ela está gostosa, que sente grande desejo, que se orgulha e não mudará uma vírgula do desânimo feminino.

O homem nunca será melhor do que o espelho.

Não procure censurar, oferecer conselhos e, principalmente, entender o que está acontecendo.

Mulher quando não ama o próprio corpo é o momento em que mais compra roupa. Busca ampliar suas opções.

Não tem como explicar racionalmente. Desista. Mulher é puro sentimento.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (22/09), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

domingo, 20 de setembro de 2015

PERDI 1 MILHÃO DE REAIS



Não festejei o meu primeiro milhão porque fumei o meu primeiro milhão.

Eu me dei conta de que se juntasse as minhas baforadas com as tragadas do cantor Renato Godá, amigo de vício e de faixa etária, já teríamos posto fora R$ 1 milhão. Nesta brincadeira existencialista e maldita, torramos um patrimônio difícil de obter. Participamos de um Big Brother às avessas: em vez de ganhar, gastamos a recompensa máxima do reality show.

Cada um fumou duas carteiras por dia durante 26 anos, o que resultaria em R$ 284.700. Se esse valor tivesse sido investido há três décadas em uma aplicação que rendesse 1% ao mês, sem considerar inflação e troca de moeda, o montante atualizado com juros seria de R$ 1.170.117.

Foram quarenta cigarros do amanhecer até o anoitecer desde os 17 anos. Apaguei no cinzeiro mais de 380 mil filtros. Encheria uma piscina olímpica com as minhas bitucas.

O resultado é assustador. Nenhuma morte seria tão cara. Fui um perdulário invisível. Não percebi o investimento porque identificava como um mero troco. Quem adquire cigarro não anota sua compra, e tampouco registra como gasto. Só que empenhei uma parcela fixa diária e interminável de quinze reais. Somadas ao longo de minha história, formam uma bagatela que paralisa os mais incrédulos, digna de prêmio dividido da Mega Sena.

Com tudo o que fumamos, poderíamos abrir uma grande empresa com forte capital de giro. Ou comprar à vista uma cobertura de 300 m2 no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre. Ou levar cinco carros Santa Fé zero quilômetro para as nossas garagens. Acabaríamos ricos, com uma poupança redentora, não precisaríamos nos preocupar com a crise e muito menos em trabalhar duro todo o mês. Mas cedemos a nossa fortuna imaginária e os nossos pulmões reais para a indústria tabagista.

Não transformamos o nosso suor em sorte, em previdência, em títulos de capitalização, em economias para a universidade dos filhos, ele simplesmente virou fumaça.

Qualquer um é considerado maluco ao queimar dinheiro. Eu e o meu comparsa músico queimamos 1 milhão de reais com a boca.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.36
Porto Alegre (RS),  20/09/2015 Edição N°18300

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

DE QUALQUER JEITO

Arte de Fortunato Depero

Estranhei que a minha mulher estava rindo das minhas piadas. Ela tem um humor diferente do meu.

Estranhei que eu e a minha mulher não discutíamos por qualquer coisa, por qualquer palavra, era uma paz sem tamanho.

Estranhei que um ouvia o outro sem interromper com novas cobranças.

Estranhei que ela aceitava minha irreverência, meus escândalos, meus dramas, minha ansiedade, minha mania de falar as novidades a cada quinze minutos.

Estranhei muito, tive que perguntar:

- O que aconteceu que o meu temperamento não vem mais lhe irritando?

Então, ela me deu a maior declaração de amor que já recebi na vida:

- Antes eu lhe queria do meu jeito, agora eu lhe quero de qualquer jeito.

Ouça meu comentário na manhã dessa sexta-feira (18/9), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

BRAÇO DIREITO

Arte de Eduardo Nasi

Meu pai estava desesperado.

Sua mulher Elza, companheira de três décadas, enfrentou complicações na coluna, problemas sérios na bacia. O andar travou e apresentava fragilidade até para falar.

Vocês não conhecem o meu pai como eu: ele é um gurizão de 76 anos. Uma criança grande. Tudo o que ele faz mostra para sua esposa.

É dependente. Amorosamente dependente.

Ela carrega a casa: controla o mercado, prepara a comida, cuida das roupas e dos eventos, orienta os mínimos detalhes da rotina.

Quando ele esquece um autor ou um amigo, ela vem preencher as reticências do esquecimento. Casal quando se ama vive fazendo palavras cruzadas em qualquer conversa.

Sem ela, o pai desmorona. Não existe. Desaparece. Não saberá ligar o fogão. Ficará confuso entre os controles do ar-condicionado, da televisão e da net.

Ele cedeu para a sua mulher o domínio do mundo. Não foi uma submissão, mas confiança.

Jamais o vi confiar tanto em alguém como em Elza. Tanto que a chama de Elza dos pássaros. É sua migração, é seu voo, é seu ninho.

Em seus livros, todos os seus livros, há sempre um poema ou uma referência a ela. Vive criando dedicatórias para compensar a dedicação.

Tomam café juntos, leem jornal juntos, almoçam juntos, sesteiam juntos, passeiam juntos, jantam juntos, assistem novela juntos. São parceiros, cúmplices, confidentes, melhores amigos, amantes.

Não se largam. O pai tem uma cadeira vaga para a Elza em seus olhos verdes. Cadeira de praia. Já seus cílios são o guarda-sol.

Na íris paterna, no fundo mesmo, sua esposa está lá cantando chansons d’amour rivalizando as ondas do mar.

Quando Elza adoeceu, ele enlouqueceu de aflição.

Para complicar, ao mesmo tempo, ficou com uma dor tremenda no seu braço direito, que usa para escrever.

Não tinha como anotar uma frase que doía (meu pai redige primeiro à mão em seus caderninhos e somente depois passa a limpo no computador).

Por mais que tentasse, a letra não se levantava da cama das linhas. O pulso ardia, fisgava, não permitia movimentos mais longos entre os dedos.

A caneta não obedecia ao raciocínio, logo escorregava para o gemido.

A inspiração havia sido levada pelo mau humor do osso e indisposição dos nervos.

Mas ele nem se deu conta de que sua lesão foi uma coincidência clarividente.  Seu braço parou porque Elza é seu verdadeiro braço direito.








Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 16/09/2015

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O ORGULHO DE SER GAÚCHO



Nunca vi tanta gente do bem dizer que pretende sair do Rio Grande do Sul e morar em outro Estado. Experimentamos uma semana farroupilha ao contrário.

E não são desertores, são sofredores, são desesperados, que não aguentam 40 homicídios num final de semana, não aguentam a soltura de bandidos assim que são presos por falta de condições nos presídios, não aguentam comerciantes morrendo com bala perdida quando vão levar seu cachorro para passear de noite, não aguentam óbitos violentos de adolescentes por motivo banal, em nome de um celular ou de um tênis, não aguentam brigadianos e policiais circulando em subcondições, sem um vencimento que honre a insalubridade da profissão, cansaram da esperança, não aguentam o abandono das ruas e dos parques, não aguentam os buracos das estradas, não aguentam a ansiedade e o nervosismo quando os filhos demoram a retornar ao lar, não aguentam as más notícias nas patas dos quero-queros.

Nossa alma pilchada está cada vez mais pichada de frases de protesto.

Nossas tragédias são modelos para toda terra.

O orgulho de ser gaúcho foi ferido. Falar o que de bom daqui? Como exaltar o turismo se não há como sair em segurança de casa?

Antes, os professores faziam greve para aumentar os seus pequenos salários, hoje estão fazendo greve para manter os seus pequenos salários. Os tempos se agravaram. Manter o emprego é a única promoção que existe. O governo não poderia ter parcelado o salário do funcionalismo, ainda mais num Estado absolutamente familiar, absolutamente centrado na proteção familiar. Ele não constrangeu categorias profissionais, deixou de ser uma negociação com sindicatos, feriu a todos, baqueou o coração da família gaúcha.

Os servidores precisam mendigar o que merecem por direito para sustentar as suas crianças. Obrigações desandaram em reivindicações. Não houve mobilização civil e popular que preparasse o ambiente para uma crise, e sim decretos, em que benefícios foram suprimidos de repente. O funcionalismo virou uma horda de indigentes assalariados, voluntários forçados a seguir sem nenhuma palavra de afeto, condenados a tomar um veneno amargo diante da inexistência de bula. Trabalhar para quê? Como trabalhar sabendo que aquilo que está ruim tende a ficar pior? Ter ou não ter emprego não garante mais nada no final do mês. Estamos à mercê da roleta-russa da arrecadação.

Pois receber o valor do contracheque um mês depois, em parcelas a conta-gotas, apenas cria juros, empurra empréstimos goela abaixo e termina por criar um pânico financeiro.

Óbvio que haverá redução drástica do consumo, e aumento do endividamento. O salário atrasado não mais cobrirá despesas, e sim dívidas. Como alguém conseguirá atender as demandas fixas domésticas, irredutíveis, implacáveis com R$ 600?

O próprio governador dá o exemplo negativo: já que ele mesmo não paga as suas despesas e contraria as suas obrigações com a União.

Sirenes, apitos, buzinas, greves, protestos, passeatas e trânsito interrompido... Nem mais escutamos os sinos das igrejas avisando do meio-dia e da hora do almoço.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  15/09/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18295