segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A MÃO BOBA DA MULHER

Mulher conquista o homem pela barriga. Mas não é cozinhando.

Revela suas segundas intenções, quando numa foto, desliza a mão para a barriga do homem. Ela está dizendo que deseja ficar com ele. É mais do que um convite, trata-se de uma imposição.

Colocar a mão ali é fatal: significa que está interessada, e gostaria que ele fosse seu.

A mão na barriga desenha relacionamento sério, invoca os santos a baterem cabeça. É altamente perigosa e pornográfica.

De repente, é o primeiro contato da figura feminina e já finca de saída a bandeira dos dedos no umbigo. Crava a flâmula da dominação no Everest da gordura.

A mão na barriga não mente, não engana. Por ser invasiva, denuncia promessa de intimidade. Se ele está casado, expõe igualmente clara intenção de roubo

É diferente de qualquer aproximação, da amistosa mão no ombro, própria de amigo, ou da inofensiva mãos nas costas, característica do respeito, ou ainda da mão no peito, exclusividade dos apaixonados, quando existe uma concordância de mostrar contos de fadas para as redes sociais.

A barriga do homem é seu ponto mais frágil, onde guarda as suas noitadas e vida boêmia.

Quando a mulher põe os dedos sobre o ventre masculino vai avisando que acabou a cervejada, as saídas sem fim com os amigos, a churrascada orgiástica. Ela censura o futuro com um único gesto. E, ao mesmo tempo, naquele aceno despretensioso no volume do corpo, entrega a sua esperança de gestação, de ser mãe, de formar família.

A mão na barriga é um ato falho. Talvez ela nem tenha premeditado o toque, pois foi sem querer querendo. O que importa é que não há erro no prognóstico, ela demarcou território para a posteridade.
Pode olhar as primeiras fotos de seu namoro. Veja se não existe a profética mão na barriga.

Publicado em UOL em 03/11/2017

ALGEMADOS PARA A ETERNIDADE

Você talvez não tenha observado.

Seu pai velhinho e a sua mãe velhinha andam com as mãos nas costas. As mãos em concha nas costas. As mãos entrelaçadas na espinha dorsal.

É para manter a postura ereta. Não permitir o ombro vergar com os passos. Eles ficam com um terço imaginário dedilhando os nós dos dedos enquanto caminham. Alguns roçam a aliança grossa, outros se divertem com a textura dos calos.

Atingiram um ponto da existência em que passeiam sempre com os braços para trás, como uma alavanca, eles mesmo se empurrando para frente.

Meus olhos umedecem, meus olhos são copos d’água quando os vejo. Pois meu pai velhinho e minha mãe velhinha se algemaram para a eternidade. Prenderam-se a Deus. Já se entregaram para os seus limites, aceitaram as fronteiras do corpo.

De modo voluntário, perdoaram os desafetos e confessaram a sua honestidade - não são só os crimes que devem ser confessados

Depuseram as armas e a violência dos gestos, apaziguados com a soma de sucessos e de fracassos.

Não se debatem contra a vida, não correm pela ansiedade de ser feliz, não se protegem com os punhos.

Eles estão fartos de brigas e empurrões, não apontam o dedo na cara de ninguém. Andam sem escudo, com o peito de pombos estufados, abertos, sem necessidade de voar para algum lugar.

Publicado em O Globo em 02/11/2017

MEU CARRO É ÍMÃ DE CHUVAS

Há simpatias que funcionam perfeitamente. Pena que ao contrário. Sempre que lavo o carro, chove. Confiro a previsão no celular e não dizia nada de temporal. Prometia sol e estabilidade. É deixar o veículo na lavagem que as nuvens começam a se amontoar e o céu escurecer.

É uma queda d’água repentina, não é nem educada a ponto de mandar relâmpagos para me dissuadir do capricho.

Não encontro formas de prevenção. Ao sair de casa, predominava a ordem solar de cartão-postal, é impossível se preparar.

Tampouco tenho com quem reclamar da propaganda enganosa. Resta-me bufar. Não consigo aproveitar a limpeza e o brilho por 24 horas. Não receberei elogio nenhum dos familiares. Não há como impressionar e se destacar na fileira empoeirada do estacionamento. Não gozo do bem-estar da lavanda. Os tapetes recém limpos já estarão emporcalhados dos sapatos das poças. A alegria dura menos que a vida de uma borboleta.

Logo que lavo o carro, entro na vala comum da lama. As folhas das árvores presas no para-brisa são ironias do meu desencanto. O carro se encontra mais sujo do que antes. A vontade é retornar para a garagem e pedir o dinheiro de volta. Só não faço porque o lavador não tem culpa, não vigora nenhuma condicional na promoção, não está escrito no cartaz “lavagem grátis de novo se chover no dia”, tudo acontece dentro da loucura de minha cabeça.

Já busquei me enganar: lavar o carro quando não é para lavar, ou aparecer de repente sem ter planejado. Ou solicitar que a minha mulher leve até lá. Mas não driblo a maldição. Vai acontecer igual querendo ou não querendo.

Chove e choverá quando entregar as chaves para o moço dos baldes e panos. Não sei por que não me candidato a meteorologista.

Publicado em Vida Breve em 1º/11/2017

A MAÇÃ DA VIRTUDE

Os avós preservavam uma sidra na estante, como um objeto de decoração em cima da televisão. Uma sidra fechada reservada para numa ocasião especial. Um troféu da intimidade que coroava a sala da residência em Guaporé (RS), despertando a curiosidade das visitas.

Não se tratava de nenhum champanhe chique, inacessível a quem vivia contando os trocados, mas uma garrafa honesta, simples, dada de presente por amigos e elevada ao céu das expectativas.

A vó sempre passava um paninho nela toda manhã enquanto encerava de lustra-móveis o resto da madeira. Existia no rótulo o desenho de uma maçã, espécie de único Apple da vida analógica do interior.

Cada dia poderia ser o dia ilustre da abertura da bebida. Não sei o que poderia desencadear a festa. Somente os avós guardavam os requisitos para a decisão.

Seria nascimento de mais um neto? Aposentadoria? Cura de uma doença familiar? Milagre econômico?

Eu, menino, esperava. Logo quando me acordava durante as minhas férias lá, verdadeiro Sítio do Pica-pau amarelo, corria para ver se os avós haviam feito a sua comemoração secreta.

Nada, nadinha, por vários verões. Ela resistiu em seu lugar de honra sem ter a rolha estourada. Não duvido que o produto já tinha passado da data de validade há muito tempo.
Atravessei uma esquisita melancolia pelo seu não aproveitamento. Parecia que meus avós nunca encontravam a felicidade para abrir a sidra. Não achavam um pretexto significativo. Eu vivia constrangido pela tristeza da rotina, distante de um sobressalto alegre para brindar os cálices.

Até que percebi, quando morreram, quando embrulhávamos os pertences dos dois em caixas de papelão, quando segurei o recipiente verde na mão para alisar o carpete das letras, já enrugado, que estava profundamente enganado. O sumo fermentado não precisava ser usado – o seu sentido residia em criar expectativa. Ele fornecia esperança, gerava futuro, conservava um algo a mais para a folhinha do calendário. Todo dia era feliz porque havia uma sidra na estante para ser aberta.

Eles não beberam o seu conteúdo, mas beberam a esperança até a última gota.

Publicado em Jornal Zero Hora em 31/10/2017

NENHUMA DESCULPA É INSTANTÂNEA

Quando você erra nunca tem tempo para se explicar. Sempre ficará de castigo.

Não existe retratação imediata, entenda isso, não há desculpa instantânea, não receberá o indulto no próximo minuto.

Nem conseguirá argumentar. Gaguejará as primeiras palavras de arrependimento, e o microfone do coração será cortado. A pessoa agredida com a falsidade não vai querer ouvir - baterá a porta, sairá de perto, virará as costas.

Ninguém aceita bem uma mentira desfeita ou uma lealdade quebrada. O pecado tem o seu preço, os seus juros e os seus números quebrados. Aquele que foi enganado precisa de tempo para absorver a notícia.

Quanto mais demorar em dizer a verdade mais estrago produzirá na confiança.

A ingenuidade é acreditar que não importa o que tenha feito de errado, o amor prevalecerá. Todo mundo que pede perdão comete a gafe de não imaginar a recusa e a raiva após a decepção. Todo mundo que pede perdão é romântico e se ferra. Desenha o melhor dos cenários e não cogita o cancelamento do show.

No relacionamento, o conserto depende da difícil reposição. Não é só chegar na oficina sentimental e aguardar a troca sumária das peças.

Talvez a convivência jamais seja a mesma, talvez a amizade jamais readquira a sua espontaneidade.

Voltar a confiar é uma das missões mais complicadas da vida, pois depende da benevolência da memória e da força de vontade.

Qualquer confissão implica em trabalho para reconquistar o outro. Passará uma semana inteira telefonando ou aparecendo de repente sem chance alguma de ser atendido. Desculpa se alcança com insistência.

Terá que gastar a fortuna de seus dias e de sua paciência. Dependendo da gravidade da falha, exigirá meses ou anos ou quem sabe nunca se concretize um retorno. Mas não tem como ser diferente, não tem como ser indiferente, não tem como seguir uma relação sem honestidade.

Publicado em Donna ZH em 29/10/2017

A DITADURA DAS UNHAS

Que deixe uma semana sem fazer as unhas. Que se permita uma unha descolorida, uma unha gasta, uma unha desfeita, não há maior libertação do que participar de uma reunião com somente o coração da unha pintado e as bordas descascadas.

Que não se importe com o que o namorado pensa, com o julgamento do amor, com a cobrança da paixão. Peça primeiro para que ele arrume as cutículas das palavras e aja com educação e respeito.

Que não sofra com a obrigação da manicure semanal, a ponto de morrer pela aparência. A liberdade não é ansiosa. Não se escravize para agradar. Desligue a câmera dos outros em si.

Uma unha limpa e pura tem o seu valor, a sua sedução, a sua tranquilidade. Assim como os dentes, combinam com o guarda-roupa inteiro.

Não aceite a imposição de sempre cavar um horário a ponto de enlouquecer. Que o salão seja um prazer, que a bacia de água quente se faça em batismo. Não enxergue a poltrona como uma extrema unção, um deus-me-acuda, um senhor chefe me acusa.

A obrigação é machismo, achismo, controle. Que as mãos espalmadas não sirvam para algemas, e sim para o pássaro do pincel relaxar do voo e espalhar a tinta.

É inaceitável o jugo. A perfeição é pressão. Resista. Pule o calendário de vez em quando, salte a agenda ora e vez.

Qualquer pessoa riscará as unhas digitando, mexendo no celular, dirigindo o carro, escolhendo as chaves. Não é problema do esmalte, mas de mentalidade. Não volte para reparar, não entre em pânico para corrigir: abandone as cismas pelo improviso.

Não existe como se prevenir do acidente, da fricção, do contato. Mulheres não são bonecas para a exibição em caixa e plástico. Unhas desfeitas não correspondem a defeitos de fábrica. Cuspa as pilhas para fora das costas. Não se apequene para se mostrar impecável. Não se diminua para impressionar.

A naturalidade é afrodisíaca. Segure a felicidade com a ponta das unhas, sem medo de estragar.

Publicado em UOL em 27/10/2017

O HOMEM É O SEXO FRÁGIL

Durante almoço em uma cantina em Erechim, cidade gaúcha quase divisa com Santa Catarina, fui surpreendido pela entrada triunfal de um grupo de terceira idade. Mais de 150 mulheres felizes, ruidosas, dançantes. Dediquei um torcicolo para elas - mereciam. Tenho torcicolo a cada quatro anos, raro como uma Copa do Mundo, e pressenti que era o momento. Deveria aproveitar e girar a cabeça com força total para não perder nenhum dos movimentos daquele exército.

Elas desfrutavam de uma alegria fora do comum: desembaraçadas e sinceras nas gargalhadas. Não havia nenhum homem para atrapalhar. E não havia nem mesmo esperando em casa. Noventa por cento da comitiva era viúva. As meninas na faixa dos 70 a 90 anos estavam livres na pista de dança.

No começo, faziam piada de que mataram os seus maridos no cansaço, pouco a pouco. Os senhores foram incapazes de acompanhar a maratona amorosa.

- Tadinhos, exigíamos muito deles na subida e ficaram sem fôlego na descida.

Mas a comédia foi formando um estranho sentido. Elas provavam que a mulher é o sexo forte, e o homem é o sexo frágil. Derrubaram o preconceito com uma acachapante ilustração de vitalidade.

Os homens morrem cedo, é uma verdade absoluta. Os homens são fracos. Os homens não tem resistência. A força física é ilusória: não faz cócegas diante da força espiritual.

E veja só: homens de outras épocas, que não precisavam cuidar de casa, dos filhos, trabalhar ao mesmo tempo em que unificavam a família. Homens com a metade das obrigações femininas. Homens que não passaram por nenhuma gravidez em seu corpo, que não saíram à rua para garantir direito ao voto, igualdade em concursos públicos e salários equivalentes. Homens que não queimaram os sutiãs e não empreenderam revoluções culturais para o livre-arbítrio da mesa e da cama. Homens que não combaterem as leis e não asseguraram o divórcio. Homens que não experimentaram o desgosto da solidão e da incompreensão, homens que não enfrentaram o vexame de esconder as suas fantasias e economias da própria companhia. Homens que não passaram por nenhuma cobrança para se arrumar, para manter as unhas pintadas e a aparência impecável. Homens que não eram condenados a sorrir amarelo em público e chorar azul no quarto. Homens de aceitação social fácil e orgânica. Mesmo assim, com uma carga infinitamente menor de responsabilidade, sucumbiram antes.

Aquelas damas derrubaram todos os reis do xadrez. Aquelas damas comemoravam o casamento delas com elas mesmas. O casamento consigo. O casamento com a guerra. O casamento com a tenacidade. O casamento com a intimidade. Quem se conhece vive mais, vive o dobro, vive os sonhos para além da idade.

Publicado em O Globo em 26/10/2017

PRECONCEITO COM AS MÃES

Ainda existe o preconceito amoroso com as mulheres que têm filhos.

Quando elas saem para dançar e namorar, afinal estão solteiras, não encontram nenhuma dificuldade para encontrar parceiros. São cortejadas, cantadas, requisitadas. Experimentam uma noite feliz, talvez uma segunda noite feliz, há química de corpo e afinidade de pensamento, tudo sugere uma continuidade e relacionamento sério. Mas, estranhamente, é contar que são mães que os homens somem. Os homens desaparecem. Eles não evaporariam se elas confessassem que estavam casadas. A infidelidade não assusta, o que amedronta é a guarda da criança.

Filho é cruz para os vampiros. É assombração da aliança. Temem o compromisso, o enlace com uma família inteira, não somente com uma pessoa. Jamais confessam o problema, pois não querem parecer insensíveis. Só que deixam clara a restrição. Não contam com nenhum motivo para o desapego, já que se deram bem.

Perdura o engano grave de que a mulher não procura um homem para si, porém um pai para seu filho. De onde tiraram essa distorção? Não pararam para pensar que o filho já tem um pai e que um papel nada tem a ver com o outro?

As mulheres maternas são livres, desinibidas, autônomas, não dependem de proteção e mesada. Não se apresentam com segundas intenções.

Jamais vão dar cano ou oferecer desculpas furadas. Detêm a virtude da simultaneidade. Disciplinadas e organizadas, aproveitam o tempo livre com intensidade. Pois conciliam as agendas de si e da cria e valorizam as folgas.

Assim como é um falso estigma de que o filho incomodará o prazer e a aventura. Não ficará segurando vela. Nem pressionará com ciúme e colo. É uma lenda que criança atrapalha. O que mais ela deseja é a felicidade de sua mãe. Desde que a felicidade seja honesta, real e sem a presença avarenta de covardes.

Publicado em Vida Breve em 25/10/2017

DOS OITO AOS 45 ANOS

Não tenho nada a reclamar de minha família. Eu fui protegido por todos eles: os pais, Carla, Rodrigo e Miguel, cada um cuidou de mim em uma fase da vida. Eles se revezavam em vigília, quando um terminava o turno, o outro assumia.

Não chegava a apresentar problemas mentais, mas tampouco parecia normal. Com dicção presa (cuspia na pronúncia de palavras mais longas), andar desengonçado e olhar parado, recebi escolta privilegiada desde cedo. Carla me arrumava, Rodrigo me traduzia, Miguel segurava a mão. Partia para a rua em comitiva.

Havia uma mobilização pela minha aceitação. Para me enturmar, a mãe preparou a festa de aniversário de oito anos aberta para a escola. Preparou convitinho de cisne para ser distribuído aos colegas.

A celebração representaria um salto em minha sociabilidade, a primeira festinha com os amigos. Durante duas semanas, o fogão não parou de madrugada, com preparação de doces, quitutes e salgados. Vivia um sonho, com a expectativa de gritarem o meu nome no "É BIG, É BIG. É HORA, É HORA. RÁ-TIM-BUM". Já antevia a cama ocupada de presentes, dormiria com eles ainda embrulhados, adivinhando o conteúdo pelo tato.

Só que a comemoração aconteceu num feriado e ninguém veio. Aguardei no portão de gravata-borboleta por duas horas. Como morava numa esquina, os passos que contornavam a rua provocavam aceleramento cardíaco. O susto não se cumpria em surpresa: sem a sorte de um abraço e de um riso cúmplice.

Quando entrei de volta para a residência, completamente arrasado, eu vi a minha mãe escondendo as suas lágrimas sentada na mesa da cozinha. Assim como ela sofria comigo, eu sofri por ela. Nosso maior abatimento é com a dor de quem amamos. A minha tristeza logo passou com a tristeza dela. Pois a tristeza dela era maior do que a minha e busquei consolá-la:

– Não há problema, mãe, a gente congela a torta e usa no ano que vem.

Hoje, completo 45 anos, e queria dar os parabéns para os meus pais e irmãos. Valeu o esforço, vocês conseguiram: eu me sinto amado.

Publicado em Jornal Zero Hora em 24/10/2017

VOCÊ É UMA ABELHA OU UMA MOSCA DO AMOR?

Você pode ser uma abelha ou uma mosca no relacionamento.

A abelha busca o pólen, prepara longamente o mel do seu esforço, articula as asas em nome da colmeia, chega a esquecer de si pela alvoroço da família, tem a euforia de passear acompanhada, não protesta pela casa e alma cheias. Mesmo quando a vida não ajuda, trabalha a esperança. Não entrou num romance para esperar algo, mas para fazer. Não reclama à toa, partilha os seus dilemas procurando uma solução. A dúvida a inspira a perseguir novos jardins e explorar outras paisagens.

Por sua vez, a mosca namora ou casa já pensando no divórcio, já receosa do fracasso, já aguardando a confirmação de seus medos. Sempre tem razão, sempre replica expectativas desagradáveis. Quer provar que o seu par não presta, ainda que tenha que se privar da própria felicidade.

Ela sobrevoa sobras mortas e fica catando implicâncias superadas. Adota o ciúme para desqualificar, emprega a competição para constranger. Não avalia a sua alegria por aquilo que pode oferecer, mas por aquilo que pode receber. Não vai adiante nas adversidades, para no ar, fixa-se no passado. Revela o pior de sua companhia, desmerecendo os elogios e omitindo os avanços. O
olhar é songamonga, jamais se contentando com pequenas (e sublimes) demonstrações de apreço. Não cria o seu espaço, aproveita-se da personalidade alheia. Suga apenas a realidade de suas projeções, pois nenhuma mosca é capaz de morder ou mastigar os problemas. Acha que o outro não precisa de nada, não valoriza a intimidade, jura que as discussões serão resolvidas automaticamente sem contrapartida de atitude.

A mosca finge que está tudo bem quando está mal, finge que está mal quando está tudo bem, não enfrenta a verdade, conversa fatiado realizando muitas coisas paralelamente, isenta-se pela pressa dizendo que não é a melhor hora para mudar (nunca é a melhor hora), não coloca a sua companhia como prioridade, deixa o telefone tocar quando vê o nome, não retorna a ligação de imediato, conserva uma atenção dispersiva, arruma pretextos para não se mexer, não pede desculpa porque não acredita no parceiro, subestima qualquer reivindicação por ternura (considera tudo um drama), não agradece a vigília do respeito, não retorna gentilezas, não se prontifica a favores, descuida das preocupações fora do seu universo, quando fala fala somente de si, não se interessa com o que pode ser feito a dois, não percebe cenas românticas e roupas sensuais, arma-se de uma pendência no trabalho ou um assunto mais importante a resolver para manter a confortável inércia.

A mosca é egoísta, a abelha é solidária. A mosca é do contra, a abelha é a favor. A mosca é conformada, a abelha é curiosa. A mosca provoca enterros, a abelha apressa renascimentos. A mosca revira o lixo das contradições, a abelha organiza o caos e separa o útil do fútil. A mosca incomoda, a abelha incentiva. A mosca não defende ninguém, a abelha possui a ferroada para proteger quem ama. A mosca abandona, a abelha carrega.

Ambas voam. Mas só a abelha sobe alto no amor.

Publicado em Donna ZH em 22/10/2017